Minas Gerais entrou naquele período do calendário em que a política vira termômetro de farmácia: qualquer espirro vira febre. é um tempo em que qualquer frase vira manchete, e qualquer “flerte” vira noivado, e, às vezes, divórcio no mesmo dia. A pré-campanha mineira chegou ao ponto em que o noticiário parece menos um roteiro e mais um reality show, com elenco grande, palco apertado e público que ainda nem sabe qual é a peça.
A temperatura subiu na disputa pelo governo, mas não necessariamente porque exista um projeto claro ganhando forma. Ela sobe, sobretudo, porque há muita gente na cozinha e pouco prato para se colocar na mesa. E, em política, quando falta prato, sobra briga por talher.
Mateus e a engenharia da centro-direita: cálculo, disciplina e ruído
O esforço do vice-governador Mateus Simões era claro. Aglutinar centro-direita e direita em torno do próprio nome. Em Minas, isso é sempre um exercício de engenharia, e engenharia mineira, como se sabe, não é feita de improviso: precisa de cálculo, disciplina e, principalmente, silêncio estratégico.
Só que o silêncio resolveu falar alto. O episódio recente envolvendo a deputada estadual Lud Falcão e Mateus, que nem precisa ser destrinchado aqui nos detalhes, revela que em política, muitas vezes, o ruído vale mais do que o conteúdo. Ruído mexe com o humor de aliados, encoraja adversários e, principalmente, cria pretexto para hesitações. E hesitação é o “modo avião” das alianças: ninguém responde, mas todo mundo está observando.
A partir daí, entram duas cenas que esfriam o caldeirão que estava aquecendo.
União Brasil e Pacheco: flerte que vira preço na negociação
A primeira: o União Brasil flertando com Rodrigo Pacheco, sob a “fiança” política de Bilac Pinto. Tradução simultânea. Quando um partido grande sinaliza alternativa, ele não está apenas paquerando um nome, ele está aumentando o preço na mesa de negociação. A lógica é simples e cruel. Se Mateus quer o “União” na“união”, precisa oferecer garantias de protagonismo, de palanque, de espaço e de futuro. Se não oferece, o mercado político abre outras vitrines. E, como em toda vitrine, o produto não é exatamente o que importa; o que importa é o poder de atração que ele produz.
Cleitinho e Republicanos dizem um “talvez” que pode ser moeda forte
A segunda cena fica por conta da indecisão de Cleitinho Azevedo e do Republicanos. E indecisão, em campanha, não é neutralidade, é poder. Quem não decide cedo vira fiel da balança, mantém dois lados em suspense e converte “talvez” em moeda forte. Enquanto isso, quem tenta montar a coalizão vira refém do silêncio. Porque o “talvez”, você sabe, é o primo elegante do “não”, e na política, parentes elegantes costumam chegar atrasados e sair cedo.
Esquerda sem nome: uma oposição que vive de esperança e conjuntura
Do outro lado do ringue, a esquerda vive um problema oposto. Não é excesso de opções, é falta de nome “para chamar de seu”. Sem candidatura nítida, a oposição fica dependente de improviso, de conjuntura e de esperança, e esperança em ano eleitoral, é um ativo valioso, mas instável. É aí que aparece Alexandre Kalil, ainda com a sombra dos seus problemas de inelegibilidade, mantendo acesa a expectativa de ser o caminho para quem quer se opor ao atual governo. Kalil, nesse cenário, funciona como “porta”: mesmo trancada, muita gente continua testando a maçaneta. Não é exatamente uma estratégia, é a falta dela transformada em hábito.
Zema pensa em Brasília e mantém distância
Acima desse tumulto, paira Romeu Zema com a distância cirúrgica de quem sabe que o palanque estadual pode virar areia movediça para projeto nacional. Se Zema quer ser lembrado como um nome da direita para a Presidência, ele precisa evitar que Minas vire um campo de batalha doméstico respingando na biografia. Em ano pré-eleitoral, o pior inimigo de um presidenciável é parecer provinciano, ou excessivamente enredado em briga de condomínio. Afinal, ninguém quer subir para o Planalto com o crachá de “síndico nervoso”.
Some-se a isso um ingrediente que bagunça qualquer panela: as disputas internas do PL, que não define seu nome para o Senado e tampouco deixa claro em qual barco embarca em Minas. E o Senado, por aqui, não é coadjuvante, é protagonista. Em Minas, a costura majoritária passa pelo Senado como a agulha passa pelo pano, sem linha, não tem tecido. Sem mapa para o Senado, fica difícil desenhar chapa, organizar palanques e pacificar egos. E política é, em parte, isso: uma arte de pacificar egos sem que eles percebam que foram pacificados.
Correndo por fora, mas mantendo distância confortável, aparece Gabriel Azevedo pelo MDB. Um projeto originalmente personalista, ao melhor estilo Gabriel, com alguns observadores levantando a possibilidade de ele estar guardando vaga para uma possível ida de Rodrigo Pacheco, com quem mantém longa relação política, ao MDB.
Novo sem prateleira busca vice “rápido”, mas pode encurtar a chapa
E ainda tem o Partido Novo, que sofre do paradoxo da própria vitrine. Governa o Estado, tem marca, mas não tem uma prateleira larga de nomes competitivos. A tentativa de emplacar o prefeito de Divinópolis, irmão do senador Cleitinho, como vice de Mateus, parece “solução rápida”, mas pode virar solução que encurta. Amarra a chapa a um eixo muito específico e, em vez de ampliar, pode reduzir as chances de uma composição realmente larga, capaz de sustentar o discurso de união. Em política, vice não é detalhe, é símbolo. E o símbolo, quando mal escolhido, vira senha para dissidência.
Quando não há maioria natural, sobra matemática e falta agenda
O resumo, por enquanto, é: uma direita que não se aglutina e uma esquerda sem opção consolidada. E aqui está o ponto central: quando ninguém consegue montar maioria natural, a eleição deixa de ser disputa de projetos e vira disputa de encaixes, alianças, “quem leva quem”, e, principalmente, quem fica de fora. A conversa passa a ser menos sobre Minas e mais sobre matemática: quantos minutos de TV, quantos prefeitos, quantas emendas, quantos apoios, quantas promessas cabem num palanque sem ele cair.
Minas se aproxima de 2026 com o retrato clássico da política brasileira: todo mundo quer o centro do palco, mas ninguém quer carregar o piano. E campanha, no fim, é isso: quem organiza a orquestra antes toca a música; quem chega depois dança conforme o barulho. A pergunta mineira, hoje, não é “quem tem o melhor projeto”, mas “quem consegue transformar ruído em arranjo” sem desafinar demais.
Porque, neste momento, há muito calor no ambiente e pouca luz na sala. E eleição, quando começa no calor e termina no improviso, costuma produzir governos que governam como se estivessem eternamente em campanha: sempre olhando para trás, com medo do próprio aliado, e sempre prometendo, como quem toca piano sem carregar o instrumento.
