O Ministério da Saúde adverte: o conteúdo a seguir contém fina ironia. Pessoas com intolerância ao sarcasmo devem procurar orientação antes de prosseguir.
O debate da Globo foi um espetáculo.
Aliás, foi tão espetacular que não houve debate.
Poucas vezes a política brasileira conseguiu produzir, em tão curto espaço de tempo, uma peça tão completa de teatro do absurdo. Tínhamos candidatos, estúdio, regras, jornalistas, câmeras, iluminação, púlpitos e milhões de eleitores esperando.
Faltava apenas um pequeno detalhe: deixar o debate acontecer.
E então entrou em cena a Justiça.
A ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral, decidiu que a Globo não poderia mostrar o púlpito vazio de Luiz Inácio Lula da Silva, que havia comunicado que não compareceria ao encontro. Também proibiu que os candidatos presentes fizessem as perguntas que dirigiriam ao presidente ausente.
A justificativa foi que a exposição do espaço vazio e perguntas sem possibilidade de resposta poderiam produzir desequilíbrio entre os participantes.
É uma construção jurídica fascinante. Descobrimos, portanto, que cadeira vazia adquiriu direitos políticos, e que o móvel não pode ser constrangido.
O púlpito precisa ser preservado da exposição pública.
E a ausência de um candidato deve aparentemente ser tratada com tamanha discrição que o eleitor quase precisa ser protegido da perturbadora informação de que o candidato… não apareceu.
Há um detalhe especialmente incômodo.
Segundo a Globo, a regra estava prevista na ata acertada com as campanhas. Em caso de ausência, o púlpito permaneceria vazio e identificado. Também havia previsão para perguntas destinadas ao candidato ausente.
E, segundo a emissora, todos os partidos haviam assinado as regras, inclusive o PT.
Lula tinha todo o direito de não comparecer. Debate não é serviço militar obrigatório.
Mas o eleitor também tem o direito de saber quem compareceu e quem decidiu não comparecer.
Uma cadeira vazia não condena ninguém, não profere sentença, não pede voto, não espalha fake news e, até onde sabemos, jamais tentou dar um golpe de Estado.
Ela simplesmente está vazia.
Transformá-la em instrumento potencialmente lesivo a uma candidatura exige uma criatividade jurídica que talvez mereça disciplina própria nas faculdades de Direito.
E então chegou Gilmar
Mas o espetáculo estava apenas começando.
Gilmar Mendes, sempre ele, apareceu no segundo ato.
O ministro do Supremo Tribunal Federal determinou que Renan Santos, candidato do Missão, fosse incluído no debate.
Aqui o enredo ganha contornos de realismo fantástico.
Renan não preenchia o requisito legal que obrigaria a emissora a convidá-lo. Seu partido não alcançava a representação mínima estabelecida para garantir presença obrigatória no debate.
Mais curioso ainda: o presidente do TSE, Nunes Marques, havia negado pedido para assegurar sua participação. Outra tentativa perante o Supremo também não prosperara com Cármen Lúcia.
Parecia encerrado. Parecia.
No Brasil, principalmente em Brasília, a palavra “encerrado” muitas vezes significa apenas que ainda não encontraram a porta correta do gabinete.
O Solidariedade entrou em campo e Gilmar Mendes determinou a participação de Renan Santos.
A Globo recebeu a decisão faltando pouco para o programa.
E assim descobrimos outra extraordinária inovação institucional brasileira.
Quando uma emissora organiza um debate presidencial, aparentemente precisa consultar a legislação eleitoral, seu departamento jurídico, os partidos, o TSE, o STF e, por prudência, talvez seja recomendável conferir quem está com o celular ligado em Brasília naquela noite.
Porque nunca se sabe quem poderá reorganizar o estúdio.
Renan, Flávio e o presente inesperado
Politicamente, a entrada de Renan Santos acrescentava outro ingrediente.
Renan vinha dirigindo críticas duras a Flávio Bolsonaro durante a campanha. A presença dos dois no mesmo palco prometia confronto.
O efeito político era objetivo. Colocaria diante do candidato do PL um adversário disposto a confrontá-lo.
O resto pertence ao maravilhoso território brasileiro das coincidências. E coincidência, como sabemos, é uma das instituições mais sólidas da República.
Flávio Bolsonaro acabou anunciando que não compareceria. Vinculou publicamente sua desistência à decisão do TSE sobre o púlpito vazio de Lula. A determinação de Gilmar sobre Renan tornou-se pública minutos depois.
No fim:
Lula não foi.
Flávio não foi.
