A morte de Luis Fernando Verissimo é a pausa melancólica de uma melodia que embalou gerações. Cronista, contista, romancista, tradutor de afetos e ironias, ele nos ensinou a rir daquilo que, de tão sério, só poderia ser suportado com humor. Foi um mestre em transformar o banal em literatura e a rotina em poesia.
Verissimo herdou o talento do pai, Érico Verissimo, mas deu a ele outro tom, menos épico, mais cotidiano; menos tempestade, mais ironia fina. Érico escreveu os grandes painéis do Brasil, do Ciclo de Porto Alegre até a monumental “O Tempo e o Vento”.
Luis Fernando nos entregou as miudezas que, no fundo, são o que nos formam, o casamento, a política, o futebol, a vida privada. Entre uma piada e outra, ensinou-nos que o riso é uma forma nobre de resistência.
Confesso que minha paixão pela leitura nasceu justamente na obra do pai. Foi ao abrir as páginas de “Incidente em Antares” que me perdi, e me encontrei, no poder arrebatador da ficção. Aquelas vozes dos mortos que se insurgiam contra a hipocrisia dos vivos me revelaram que a literatura é capaz de ser ao mesmo tempo espelho e fuzil, beleza e denúncia. A partir dali, não houve mais retorno, me tornei leitor para sempre.
Luis Fernando Verissimo, porém, foi quem ensinou que a literatura não precisa estar distante, intocável. Ele nos mostrou que a grandeza também pode morar na simplicidade de uma crônica curta, num diálogo de botequim, num personagem tão improvável quanto o “Analista de Bagé” ou a imortal “Velhinha de Taubaté”.
Érico nos deu o épico, Luis Fernando nos ofereceu o cotidiano. Um nos fez apaixonar pela leitura, o outro nos ensinou a rir de nós mesmos.
E se a morte, como em “Incidente em Antares”, viesse cobrar coerência, talvez Verissimo respondesse com sua habitual ironia. “Coerência? A vida nunca foi muito chegada a isso.”
Ele partiu, mas deixou uma herança literária que não cabe em epitáfios. Cabe, sim, em cada leitor que sorri, se emociona ou descobre que, na palavra, mora um mundo inteiro.