Os argentinos perderam muito tempo tentando convencer o mundo de que Maradona era o maior jogador de futebol de todos os tempos. Não que lhes faltasse argumento. Diego Armando Maradona foi mesmo um gênio. Um desses seres que aparecem de tempos em tempos para desmentir a lógica, humilhar a geometria e fazer da bola uma espécie de animal doméstico, obediente aos caprichos do dono.
Maradona não jogava futebol. Maradona provocava o futebol. Ele pegava a bola como quem pegava uma discussão, uma briga de bar, uma causa perdida, e saía com ela debaixo do braço, ou melhor, colada no pé esquerdo, atravessando adversários, regras, gramados ruins, juízes, câmeras, governos, pecados e santos.
Diego era excesso. Era barroco. Era drama. Era tango com chuteira. Era o menino pobre de Villa Fiorito carregando uma nação inteira no peito, como se a Argentina coubesse toda ali, entre a camisa 10, o suor e a fúria.
Mas talvez, nessa paixão compreensível por Maradona, os argentinos tenham se apressado demais. Quiseram fazer de Diego o dono absoluto de um trono que já tinha rei. E rei, no futebol, havia um: Pelé.
Pelé não foi apenas o maior jogador brasileiro. Pelé foi a invenção moderna do futebol. Antes dele, o jogo já existia. Depois dele, passou a sonhar mais alto. Pelé deu ao futebol uma grandeza estética, atlética e simbólica que ninguém havia dado. Fez gol de todo jeito, com os dois pés, de cabeça, de peito, de alma. Ganhou três Copas do Mundo. Encantou reis, operários, crianças e generais. Foi preto, brasileiro, pobre, menino de Minas e do mundo, e mesmo assim obrigou o planeta inteiro a chamá-lo de rei.
Não era pouca coisa. Não é pouca coisa.
Por isso, a comparação entre Pelé e Maradona sempre teve algo de injusto, embora inevitável. Era como comparar dois incêndios diferentes. Pelé era a luz plena, o sol do meio-dia, o atleta perfeito, a majestade em movimento. Maradona era o raio cortando a madrugada, a genialidade em estado de rebeldia, o artista que parecia jogar contra o mundo e, muitas vezes, contra si mesmo.
A Argentina amou Maradona porque Maradona parecia argentino até nos defeitos. Era grandioso e contraditório, sublime e ferido, santo e pecador, herói e problema. Havia nele uma humanidade escancarada, quase indecorosa. Maradona não escondia as rachaduras. Pelo contrário, jogava com elas.
Mas o tempo, esse velho cronista de pernas curtas e memória longa, estava guardando outra resposta.
A Argentina ainda teria Lionel Messi.
E aí a conversa mudou.
Messi chegou sem a teatralidade de Maradona. Não entrou no mundo como um trovão. Entrou quase pedindo licença. Baixinho, tímido, de fala mansa, rosto de menino que parece sempre estar procurando a mochila da escola. Não tinha a pose do herói trágico. Não tinha o grito permanente da revolta. Não parecia carregar um país no peito; parecia carregar apenas uma bola no pé.
Mas que bola.
Messi foi crescendo diante dos nossos olhos como crescem certas árvores raras: em silêncio, com paciência, sem pedir aplauso. Um drible aqui, uma arrancada ali, um gol impossível acolá. Quando a gente percebeu, ele já tinha transformado o futebol em uma forma de escrita. Messi escreve com a perna esquerda. Escreve curvas, pausas, vírgulas, pontos de exclamação. E, às vezes, escreve poemas inteiros entre a intermediária e a pequena área.
O mais impressionante em Messi é que ele não parece fazer força. Os outros correm. Messi desliza. Os outros chutam. Messi acaricia. Os outros enfrentam marcadores. Messi negocia com o espaço, conversa com o tempo, engana a física e deixa os zagueiros com aquela cara de quem acaba de perder o ônibus no ponto.
Maradona era explosão. Messi é precisão.
Maradona rasgava o campo. Messi costura.
Maradona parecia vencer pela ira sagrada dos excluídos. Messi vence pela delicadeza mortal dos predestinados.
E foi assim, sem bater na porta com violência, que Messi chegou à sala do trono. Não entrou dizendo: “Sai daí, Pelé.” Não. Messi não é esse tipo de personagem. Ele parece ter entrado devagar, com a bola no pé, olhado para o rei brasileiro e dito: “Com licença, Majestade. Talvez este lugar possa ter dois assentos.”
E Pelé, que entendia de bola como poucos entenderam de eternidade, certamente sorriria.
Porque Messi não diminui Pelé. Messi confirma Pelé. Assim como Pelé não apaga Messi. Pelé abre o caminho. O rei não perde a coroa quando reconhece outro gênio. O trono do futebol não precisa ser uma cadeira estreita, dessas de repartição pública, onde só cabe um e o resto fica esperando senha. O trono do futebol pode ser uma varanda larga, aberta para o mundo, onde Pelé se senta de um lado e Messi, enfim, se senta do outro.
Maradona continuará ali, claro. Não se tira Diego da história. Seria uma grosseria com a bola. Maradona é altar argentino, é mito popular, é o jogador que fez de 1986 uma epopeia. Mas Messi alcançou uma dimensão diferente. Ele venceu pela duração, pela regularidade absurda, pela beleza repetida durante anos e anos, pela capacidade de ser genial sem transformar a genialidade em espetáculo de si mesmo.
E quando finalmente conquistou a Copa do Mundo, Messi fechou o círculo. Faltava aquilo. Faltava o abraço definitivo da Argentina. Faltava a taça que separava o craque imenso do mito completo. Quando levantou a Copa, não levantou apenas um troféu. Levantou um país inteiro de uma angústia antiga. A Argentina, que tanto esperou outro Maradona, descobriu que havia recebido algo diferente: um Messi.
E que privilégio.
Neste sábado, dia bom para pensar futebol sem a pressa da tabela, sem a gritaria das mesas redondas, sem o juiz do VAR entrando na crônica, é possível dizer com alguma serenidade: os argentinos estavam certos em amar Maradona. Mas talvez estivessem errados em achar que ele era a resposta final.
A resposta final veio depois. Veio menor no corpo, mais silenciosa na voz, mais longa na obra. Veio com a camisa 10, mas sem precisar imitar ninguém. Veio com a leveza de quem não queria tomar o lugar de Pelé, apenas provar que a grandeza, quando é verdadeira, não precisa expulsar ninguém da sala.
Pelé foi o rei.
Messi é o herdeiro que não usurpou a coroa. Ele a honrou.
E se o futebol ainda guarda alguma justiça poética, daquelas que nem a Fifa consegue regulamentar, o trono maior do jogo já não está vazio nem solitário. Lá está Pelé, eterno, brasileiro, solar. E ao lado dele, com o pé esquerdo repousando sobre a bola como quem repousa a mão sobre um livro sagrado, está Messi.
Não como invasor.
Não como rival.
Mas como aquele que pediu licença, e mereceu sentar.