Renan conseguiu entrar por decisão judicial.
E a Globo decidiu que também não iria.
Cancelou o debate.
O verdadeiro debate aconteceu nos tribunais
É aqui que a história deixa de ser apenas engraçada.
A discussão deixou de ser sobre aquilo que os candidatos fariam com inflação, segurança, saúde, educação, contas públicas, relações internacionais ou crescimento econômico.
Passou a ser sobre quem poderia participar, quem poderia faltar, se a ausência poderia ser mostrada e se um púlpito vazio poderia aparecer na televisão.
O debate presidencial virou debate sobre o debate. E os protagonistas deixaram de ser os candidatos para serem ministros de tribunais superiores.
A Globo afirmou que as sucessivas decisões tomadas pouco antes do programa provocaram insegurança jurídica e representaram interferência indevida na liberdade dos veículos de comunicação para organizar debates eleitorais.
Esse é o ponto institucional que merece atenção.
É legítimo que a Justiça intervenha quando uma regra viola a legislação ou direitos assegurados aos candidatos.
Outra coisa é chegar às portas de um programa nacional e redesenhar regras previamente estabelecidas.
Ainda mais quando tribunais e ministros produzem decisões diferentes sobre questões semelhantes. O eleitor olha para tudo isso e faz uma pergunta bastante simples:
Afinal, qual é a regra?
Depende.
E “depende” é uma palavra perigosíssima quando pronunciada poucos dias antes de uma eleição presidencial.
Mas havia outro debate acontecendo
Só que a noite de quinta-feira produziu uma segunda história.
E talvez ela seja tão importante para nós, profissionais de comunicação, quanto a confusão jurídica.
Enquanto o debate da maior emissora de televisão do país desaparecia da programação, os dois principais candidatos continuaram falando para multidões.
Só mudaram de endereço.
Lula já havia anunciado que não iria à Globo e decidiu participar do Flow Podcast, apresentado por Igor Coelho e transmitido pelo YouTube.
A entrevista começou por volta das 20h53, pouco antes do horário originalmente reservado ao debate.
Do outro lado, depois de desistir do debate, Flávio Bolsonaro organizou sua própria transmissão, chamada “Sem Censura”, no canal TV Celular Flávio Bolsonaro, também no YouTube, além da divulgação pelas suas redes sociais.
E aqui está a parte que deveria fazer soar uma sirene dentro de cada redação brasileira.
Eles encontraram público. Muito público.
Quase dois estúdios de televisão dentro de um celular
A entrevista de Lula no Flow chegou a aproximadamente 1,65 milhão de espectadores simultâneos. Em determinado recorte, somada a retransmissão pelo canal do próprio Lula, havia cerca de 1,79 milhão de pessoas conectadas às transmissões relacionadas à entrevista.
Flávio Bolsonaro também reuniu centenas de milhares de espectadores. Uma medição posterior apontou pico próximo de 1.000.000 (Hum milhão) simultâneos.
É preciso fazer uma ressalva, esses números não podem ser comparados diretamente com os pontos de audiência da televisão aberta.
São métricas diferentes.
Também representam picos simultâneos, e não necessariamente audiência média ou número total de pessoas alcançadas.
Mas ignorar a dimensão desses números seria ainda mais equivocado.
Porque aconteceu algo simbolicamente poderoso.
O debate da maior televisão do Brasil foi cancelado e os dois candidatos que polarizam a eleição simplesmente montaram seus próprios palcos digitais.
Lula escolheu um podcast.
Flávio escolheu uma live própria.
Um utilizou um ambiente digital consolidado, com entrevistador e formato de conversa longa.
O outro preferiu comunicação direta, controlada pela própria campanha, com aliados e apoiadores.
Estratégias diferentes.
Mas uma conclusão comum: nenhum dos dois precisou da televisão aberta para falar com uma audiência gigantesca.
O recado para nós
Talvez seja essa a parte da história que nós, profissionais das chamadas mídias tradicionais, deveríamos observar com mais humildade.
Durante décadas, a televisão, o rádio e os grandes jornais funcionaram como porteiros do debate público.
Para um candidato chegar a milhões de brasileiros simultaneamente, precisava atravessar nossos portões.
Precisava sentar diante de um jornalista. Precisava aceitar perguntas. Precisava se submeter a algum grau de contraditório. Esse mundo está desaparecendo.
Não significa que televisão, rádio, jornal e portal perderam importância.
Longe disso.
Significa que perderam a exclusividade da distribuição. E essa diferença é gigantesca.
