Os congestionamentos registrados nos últimos dias na ligação entre Belo Horizonte e Nova Lima reacenderam o debate sobre mobilidade urbana na região. Para especialistas e representantes de moradores, os problemas enfrentados por motoristas não estão relacionados apenas a acidentes ou panes mecânicas, mas a um processo de expansão urbana que não foi acompanhado por investimentos suficientes na infraestrutura viária.
A discussão ganhou força após um acidente envolvendo um ônibus e seis veículos na MG-030 provocar quilômetros de retenção e atrasos de até quatro horas para motoristas na segunda-feira (1º). No dia seguinte, novas ocorrências, incluindo um caminhão em chamas na rodovia e outro veículo com defeito no trevo do Belvedere, voltaram a comprometer o trânsito.
Segundo o arquiteto e urbanista Guilherme Moretzsohn, o cenário atual é resultado de decisões tomadas ao longo de décadas tanto em Belo Horizonte quanto em Nova Lima. Na avaliação dele, o crescimento populacional da região ocorreu sem que o sistema viário fosse ampliado na mesma proporção.
Veja também
“Durante muitas décadas, uma visão equivocada de que cidades menos adensadas eram melhores para a qualidade de vida permeou o planejamento urbano. Somado a isso, uma política metropolitana fracassada permitiu que Nova Lima ampliasse sua permissividade urbanística, aumentando o número de moradores sem que o sistema viário acompanhasse esse crescimento”, afirmou.
Para o urbanista, a falta de integração entre os municípios contribuiu para o aumento dos deslocamentos diários em direção à capital. Ele avalia que a solução passa por políticas que incentivem a ocupação de áreas já atendidas por infraestrutura e transporte coletivo.
“A solução passa por planejamento urbano, por adensamento dos grandes centros, onde já existe transporte público e metrô. Belo Horizonte precisa assumir o protagonismo desse problema e dessa solução”, disse.
Moradores cobram intervenções estruturais
Do lado dos moradores do Belvedere, a preocupação está voltada para a capacidade das obras atualmente previstas de resolver os gargalos existentes. O presidente da Associação dos Amigos do Bairro Belvedere, Ubirajara Pires Glória, afirma que o crescimento de Nova Lima vem pressionando uma estrutura viária que já opera próxima do limite.
Segundo ele, novos empreendimentos e vias em construção tendem a aumentar ainda mais a circulação de veículos em pontos já saturados da região. Um dos exemplos citados é a futura ligação da Avenida Dr. Flávio Pentagna Guimarães ao Belvedere.
“Essa nova saída vai desembocar justamente em uma área que já concentra escola, comércio, rotatória e acessos importantes. É uma região que já enfrenta congestionamentos diariamente”, afirmou.
Ubirajara que também é engenheiro, questiona ainda a efetividade do alargamento previsto para o viaduto do trevo do Belvedere. Na avaliação dele, a intervenção pode melhorar pontualmente o fluxo, mas não resolve os principais gargalos da ligação entre Belo Horizonte e Nova Lima.
“O alargamento do viaduto vai trazer uma melhoria pequena. É uma obra paliativa. As soluções mais importantes seriam o Viaduto Ferradura e uma nova ligação entre a BR-356 e a MG-030, projetos que vêm sendo discutidos há anos”, declarou.
A Rede também conversou com a moradora da região e editora do Jornal Belvedere Maria Goretti. Segundo a jornalista, o projeto executivo do Viaduto Ferradura está concluído e a contratação da empresa responsável pela obra pode ocorrer nas próximas semanas. No entanto, o início dos trabalhos depende de autorização para utilização de uma área da União destinada ao canteiro de obras.
Já a Avenida Parque aguarda uma decisão do governo federal para transferência do terreno da antiga ferrovia aos municípios de Belo Horizonte e Nova Lima.
“Hoje o projeto aguarda apenas a assinatura da ministra da Gestão para a doação da área. A partir disso, será possível avançar para a execução da obra”, explicou.
Obra no trevo do BH Shopping segue paralisada
Outro empreendimento apontado como importante para reduzir os congestionamentos é o alargamento do tabuleiro do viaduto do trevo do BH Shopping. A intervenção prevê a criação de uma nova alça de acesso para melhorar a distribuição do fluxo de veículos na região.
Segundo Maria Goretti, a obra, de responsabilidade da Prefeitura de Belo Horizonte, está paralisada.
“As entidades representativas dos moradores mantêm diálogo com a prefeitura para entender os motivos da paralisação. A expectativa é que haja uma definição sobre a retomada dos trabalhos nos próximos meses”, afirmou.
