Quando o protesto incomoda mais do que a corrupção e a Justiça já não oferece respostas no tempo das pessoas, talvez seja hora de amadurecer, prevenir conflitos e assumir responsabilidades antes que seja tarde.
Nesta última semana, o Brasil assistiu a uma cena que dividiu opiniões. O deputado federal por Minas Gerais, Nikolas Ferreira, saiu de Paracatu, no noroeste mineiro, e caminhou até Brasília. Foram sete dias, cerca de 240 quilômetros percorridos a pé.
Houve quem ironizasse. Houve quem se irritasse. Houve quem debochasse.
E talvez seja exatamente aí que mora o desconforto que precisamos encarar.
Porque, sejamos honestos: se um político caminhando te incomoda mais do que práticas de corrupção que historicamente assolam o país, o problema não está no gesto… está na nossa tolerância ao absurdo.
A frase é dura. E precisa ser. Ela revela algo incômodo sobre o nosso tempo: nós nos acostumamos com desvios institucionais, mas estranhamos o protesto visível. Aceitamos o abuso silencioso, mas rejeitamos gestos simbólicos que expõem falhas estruturais. Muitos se limitam a observar à distância, rolar o feed e apontar defeitos, sem qualquer disposição real para agir ou refletir. Concorde-se ou não com o ato, ele provoca, e isso incomoda.
Também chamou atenção, e de forma negativa, a presença de políticos que estiveram em um trecho apenas para ter holofotes. Não caminharam, não permaneceram e não dividiram o desgaste do ato. Compareceram apenas o tempo suficiente para gravar vídeos, tirar fotos e alimentar discursos eleitorais. Alguns, inclusive, em tom de autopromoção explícita, apontavam para colegas e diziam frases como “olha quem veio, nosso futuro senador”, deixando claro que o objetivo não era a causa, mas a vitrine. Esse tipo de comportamento não fortalece movimentos legítimos, pelo contrário, esvazia o sentido do protesto e transforma um ato simbólico em palanque improvisado. A caminhada era sobre resistência. A aparição relâmpago, infelizmente, foi sobre conveniência.
Outro aspecto que causa indignação é a seletividade da maioria dos veículos de imprensa. Principalmente os grandes. Durante dias, o ato foi ignorado, tratado com desdém ou simplesmente silenciado. A cobertura só ganhou espaço após a queda de um raio que feriu pessoas que participavam de uma manifestação pacífica. É constrangedor (para dizer o mínimo) que a atenção midiática só se volte quando há sangue, acidente ou tragédia. O debate público não pode depender de feridos para existir. Essa lógica é vergonhosa, empobrece a democracia e gera falta de credibilidade nas divulgações.
O Judiciário brasileiro ocupa um papel central nesse cenário de descrédito. Herdamos um sistema distante do cidadão comum, altamente técnico, construído para poucos compreenderem. Ao longo dos anos, ele se fortaleceu, ganhou protagonismo e passou a decidir sobre temas que impactam diretamente a vida, o patrimônio e o futuro das famílias. O problema é que, junto com esse poder, vieram a lentidão, a imprevisibilidade e uma crescente desconfiança social, amplamente debatida no espaço público.
Casos amplamente noticiados, envolvendo questionamentos sobre transparência, conflitos aparentes de interesses e patrimônio de autoridades envolvendo administração de bancos e resorts, por exemplo, contribuem para esse sentimento coletivo de insegurança. Independentemente de conclusões individuais, o fato é que a percepção social de falta de clareza fragiliza a confiança nas instituições.
Quando essa confiança se abala, as consequências são concretas. Muitas pessoas deixam de acionar as instituições para resolver suas questões burocráticas e vão se virando com o famoso jeitinho brasileiro. Famílias que deixam imóveis sem regularização. Patrimônios misturados com dívidas. Heranças consumidas por impostos mal planejados, como o ITCMD. Empresas familiares que enfrentam crises porque ninguém pensou na sucessão. E, ao final, a frase mais comum: “deixa que a Justiça resolve”.
Nem sempre resolve.
O Judiciário não organiza patrimônio, não reduz carga tributária e não preserva legado. Ele atua quando o conflito já está instaurado. E, depois que o dano ocorre, a sentença raramente recompõe por completo relações, tempo ou recursos. Em inventários, por exemplo, processos podem se arrastar por anos, prolongando disputas e desgaste emocional.
Por isso, advogar hoje exige mais do que litigar. Exige coragem para orientar com clareza, transparência para mostrar riscos e maturidade para propor mediação e conciliação antes que o conflito se torne irreversível.
Mediação não é fraqueza.
Conciliação não é renúncia irresponsável.
Planejamento sucessório não é pensar na morte: é proteger os vivos.
Como advogada que atua com sucessões, vejo diariamente patrimônios sendo corroídos pela falta de diálogo, pela ausência de planejamento e pela crença de que o Judiciário sempre dará conta de tudo.
Talvez a grande lição deste momento seja simples: não dá mais para terceirizar integralmente a responsabilidade pelos nossos conflitos. Em muitos casos, o caminho mais justo é aquele construído antes, com diálogo, mediação e decisões conscientes.
No Direito Sucessório, quem caminha antes evita que os herdeiros caminhem sozinhos entre processos, impostos e mágoas.
Isso, sim, é um verdadeiro ato de responsabilidade.E não exige caminhar 240 quilômetros, em sete dias.Exige apenas disposição para agir antes que seja tarde.
