A eleição para o governo de Minas Gerais ainda nem chegou oficialmente às convenções partidárias, mas algumas legendas já parecem viver aquela fase da festa em que ninguém sabe quem convidou quem, quem vai sentar onde e, principalmente, quem pagará a conta.
No PL, a confusão deixou de ser apenas uma dificuldade de articulação. Começa a ser um problema de comando. Segundo apuração desta coluna, o deputado federal Zé Vitor, presidente estadual do partido, passou a ser observado com crescente desconfiança por integrantes da própria Executiva mineira.
A avaliação interna é de que sua condução das negociações para o governo do estado tem sido errática, oscilando entre candidaturas próprias, alianças improváveis e tentativas de acomodação com o senador Cleitinho Azevedo, do Republicanos.
Publicamente, Zé Vitor anunciou que o PL e Cleitinho haviam chegado a um entendimento. Mas o acordo nasceu sem responder às perguntas básicas. Quem disputará o governo, quem será o vice e qual será efetivamente o projeto para Minas. O presidente do PL chegou a afirmar que a definição seria feita posteriormente, com base em pesquisas, mantendo como única condição inegociável o palanque mineiro para a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.
Isso diz muito
O PL mineiro não está escolhendo seu candidato ao governo. Está procurando alguém que carregue sua candidatura presidencial. Minas, nessa equação, corre o risco de deixar de ser o objetivo para tornar-se apenas o cenário.
Cleitinho aparece como a tábua de salvação porque lidera os levantamentos eleitorais. Na pesquisa Genial/Quaest divulgada no fim de abril, o senador aparecia à frente nos diferentes cenários de primeiro turno e também nas simulações de segundo turno. Mateus Simões, por sua vez, ainda registrava números modestos, apesar da exposição proporcionada pelo governo estadual.
Mas pesquisa não é programa de governo. Muito menos substitui a direção política.
O problema para Zé Vitor é que Cleitinho conserva a condição mais confortável de todas: é cortejado por quase todo mundo sem precisar entregar imediatamente uma decisão definitiva. Quanto mais o senador prolonga sua definição, maior seu valor na praça. E quanto mais o PL demonstra precisar dele, menor se torna o poder de negociação do próprio PL.
Segundo a apuração da coluna, o presidente estadual da legenda tenta intensificar essas conversas para encontrar em Cleitinho não apenas um aliado, mas uma espécie de saída de emergência para a desorganização interna.
Uma conversa que atinge diretamente Mateus Simões
O governador tenta apresentar-se como candidato da continuidade administrativa, mas não sabe ao certo qual parcela da direita caminhará com ele. O PL procura Cleitinho. O Republicanos alimenta seu próprio projeto. O Novo preserva os interesses nacionais de Romeu Zema. E o PSD de Simões também precisa conciliar alianças estaduais com seu complexo tabuleiro presidencial.
A direita e a centro-direita mineira parecem, assim, divididas entre a direita propriamente dita, a direita que não quer parecer direita demais e a direita que aceita qualquer composição desde que conserve uma vaga na fotografia, e a centro direita que se equilibra.
O que falta não são nomes. Falta um centro político capaz de organizar os interesses, impor uma estratégia e explicar ao eleitor por que determinada aliança existe. Até agora, a discussão está concentrada em quem apoia quem, quem oferece palanque a quem e quem poderá ocupar cada posição da chapa.
Minas nesse debate, curiosamente, aparece pouco.
A confusão do outro lado
No PSB, a situação não é muito diferente, embora os personagens e o campo político sejam outros.
O partido anunciou que realizaria prévias internas para escolher seu candidato ao governo. Jarbas Soares Júnior, Julvan Lacerda, Josué Gomes e Clésio Andrade foram apresentados como alternativas. O presidente estadual da legenda, Otacílio Neto, o Otacilinho, declarou que o PSB não ficaria “a reboque” e trabalharia por candidatura própria.
Ao mesmo tempo, porém, Otacilinho conversa com outras forças partidárias. Segundo apuração desta coluna, entre seus interlocutores está Gabriel Azevedo, pré-candidato do MDB. Essa aproximação não acontece no vazio. Gabriel já vinha mantendo diálogos com dirigentes do PSB, do PT e de outras legendas, procurando construir uma frente que lhe permita tornar-se o candidato apoiado por Lula em Minas.
A movimentação ganhou peso porque o PT continua sem definição para o governo mineiro. Reportagem publicada nesta semana mostrou que Gabriel passou a ser considerado por aliados de Lula como uma das possibilidades mais viáveis para encabeçar o palanque presidencial no estado, embora ainda encontre resistência dentro do próprio campo petista. Jarbas Soares também permanece citado, mas com menos força nessa negociação nacional.
É aí que surge a contradição do PSB. Jarbas já se apresenta como pré-candidato ao governo e rejeita publicamente a hipótese de ocupar a vice de Gabriel. Ao contrário, sustenta que o PSB terá candidato próprio e admite Gabriel como possível integrante de uma composição liderada pelos socialistas.
Enquanto Jarbas afirma que pretende comandar a chapa, a direção partidária amplia conversas que podem levar a legenda a apoiar outra candidatura.
Naturalmente, conversar faz parte da política. O problema começa quando cada conversa aponta para uma direção diferente e ninguém sabe qual delas representa a estratégia verdadeira do partido.
Jarbas pode estar construindo uma candidatura. Otacilinho pode estar procurando uma aliança. Gabriel pode estar buscando o apoio de Lula. O PT pode estar à procura de um palanque. O MDB pode estar tentando ampliar seu espaço. Todos se movimentam. Poucos parecem sair do lugar.
E aí o caldeirão ferve
No PL, no PT e no PSB, portanto, repete-se o mesmo fenômeno: as direções partidárias negociam intensamente, mas não conseguem transmitir segurança nem mesmo aos próprios pré-candidatos, ou definirem-se por qual rumo tomar
De um lado, Mateus Simões observa a direita se fragmentar enquanto Cleitinho se torna o fiel da balança. Do outro, Jarbas Soares anuncia uma candidatura que pode ser redesenhada pelas negociações conduzidas ao redor dele. Gabriel Azevedo, em posição de observador de pássaros na floresta da política, fica em compasso de espera e o PT mineiro não sabe qual bebê deve embalar.
A política mineira transformou-se numa sala cheia de portas giratórias. Todos entram, conversam, posam para fotografias e saem pelo mesmo lugar.
Ainda falta o essencial. Dizer quem pretende governar Minas, com quais aliados e, principalmente, para fazer o quê, coisa que o eleitor ainda não ouviu.
Porque uma chapa pode ser montada pela soma das conveniências. Um governo, não.
