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O Brasil desaprendeu a conviver com a discordância

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Imagem ilustrativa | Freepik

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O episódio envolvendo Erika Hilton e Ratinho talvez diga menos sobre os personagens centrais da controvérsia e mais sobre a atmosfera moral, política e emocional em que o Brasil resolveu se instalar. Como quase tudo hoje, o caso foi rapidamente capturado pela lógica binária da guerra cultural: de um lado, os que se apressam em absolver qualquer grosseria em nome da franqueza; de outro, os que pretendem elevar toda divergência ao patamar de agressão intolerável. No fim, a razão foi atropelada pelos extremos, e o país, mais uma vez, deu mostras de sua crescente incapacidade de conviver com o dissenso.

O erro dos dois lados

Não se trata apenas de discutir quem exagerou mais, quem ofendeu primeiro ou quem tem o vocabulário moral mais vistoso à disposição. O que se revela nesse tipo de embate é algo mais fundo e mais preocupante, o esgotamento da cultura democrática como prática cotidiana de convivência entre diferentes. O Brasil parece ter desaprendido uma lição elementar da vida civilizada, a de que o outro pode pensar diferente de nós sem que, por isso, precise ser destruído, humilhado, interditado ou transformado em inimigo absoluto.

Ratinho erra ao substituir reflexão por deboche e argumento por provocação. Há no seu estilo uma velha crença brasileira de que linguagem direta e franca é sinônimo de autenticidade, como se falar de forma agressiva fosse prova de coragem moral. Não é. Quase sempre é só pobreza de espírito com boa audiência. A simplificação grosseira de temas sensíveis não engrandece o debate público; ao contrário, o empobrece. Quem dispõe de um microfone poderoso e o utiliza para diminuir o nível da conversa não está defendendo valores. Está explorando o ruído. Mas seria intelectualmente desonesto parar aí, como se apenas um lado tivesse renunciado ao bom senso.

ambém há erro em Erika Hilton, e não é menor que o do apresentador. A sua reação que não consegue admitir a hipótese de que a discordância, ainda que áspera e até desagradável, continua sendo parte inevitável da vida em liberdade, revela uma pretensão de que só o pensamento de uns prepondera sobre o dos outros.
O país assiste, há algum tempo, ao crescimento de uma mentalidade que não quer apenas opor-se ao que considera ofensivo; quer cercar, enquadrar, punir, interditar e expulsar da esfera legítima tudo aquilo que não se encaixa em seu repertório moral e linguístico. Essa disposição para transformar todo conflito em caso de polícia, tribunal ou censura social também é um sintoma de fragilidade democrática.

A necessária evolução dos argumentos

Uma sociedade adulta precisa saber distinguir entre crítica, grosseria, preconceito, divergência e crime. Misturar tudo no mesmo balaio pode ser emocionalmente satisfatório para militâncias de ocasião, mas é intelectualmente desastroso e politicamente perigoso. Nem toda frase infeliz pode ser tratada como atentado civilizacional. Nem toda discordância merece a moldura da perseguição. Nem toda reação indignada é sinal de virtude. E, da mesma forma, nem todo apelo à liberdade de expressão absolve o exibicionismo vulgar da ofensa gratuita.

O Brasil de hoje parece incapaz dessa distinção. E aí reside a mediocridade do nosso tempo. Estamos nos tornando uma sociedade cada vez menos preparada para a complexidade, cada vez mais viciada na redução caricatural do outro. Quem fala de modo ríspido é transformado em monstro absoluto; quem reage de modo excessivo se apresenta como guardião exclusivo da civilização. Uns se refugiam na grosseria, outros na patrulha. Uns chamam brutalidade de sinceridade; outros chamam intolerância à discordância de defesa da dignidade. Todos se julgam moralmente superiores. Quase ninguém demonstra maturidade.

O espaço público virou um teatro de vaidades inflamadas. Já não se discute para compreender, mas para esmagar. Já não se argumenta para persuadir, mas para sinalizar pertencimento a uma tribo. A discordância foi rebaixada à condição de insulto. E quando uma sociedade passa a tratar a divergência como escândalo em si mesma, ela começa a corroer a própria base da convivência democrática. Porque democracia não é o regime do aplauso mútuo. Democracia é, antes de tudo, o regime da coexistência desconfortável entre visões diferentes de mundo.

A incômoda necessidade da tolerância

Não se trata aqui de defender relativismo moral, indiferença ética ou neutralidade covarde. Há falas indecentes, há exageros intoleráveis, há manipulações evidentes. Mas é justamente por isso que o país precisaria resgatar a sobriedade, essa qualidade fora de moda, discreta e essencial. Sobriedade para reconhecer quando há abuso verbal sem transformar tudo em cruzada redentora. Sobriedade para responder com firmeza sem cair na tentação autoritária de silenciar. Sobriedade para aceitar que pluralismo implica atrito, desconforto, dissabor e, por vezes, até convivência com quem julgamos equivocado.

O problema é que o Brasil atravessa uma espécie de adolescência moral prolongada. Quer unanimidade onde deveria aceitar pluralidade. Quer obediência simbólica onde deveria tolerar contestação. Quer pureza ideológica onde deveria haver apenas o modesto esforço de civilidade. O resultado é um país nervoso, excitável, teatral, sempre pronto para incendiar o mundo por qualquer frase, qualquer gesto, qualquer divergência mal embalada. Perdeu-se a escala das coisas. Perdeu-se a capacidade de medir. E uma sociedade sem senso de medida se torna presa fácil da histeria.

Nesse ambiente, figuras como Ratinho prosperam porque sabem explorar o espetáculo da indignação. E reações redutoras e desmedidas também prosperam porque aprenderam a transformar desconforto em capital político. Cada lado alimenta o outro. Cada excesso fortalece o adversário que pretende derrotar. A grosseria convoca a patrulha. A patrulha legitima a pose do provocador. Forma-se, assim, uma engrenagem perfeita de radicalização recíproca, na qual todos ganham visibilidade e o debate público perde densidade.
Discordar não deve ser agredir.

O Brasil não precisa de mais valentões de auditório nem de mais sacerdotisas da censura moral. Precisa de gente capaz de sustentar convicções sem recorrer à humilhação e de defender dignidade sem exigir unanimidade. Precisa, sobretudo, reaprender algo antigo, quase banal, mas hoje revolucionário. Conviver não é concordar. Discordar não é agredir. Ser contrariado não é ser perseguido. E que o outro não deixa de existir legitimamente só porque pensa, fala ou enxerga o mundo de modo diverso do nosso.

Talvez o grande drama brasileiro contemporâneo seja esse: a dificuldade de aceitar que a liberdade produz atrito. Produz desconforto. Produz choques. Produz falas ruins, reações exageradas, erros de forma e de conteúdo. Mas ainda assim o remédio para isso não pode ser nem a brutalidade orgulhosa nem a interdição compulsiva. Entre uma e outra existe o terreno exigente da civilidade. É um terreno menos ruidoso, menos rentável, menos teatral. Mas é o único em que as democracias amadurecem.

No fim, a verdadeira pobreza exposta em episódios como esse não é apenas a pobreza dos protagonistas, mas a nossa. A pobreza de um país que já não suporta ser contrariado. A pobreza de uma sociedade que trocou argumento por reflexo, convicção por performance, firmeza por fanatismo. E que, aos poucos, vai demolindo a própria possibilidade de uma conversa pública decente.

Sem essa capacidade de aceitar a divergência, restará apenas a sucessão infinita de escândalos, tribunais morais e gritos de plateia. Muito barulho, muita vaidade, muita certeza. E cada vez menos inteligência.

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Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

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