Flávio Bolsonaro é, de fato, o mais palatável dos Bolsonaros, isso é como dizer que um “cafezinho sem açúcar” é mais suave do que um “copo de vinagre com pimenta”. Comparado ao pai, ele parece um monge. Mas monge não é santo, é só alguém que aprendeu a falar baixo, andar reto e escolher melhor a hora de fazer barulho.
E aí está o ponto central desta pré-campanha: o Brasil caminha para uma eleição em que ninguém entra amado, todo mundo entra tolerado. O eleitor não está escolhendo um projeto; está escolhendo um antídoto. O voto, mais do que convicção, virou uma espécie de “remédio de farmácia”: alivia o sintoma, mas não resolve a doença.
A rejeição como protagonista
O personagem principal de 2026 não é Lula. Não é Flávio. Não é a direita. Não é a esquerda. É a rejeição, esse sentimento contemporâneo, azedo, que não vibra, não sonha e não canta. Ele só veta.
Quando os levantamentos mostram rejeições altas nos dois polos, o recado é cristalino. Existe um país grande o suficiente para impedir vitórias fáceis. E quando o país entra no modo não voto nele de jeito nenhum, a eleição vira um ringue de milímetros. Não vence quem tem mais aplausos. Vence quem consegue apanhar menos.
Essa é a política do nosso tempo. Um candidato não precisa conquistar corações, basta evitar causar urticária.
Uma disputa acirrada, mas por razões pouco românticas.
O país se acostumou a pensar em dois blocos, duas tribos, dois times. A política virou campeonato, e campeonato não admite sutileza, é bola pro mato, sutileza não dá jingle de campanha, não dá grito de guerra.
Rejeição alta é teto. E teto baixo significa que dá para crescer, mas dá para cair com a mesma facilidade. Um deslize, uma frase mal colocada, uma aliança mal explicada, uma crise econômica atravessando o caminho, e pronto, a maré muda.
A campanha se apresenta como uma corrida longa, com redes sociais em modo “incêndio florestal”, com a judicialização rondando o debate, e com um eleitor que hoje tem paciência curta e memória seletiva.
A direita se fortalece com Flávio?
Em um primeiro momento Flávio Bolsonaro fortalece a direita bolsonarista, sim. Ele tem o sobrenome que mobiliza um eleitorado disciplinado, com senso de identidade e espírito de militância. Isso é potência eleitoral.
Mas, o mesmo sobrenome que dá “chão” também dá “peso”. A marca Bolsonaro tem base, mas carrega anticorpos. É um ativo e uma âncora ao mesmo tempo. Flávio pode organizar uma parte da direita, mas o desafio real é furar a bolha, conquistar o centro prático e ideológico do eleitorado e convencer o brasileiro que já está cansado dessa guerra permanente.
E aqui entra uma ironia nacional, muita gente diz que quer “um nome mais moderado”, mas passa a campanha inteira premiando os mais radicais com atenção, engajamento e manchete. O moderado vira a figura que todo mundo pede, e quase ninguém contrata.
Para a esquerda Lula é eixo,mas também é risco
Lula continua sendo o eixo do campo progressista. Não por ideologia, em boa parte demagógica, mas por recall, e presença nacional.
Só que o mesmo Lula que é motor pode virar para-choque.
Quando a rejeição fica alta, o eleitor “anti” ganha corpo. E o voto “anti” é um bicho perigoso: ele não exige plano, não exige projeto, não exige coerência. Ele só exige um alvo. A esquerda com Lula ganha força para chegar, mas também assume o risco de catalisar o “qualquer um, menos ele”, dependendo do humor econômico, do desgaste político e do ambiente moral da campanha.
Não é que a esquerda tenha outras opções. é que a esquerda não consegue falar de futuro para além de Lula. A esquerda não renova sua linguagem, fica perdida nas periferias sociais, na cultura “woke”. Tem como único mote o pedido de mais uma chance para recontar a mesma história. Não explica seus escândalos, seus desmandos, seus projetos miseravelmente pessoais, seus surrados métodos de aparelhamento e de desvios de recursos.
