Há jogadores que carregam a camisa. Outros parecem carregar uma ideia inteira de futebol. Kylian Mbappé pertence a essa segunda espécie. Quando recebe a bola e parte para cima do adversário, ele não corre apenas, ele acende o campo. Há no seu jogo uma mistura de velocidade, coragem e alegria que desperta no brasileiro uma sensação estranha, quase uma saudade.
Em três Copas do Mundo, Mbappé fez, e continua fazendo, aquilo que gostaríamos de ver com mais frequência nos jogadores brasileiros. Ele chama a responsabilidade. Não se esconde atrás do esquema tático, não terceiriza a ousadia, não devolve a bola por medo de errar. Ele avança. Ataca. Arrisca. Faz do gramado um espaço de invenção.
É verdade que o Brasil já teve muitos assim. Pelé fez o futebol parecer uma arte criada especialmente para ele. Garrincha driblava como quem ria das limitações humanas. Ronaldo atravessava as defesas como uma força da natureza. Romário resolvia jogos dentro de uma pequena área que, para ele, parecia do tamanho do mundo.
Ronaldinho brincava com a bola e fazia o adversário participar da brincadeira, mesmo sem querer.
O Brasil conhece esse idioma.
Talvez por isso Mbappé nos pareça tão familiar.
Ele é francês, mas seu futebol fala com um sotaque que reconhecemos. Há nele algo do atacante brasileiro de outros tempos, o homem que recebe a bola e olha primeiro para a frente, nunca para o lado; que acredita que o drible ainda é uma forma legítima de inteligência; que entende que o futebol não deve apenas vencer, deve também encantar.
Mbappé joga com a urgência dos grandes. Parece saber que uma partida de futebol é curta demais para a covardia. Quando existe um espaço, ele entra. Quando há um defensor, ele enfrenta. Quando o jogo exige alguém, ele aparece.
E então nasce dentro de nós aquela frase meio infantil, meio invejosa, inteiramente sincera.
Que pena que Mbappé não é brasileiro.
Não porque a França não o mereça. Merece, certamente. Mas porque ele parece representar uma parte do futebol que o Brasil ensinou ao mundo e que, em alguns momentos, parece ter esquecido dentro de casa.
O futebol brasileiro foi durante décadas a celebração da liberdade. Nosso jogador entrava em campo levando a irreverência da rua, o improviso da infância, a bola de meia, o terreno irregular, o gol marcado por dois chinelos. Não havia manual capaz de prever o que ele faria. O adversário sabia que seria driblado, mas nunca sabia de que maneira.
Hoje, às vezes, produzimos atletas antes de formar jogadores. Meninos são ensinados a cumprir funções, ocupar espaços, respeitar sistemas. Tudo isso é importante. Mas o futebol perde alguma coisa quando o esquema passa a mandar mais que o talento. A obediência pode organizar uma equipe, mas dificilmente cria um gênio.
Mbappé nos faz lembrar que o grande jogador precisa ter alguma coisa de desobediente. Precisa olhar para a defesa montada e enxergar uma passagem onde ninguém mais vê. Precisa desafiar a prudência. Precisa cometer o pequeno atrevimento de acreditar que pode decidir sozinho.
Se fosse brasileiro, Mbappé honraria nossa camisa não apenas pelos gols, mas pelo modo de procurá-los. Honraria o Brasil da arrancada, do drible, do enfrentamento. O Brasil que não jogava pedindo licença, mas também não precisava levantar a voz.
Bastava colocar a bola no chão.
Talvez nossa admiração por ele esconda também uma cobrança. Ao olhar Mbappé, enxergamos o jogador francês, mas procuramos, no fundo, o brasileiro que gostaríamos de reencontrar.
Não queremos uma cópia. O futebol não precisa fabricar outro Mbappé. Precisa apenas permitir que nossos meninos sejam novamente aquilo que sempre souberam ser: criativos, atrevidos, imprevisíveis. Que tenham o direito de errar tentando o extraordinário, em vez de acertar sempre o passe inútil.
Mbappé não é brasileiro.
Mas, quando corre em direção ao gol, leva consigo alguma coisa que já foi profundamente nossa. E talvez seja isso que tanto emocione, vê-lo jogar é admirar a França e, ao mesmo tempo, sentir saudade do Brasil.
