Até aqui, no tabuleiro embaralhado da política mineira, muito se falou das indefinições do PL, das hesitações de Cleitinho Azevedo, das movimentações do PT, das resistências em torno de Marília Campos e das articulações de outros grupos. Mas há uma candidatura que merece atenção especial: a de Mateus Simões, do PSD, hoje governador de Minas, herdeiro direto do governo Romeu Zema e indicado pelo próprio Zema como seu sucessor natural.
Mateus entrou no jogo com uma vantagem que poucos candidatos têm: a máquina, a caneta, a vitrine administrativa e a bênção do governador que comandou Minas por dois mandatos. No papel, parecia uma equação robusta. Ele deixava o Novo, filiava-se ao PSD, aproximava-se de Gilberto Kassab e buscava construir uma ampla frente de centro-direita e direita em torno da continuidade do atual projeto de governo.
Na largada, o discurso era de amplitude. A ideia vendida era simples, juntar os partidos que orbitavam o governo Zema e transformar esse capital político em uma candidatura competitiva ao Palácio Tiradentes. PSD, Novo, União Brasil, Podemos, PL e Republicanos eram parte desse esforço. Era a tentativa de montar uma avenida política antes que a campanha começasse de fato.
Mas política em Minas não costuma respeitar desenho de PowerPoint. Minas mastiga certezas devagar, com queijo, café e uma dose generosa de desconfiança.
O capital político de Mateus
Hoje, de forma mais clara, Mateus Simões tem o PSD, o Novo, o Podemos e o União Brasil no seu campo de sustentação. Não é pouco. É uma base relevante, com capilaridade, prefeitos, deputados, tempo político e presença institucional. O problema é que, para uma eleição estadual dura, isso ainda pode não ser suficiente. A candidatura de Mateus precisa atrair mais musculatura. E, nesse ponto, dois partidos se tornaram centrais, Republicanos e PL.
Com o Republicanos, o problema tem nome, sobrenome e voto: Cleitinho Azevedo. O senador ocupa hoje um espaço popular que Mateus ainda tenta conquistar. Fala direto, comunica com facilidade, tem identificação com uma parcela expressiva do eleitorado e domina a linguagem das redes. É o oposto do perfil de Mateus, mais técnico, mais administrativo, mais gabinete, mais planilha do que palanque.
A relação entre os dois não é boa. Cleitinho não gostou das avaliações feitas por Mateus sobre seu desempenho e sua atuação política. A partir daí, a aproximação ficou mais difícil. E, em política, vaidade ferida costuma pesar mais do que ata de reunião. Uma frase mal recebida pode fechar portas que dez articuladores tentam abrir depois.
Com o PL, a complicação é outra: o palanque presidencial. Romeu Zema é candidato do Novo à Presidência. O Novo faz parte da chapa de Mateus. E Mateus, até pouco tempo atrás, era do próprio Novo. Por mais que esteja hoje no PSD, ele carrega no sobrenome político a marca do zemismo.
Para o PL, isso pesa. O partido quer um palanque claro para a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro em Minas. Não quer repetir ambiguidades, nem dividir fotografia, nem entrar numa campanha em que o candidato ao governo esteja comprometido com outro presidenciável. Nesse ponto, Mateus enfrenta uma contradição difícil, precisa do PL em Minas, mas não pode se afastar de Zema, que é sua origem, seu fiador e seu principal ativo político.
Chegou-se a cogitar, inicialmente, uma composição com Mateus na cabeça da chapa e Domingos Sávio, do PL, como vice. Esse desenho poderia simbolizar a união da direita mineira em torno da continuidade do governo. Mas esse caminho foi perdendo força. Domingos Sávio já se colocou como pré-candidato ao Senado pelo PL, e o partido passou a olhar com mais atenção para outras possibilidades, especialmente em torno de Cleitinho.
Os caminhos percorridos por Mateus
Enquanto isso, Mateus se esforça para percorrer Minas. O governo itinerante, com agendas regionais e mobilização de prefeitos, é uma tentativa clara de transformar administração em presença política. E faz sentido. Em Minas, prefeito não é detalhe. Prefeito é estrada, é bairro, é igreja, é sindicato, é posto de saúde, é grupo de WhatsApp, é carreata improvisada e cafezinho servido em copo americano. Campanha de governador sem prefeito é missa sem sino.
Mas há uma diferença entre ter prefeito e ter eleitor. Prefeito ajuda, organiza, abre porta, junta liderança e dá lastro territorial. Só que o prefeito não transfere voto por decreto. A eleição moderna exige também narrativa, emoção, reconhecimento e imagem pública. E é exatamente aí que Mateus ainda parece enfrentar seu maior desafio.
Nas pesquisas, seu nome não deslanchou. Mesmo ocupando o governo, mesmo carregando a marca da continuidade, mesmo com estrutura partidária importante, Mateus ainda não conseguiu transformar presença institucional em entusiasmo eleitoral. Seu desempenho indica que a campanha ainda não encontrou uma forma eficiente de apresentar quem ele é para além da função que ocupa.
Mateus Simões ainda é mais conhecido como sucessor de Zema do que como personagem próprio. É o herdeiro, mas ainda precisa provar que tem testamento político assinado pelo eleitor. É o gestor, mas precisa mostrar se consegue ser líder de campanha. É o homem da continuidade, mas precisa convencer que a continuidade também pode ter alma, movimento e futuro.
A reconstrução de um novo Mateus
Mateus ainda é visto como o gestor, o homem de gabinete, o técnico competente. Ele tenta se apresentar agora como homem de ação, de campo, de transformação. Isso é possível, mas não é automático. O eleitor percebe quando uma imagem nasce da experiência real e quando nasce apenas da estratégia de marketing. Campanha boa não inventa candidato; no máximo, ilumina o que já existe.
E aí mora a incógnita. Quando a campanha for para a rua, para a televisão, para o rádio e para as redes, qual Mateus será apresentado ao eleitor? O técnico que arrumou a casa? O sucessor fiel de Zema? O governador em exercício que percorre Minas? O candidato da centro-direita racional? O gestor contra o improviso? Ou o homem que tenta sair da sombra do padrinho para ocupar sozinho o centro do palco?
A resposta a essa pergunta pode definir o tamanho real da candidatura.
Mateus tem ativos importantes: governo, base, estrutura, partidos, prefeitos e a associação direta com Zema. Mas também tem obstáculos evidentes. A dificuldade de ampliar alianças, o impasse com o PL, a tensão com Cleitinho, a baixa tração popular nas pesquisas e o desafio de criar identidade própria.
A campanha de Mateus Simões, portanto, vive um paradoxo. É forte por dentro da política, mas ainda precisa ficar forte por fora dela. Tem base, mas precisa de calor. Tem estrutura, mas precisa de voto. Tem governo, mas precisa de rua. Tem Zema, mas precisa de Mateus.
Em Minas, eleição não se ganha apenas herdando o governo. Ganha-se quando o eleitor aceita a herança. E, por enquanto, Mateus Simões ainda tenta convencer Minas de que não é apenas o nome indicado por Zema, mas um candidato capaz de andar com as próprias pernas pelas montanhas longas e desconfiadas da política mineira.