O centro ideológico: todo mundo procura, ninguém encontra
E chegamos ao nó que amarra 2026. A dificuldade de encontrar o meio termo, o candidato de um centro ideológico do pensamento.
O Brasil tem um centro social enorme, gente que quer trabalhar, pagar conta, viver em paz, ter serviços decentes e previsibilidade, mas tem um centro político cada vez mais rarefeito. Por quê?
Porque o “centro” virou, para os polos, sinônimo de fraqueza. O moderado é chamado de “isentão”, “em cima do muro”, “sem coragem”.
Porque a internet transformou a política num picadeiro. O candidato que grita aparece, o que explica desaparece. Porque o centro, quando tenta existir, geralmente nasce como aliança de marketing, não como projeto de país; Com muita embalagem, mas pouco conteúdo.
O resultado é cruel: o eleitor pede serenidade, mas o sistema entrega adrenalina. Pede equilíbrio, mas recebe extremos com microfone e holofote. E, sem um centro crível, a eleição volta ao velho mecanismo de sobrevivência: escolher o menos pior entre os que sobraram.
A eleição de prateleira cheia e carrinho vazio
Agora, acrescentemos um fator que costuma aparecer quando a disputa fica indigesta, o surgimento de novos (ou reciclados) atores. Quando a rejeição cresce nos polos, o mercado eleitoral abre espaço para alternativas: um governador bem avaliado, um nome “técnico” com cara de gestor, uma candidatura com discurso moralista, um outsider fabricado por algoritmo, ou até uma “terceira via” que promete ser ponte, e termina sendo acostamento.
Esse fenômeno é quase automático. Quanto mais o eleitor diz “não aguento mais isso”, mais ele procura um terceiro rosto para projetar esperança. O problema é que a esperança, em política brasileira, é um produto com validade curta. Se não vier com base partidária, tempo de TV, recursos, estrutura e capilaridade, vira espuma, faz volume e some.
É aí que a eleição pode virar uma prateleira cheia (muitos candidatos) e um carrinho vazio (pouca gente realmente competitiva). Muita gente entra para “marcar posição”, poucos entram para vencer.
O Brasil que vota com o bolso e com o cansaço
No fim do dia, o eleitor médio não está discutindo tese; está discutindo a vida. O Brasil real vota com o bolso, e com o cansaço. Se o custo de vida aperta, o governo sangra. Se a economia dá alívio, a oposição perde oxigênio. Se a direita aparece fragmentada, Lula ganha ar. Se a esquerda parece um castigo, a direita vira onda.
E há um detalhe que quase ninguém admite. O brasileiro não quer polarização. Ele quer estabilidade. Só que, paradoxalmente, acaba escolhendo personagens que vivem de conflito, porque o conflito é mais simples de entender, mais fácil de narrar e mais rápido de consumir.
A eleição do “menos pior” é sempre a mais perigosa
Quando o país entra numa eleição do “menos pior”, o debate empobrece. A conversa pública vira um corredor estreito. De um lado, medo; do outro, raiva. No meio, uma multidão tentando só pagar as contas e manter a sanidade.
Flávio pode ser o “Bolsonaro mais palatável”. Lula pode ser a “âncora histórica” da esquerda. E pode até surgir um terceiro nome prometendo pacificar. Mas, sem coragem intelectual para sustentar um centro verdadeiro, não de conveniência, mas de pensamento, o Brasil corre o risco de repetir o roteiro. Um segundo turno definido mais por rejeição do que por projeto.
A disputa tende a ser acirrada, sim. Não por virtude dos candidatos, mas por exaustão do eleitor. E quando a exaustão decide, o futuro vira um empate técnico, com consequências desastrosas e bem concretas.
Se o Brasil é uma roda-gigante, 2026 promete ser aquela volta em que todo mundo olha para baixo e finge que está sorrindo. Só não dá para fingir por mais quatro anos.
