A aproximação entre Cleitinho Azevedo e Gabriel Azevedo é uma boa notícia para Minas Gerais. O governador eleito reconhece, ao convidar um antigo adversário para ajudá-lo, que vencer uma eleição e administrar um Estado exigem capacidades diferentes. A popularidade abre a porta do palácio. Não organiza, sozinha, o que acontece lá dentro.
Gabriel aceitou o convite para participar da transição. Pela nossa apuração foi chamado para o futuro secretariado e para colaborar nas discussões sobre os demais integrantes do governo. O encontro ocorreu em 9 de outubro, em Belo Horizonte. A pasta que poderá assumir ainda não foi divulgada. A transição será coordenada pelo vice-governador eleito, Luís Eduardo Falcão.
Portanto, há uma aproximação concreta, mas ainda faltam as definições que permitirão medir seu alcance. Gabriel terá uma atribuição específica na transição? Participará das decisões centrais? Qual secretaria ocupará? E, sobretudo, com que autonomia? Na política, o convite costuma vir com flores. As atribuições, às vezes, chegam com espinhos.
A eleição acabou; começa a gestão
Cleitinho precisava incorporar pessoas capazes de transformar sua força eleitoral em capacidade administrativa. Nenhum governador consegue conduzir Minas apenas com carisma, indignação e comunicação eficiente. O Estado exige planejamento, conhecimento jurídico, negociação política e escolhas difíceis sobre recursos limitados.
Esse é o sentido mais promissor do convite. Buscar competência fora do próprio círculo demonstra uma disposição que merece reconhecimento. A democracia também serve para isso: adversários disputam projetos, o eleitor decide e, depois, a colaboração pode acontecer sem que ninguém precise apagar a campanha da memória.
Gabriel, a meu ver, está entre os políticos mais preparados dessa nova geração, especialmente na discussão de mobilidade, organização das cidades e gestão pública. Sua capacidade de formular propostas e enfrentar debates de conteúdo é um patrimônio que Minas pode aproveitar. Isso não lhe concede um certificado antecipado de sucesso: o Executivo será a prova da execução.
Sua trajetória inclui dois mandatos como vereador de Belo Horizonte, a presidência da Câmara Municipal e passagem pela Subsecretaria de Juventude do Estado. Há experiência institucional e conhecimento do funcionamento da máquina pública. Mas administrar uma secretaria estadual acrescenta outra escala de responsabilidade. Ter boas ideias é indispensável; fazê-las atravessar orçamento, contratos e burocracia é o trabalho.
Competência precisa de espaço
O ponto decisivo será saber se Cleitinho deseja incorporar também as ideias de Gabriel. Uma coisa é convidar alguém bem preparado. Outra é aceitar que essa pessoa questione prioridades, imponha critérios e diga que determinada promessa não cabe no orçamento ou depende de uma solução mais complexa.
Em mobilidade, por exemplo, anunciar uma obra não resolve sozinho o deslocamento das pessoas. É preciso integrar transporte, uso do solo, financiamento e responsabilidades de diferentes governos. A gestão começa justamente onde termina a frase fácil.
Não há informação suficiente para atribuir a Gabriel uma futura pasta de mobilidade, infraestrutura ou planejamento. Seria transformar afinidade temática em nomeação por conta própria. O que cabe cobrar é coerência entre seu perfil, suas responsabilidades e os instrumentos que receberá para trabalhar.
Sua participação nas discussões sobre o secretariado também merece atenção. Se tiver influência efetiva, poderá ajudar a estabelecer critérios de competência. Se apenas for ouvido enquanto as decisões seguem exclusivamente os compromissos políticos, o ganho será pequeno. Um governo precisa de alianças, mas não pode tratar cada secretaria como recibo de uma dívida eleitoral.
A sombra do padrinho
Numa outra decisão do futuro governador, interlocutores do Republicanos veem a nomeação de um deputado federal eleito para o secretariado como caminho para permitir que Euclydes Pettersen, que terminou a eleição como suplente, assuma uma cadeira na próxima legislatura. Bruno Farias foi sondado para a Saúde, mas descartou o convite. Gilberto Abramo aparece nas conversas sobre uma possível função no Executivo. A hipótese ainda é incipiente, conforme a reportagem: há movimentação política, não uma nomeação consumada.
Pettersen, presidente estadual do Republicanos e padrinho político de Cleitinho, ajudou a viabilizar sua candidatura. Foi indiciado pela Polícia Federal sob suspeita de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa na investigação das fraudes do INSS. Ele nega participação nas irregularidades. Indiciamento não é condenação, mas tampouco é detalhe irrelevante na avaliação política de uma escolha.
Se uma secretaria for preenchida principalmente para liberar uma cadeira ao padrinho, o critério administrativo ficará subordinado à conveniência partidária. Minas precisa saber se o nome escolhido será o mais adequado para a função ou o mais útil para resolver a situação de Pettersen.
Durante a campanha, questionado sobre o aliado, Cleitinho afirmou que “o CPF é dele”. A responsabilidade criminal é individual. A responsabilidade por nomear um secretário será do governador. Não há como terceirizar essa assinatura.
Noraldino e a expansão do Republicanos
Outra movimentação revela a disposição de Cleitinho de ampliar seu grupo. O governador eleito convidou Noraldino Júnior e sua irmã, Kátia Dias, para o Republicanos caso sejam expulsos do PSB. Uma ala pessebista questiona o apoio dos dois a Cleitinho, enquanto a legenda apoiou Patrus Ananias. O convite é concreto; a mudança partidária ainda não pode ser tratada como concluída.
A iniciativa oferece abrigo a aliados e pode fortalecer o Republicanos. É uma articulação compreensível, mas mostra que o vencedor também está construindo sua estrutura de poder. Cleitinho chegou ao governo com uma comunicação de forte apelo contra práticas da política tradicional. Agora terá de mostrar quais critérios orientarão suas próprias alianças. A indignação perde força quando passa a conceder desconto aos amigos.
É nesse ambiente que Gabriel entrará. Sua presença poderá contribuir para escolhas qualificadas, mas ele também será cobrado pelos critérios que defender e pelas decisões que ajudar a construir. Competência precisa de espaço, especialmente quando contraria a conveniência.
Quanto tempo dura essa parceria?
A duração dessa relação dependerá menos da cordialidade do primeiro encontro do que da convivência com as primeiras divergências. Gabriel precisará reconhecer a autoridade do governador eleito. Cleitinho precisará compreender que autonomia técnica e opinião própria são condições para aproveitar um colaborador qualificado.
Gabriel também assume um risco. Ao entrar no governo, passará a responder pelas decisões que ajudar a construir. Seu preparo será cobrado em resultados. Não bastará ocupar uma cadeira; será necessário justificar, com trabalho, a escolha feita.
O futuro contará o resta dessa história
O convite a Gabriel é um começo acertado. A articulação em torno de Pettersen é um sinal de alerta. A aproximação com Noraldino mostra a expansão do grupo político. Juntos, os movimentos colocam uma pergunta sobre a mesa: quanto espaço haverá para a competência quando ela contrariar a conveniência?
Minas ganhará se essa parceria produzir uma administração mais competente, aberta ao diálogo e capaz de cumprir o que promete. O governador continuará responsável pelas escolhas. Gabriel precisará de meios para contribuir. E o cidadão terá todo o direito de cobrar os dois. Afinal, quem espera no ponto de ônibus não pode embarcar numa boa intenção.
