PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Remédio não é amuleto

Siga no

(Ministério da Saúde/Divulgação)

Compartilhar matéria

O Vice-Presidente da República, Geraldo Alckmin, foi lá e deu o recado: o governo é contra quebrar patentes de canetas emagrecedoras, e também contra prorrogar além do previsto. O argumento foi de que uma: regra instável vira insegurança jurídica, afasta investimento e, no caso de esticar prazo, ainda pode encarecer produto para o consumidor.

Só que o Brasil está debatendo o assunto como quem discute preço de guarda-chuva no meio de um dilúvio
Porque o problema maior não é a patente. É o atalho.

As canetas viraram o símbolo perfeito do nosso tempo, uma era em que a gente quer resultado sem rotina, corpo novo sem o durante, antes e o depois, e sem a parte mais impopular, a mudança de hábitos. O sonho é emagrecer do mesmo jeito que se promete resolver segurança, educação e ética, com uma solução rápida, uma manchete bonita e uma fé inabalável no milagre de curto prazo.

O corpo não aceita narrativa

Vamos colocar a caneta no lugar dela. Caneta emagrecedora não é cosmético, não é acessório de autoestima. É medicamento, com indicação, prescrição e acompanhamento. Quando vira moda, vira também o primo pobre da responsabilidade. Gente usando para secar sem avaliação, sem monitoramento, sem o básico que acompanha qualquer tratamento sério.

A Anvisa emitiu alerta sobre risco de pancreatite aguda associado ao uso indevido dessas canetas e reforçou que devem ser usadas conforme a bula e sob prescrição e acompanhamento profissional.
E não é terrorismo. É farmacologia.

A própria rotulagem regulatória vinda da Agência americana, a FDA para semaglutida, traz o que a internet finge que não existe: advertências importantes, incluindo ocorrência de pancreatite aguda em estudos clínicos, com orientação de suspender se houver suspeita, e o conhecido aviso de tumores de células C da tireóide em roedores, com contraindicação para quem tem histórico familiar/pessoal de carcinoma medular de tireoide.
Traduzindo: não é modinha de verão. É remédio de verdade, e remédio de verdade não combina com banalização de influencers.

O risco mais perigoso é invisível.

Agora, a parte que incomoda mais do que a bula, o efeito cultural.

A caneta pode virar um álibi moderno do tipo, estou me cuidando. Só que, muitas vezes, é um me cuidando sem mexer no que adoece. Sono estraçalhado, comida ultraprocessada virando rotina, estresse crônico, álcool frequente, sedentarismo, compulsão disfarçada de merecimento.

E aí a sociedade entra num transe perigoso, começa a tratar mudança de hábito como coisa antiquada. Disciplina vira gatilho, esforço vira pressão estética, e o básico, caminhar, dormir, comer de verdade, reduzir excessos, sai perdendo para a agulhinha do “aplica e segue a vida”. Só que o corpo cobra.

Medicina séria não vende milagre

A Associação Americana de Gastroenterologia recomenda farmacoterapia em adição a intervenções de estilo de vida para adultos com obesidade, e coloca o estilo de vida como base para o tratamento.

Ou seja, para quem tem indicação, pode ser uma ferramenta poderosa. Para quem quer só o atalho, pode virar um bilhete premiado, para a frustração, e o caminho para o consultório, isso numa versão menos romântica.
Quebrar patente não pode virar, baratear o atalho.

O debate de patentes é legítimo: envolve acesso, preço, inovação, previsibilidade regulatória. Mas o Brasil tem um talento especial para transformar uma discussão complexa em torcida organizada. Aí vira isso: vamos baratear a caneta como se baratear o atalho fosse sinônimo de política pública de saúde. Não é.

Sem educação alimentar, ambiente urbano menos hostil ao movimento, incentivo a sono e saúde mental, combate a ultraprocessados como padrão de vida, a caneta vira maquiagem metabólica. Pode ajudar muito, sim, mas não salva uma sociedade que escolheu viver no modo “pular introdução”.

Um aviso honesto (sem moralismo e sem propaganda)

Não transforme medicamento em estilo de vida. Use com médico e acompanhamento; pancreatite não é “drama”; está em alerta regulatório e em advertências de bula, e sem mudança de hábito, o resultado é empréstimo. E empréstimo, cedo ou tarde, vence.

Por fim, a caneta virou a metáfora perfeita do Brasil contemporâneo: um país que quer tudo fácil, e depois se espanta quando o fácil cobra caro.

Compartilhar matéria

Siga no

Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

Webstories

Mais de Entretenimento

Mais de Colunistas

O fim das senhas já começou. Desta vez, é para valer

Talvez não sejamos tão bons quanto pensávamos

Michelle saiu do cargo, mas quem perdeu espaço foi Flávio

A experiência de conhecer um Club Med no Brasil

O PL mineiro entre a prudência pública e a confusão dos bastidores

Adeus, Internet

Últimas notícias

PF apreende última arma registrada em nome de Bolsonaro no Rio Grande do Sul

PL marca convenção em meio à indefinição sobre candidatura ao Governo de Minas

Espetáculo infantil ‘As Aventuras de Bininha’ terá apresentação gratuita em Contagem neste domingo (12)

Hugo Motta define comando da comissão que vai analisar PEC da redução da maioridade penal

Câmara aprova MP que libera R$ 1,3 bilhão para cidades atingidas pelas chuvas em Minas

Sem acordo entre líderes, Alcolumbre cancela sessão do Congresso que analisaria vetos de Lula

Senado aprova destinação de parte da arrecadação das bets para a Polícia Federal

Câmara de BH aprova programa para capacitar mulheres para o mercado da construção civil

Projeto que prevê câmeras em veículos de serviços públicos avança na Câmara de BH