O candidato agora pode olhar para uma emissora e dizer:
“Não vou.”
Liga uma câmera. Abre o YouTube. Publica no Instagram. Distribui cortes no TikTok. Convoca seguidores pelo WhatsApp. Transforma trechos em Shorts. Espalha frases no X. E chega diretamente ao eleitor.
Não precisa necessariamente de antena. Não precisa de concessão pública. Não precisa de parque gráfico. E, em determinados casos, não precisa sequer de jornalista.
Precisa de conexão. E de audiência.
Essa talvez seja a mudança estrutural mais importante.
O político deixou de ser apenas fonte da notícia.
Ele passou a ser também produtor, editor e distribuidor do próprio conteúdo.
A campanha virou uma empresa de mídia. O discurso completo vai para o YouTube. O trecho emocional vai para Instagram e TikTok. A frase de impacto vai para X. O chamado para militância circula pelo WhatsApp.
O corte de trinta segundos atravessa grupos familiares antes que o telejornal termine seu primeiro bloco.
E o algoritmo faz aquilo que durante décadas coube ao diretor de programação: decide o que será distribuído.
Só que existe uma diferença fundamental.
O diretor de televisão escolhia o que colocar no ar. O algoritmo escolhe aquilo que acredita que fará você continuar olhando para a tela.
É uma mudança monumental.
Há liberdade, mas há perigo
Esse novo ambiente democratiza a comunicação.
Um candidato pode falar sem depender da decisão editorial de uma grande emissora. Um veículo pequeno pode competir por atenção com estruturas milionárias. Um podcast pode reunir audiência comparável, em escala digital, à de grandes produtos tradicionais.
Mas existe o outro lado.
O político também pode escolher ambientes mais confortáveis. Pode selecionar interlocutores. Pode evitar determinadas perguntas. Pode falar diretamente para quem já concorda com ele.
Pode produzir comunicação sem contraditório e transformá-la em conteúdo com aparência jornalística.
A fragmentação oferece liberdade. Mas também produz bolhas.
E esse é precisamente o ponto em que o jornalismo profissional precisa recuperar sua importância.
Não pela arrogância de quem controla o microfone. Mas pela credibilidade de quem faz a pergunta que o entrevistado preferia não ouvir.
Daí, enquanto a Justiça discutia se uma cadeira vazia poderia aparecer na televisão, milhões de brasileiros já estavam olhando para outra tela.
Uma tela de quinze centímetros.
A velha mídia discutia o cenário. A nova comunicação já havia mudado de endereço.
E o grande ausente?
Toda essa movimentação produziu um resultado curioso.
Augusto Cury, Ronaldo Caiado e Romeu Zema chegaram aos estúdios da Globo para participar do debate. O programa foi cancelado.
Lula estava no Flow. Flávio estava em sua própria live.
Renan havia conquistado judicialmente o direito de participar de um debate que deixou de existir.
E o eleitor perdeu a oportunidade de ver os candidatos submetidos às mesmas regras, no mesmo ambiente e diante uns dos outros.
Esse é o prejuízo democrático concreto. Porque entrevista não é debate. Podcast não é debate. Live de campanha não é debate.
Cada formato tem valor próprio, mas nenhum substitui integralmente o confronto direto, em condições comuns, no qual um candidato pode questionar a afirmação do outro imediatamente.
Ainda assim, a noite de quinta-feira ensinou duas coisas.
A primeira é institucional.
A interferência judicial de última hora nas regras de um debate nacional produziu insegurança suficiente para que a emissora decidisse cancelar o programa.
A segunda é tecnológica.
Os candidatos descobriram — ou confirmaram — que podem contornar a mídia tradicional e falar diretamente para milhões de pessoas.
Uma lição é para Brasília.
A outra é para nós.
A de Brasília é simples:
nem tudo precisa terminar no gabinete de um ministro.
A nossa é mais desconfortável:
nem tudo precisa começar num estúdio de televisão.
O debate da Globo foi um espetáculo. Não aconteceu.
A cadeira vazia foi protegida.
Renan entrou e não entrou.
Os candidatos desapareceram do estúdio e reapareceram na internet.
E milhões de brasileiros acompanharam tudo pelo celular.
Talvez a imagem definitiva dessa eleição não seja uma cadeira vazia.
Talvez seja uma televisão ligada numa sala vazia enquanto, no sofá, alguém assiste à eleição pelo telefone.
O mundo mudou de tela.
Quem trabalha com comunicação e ainda não percebeu isso corre o risco de descobrir, muito em breve, que a verdadeira cadeira vazia era a nossa.
