Há um tipo de vitória que não cabe no placar. Às vezes ela vem disfarçada de empate, de silêncio, de alívio, de lágrima presa no canto do olho. Ontem, Curaçao empatou em 0 a 0 com o Equador e conquistou o primeiro ponto de sua história em Copas do Mundo. Para muitos, foi apenas um empate. Para eles, foi uma página inteira escrita com o coração. O goleiro Eloy Room fez uma atuação gigantesca, com 15 defesas, e ajudou a transformar um zero a zero em patrimônio emocional de um povo.
E talvez seja aí que o futebol, esse velho professor de humanidade, nos ensine uma lição que a vida moderna tenta nos fazer esquecer todos os dias: pequenas conquistas também merecem festa.
Vivemos num mundo que perdeu a delicadeza da medida. Tudo precisa ser enorme. A carreira tem que ser brilhante. O filho tem que ser excepcional. A viagem tem que ser inesquecível. A casa tem que ser fotografável. O corpo tem que ser admirável. A opinião tem que ser definitiva. A alegria tem que ser postada. A vida, coitada, tem que parecer um comercial de sucesso permanente.
Nesse mundo de vitrines acesas e almas cansadas, ninguém mais quer apenas caminhar. É preciso correr. Ninguém mais quer apenas melhorar. É preciso vencer. Ninguém mais quer apenas acertar uma vez. É preciso ser o melhor sempre, em tudo, diante de todos.
E assim fomos desaprendendo a comemorar.
Desaprendemos a comemorar o dia em que a dor diminuiu. O mês em que a conta fechou. A semana em que não desistimos. A conversa difícil que finalmente aconteceu. O pequeno avanço de quem estava parado. O primeiro ponto de quem, até ontem, era tratado apenas como figurante no grande teatro dos vencedores.
Curaçao, diante do Equador, não ganhou a Copa. Não derrotou uma potência. Não levantou taça. Não fez a manchete fácil dos campeões. Mas fez algo talvez mais bonito: resistiu. Ficou de pé. Suportou a pressão. Agarrou-se ao jogo como quem se agarra à própria dignidade. E, quando o árbitro apitou o fim, aquele empate tinha gosto de vitória porque, para algumas histórias, sobreviver ao impossível já é vencer.
A dificuldade humana de celebrar pequenas conquistas nasce dessa tirania da comparação. A gente olha para o lado e sempre parece haver alguém mais longe, mais rico, mais jovem, mais bonito, mais reconhecido, mais feliz. A comparação é uma ladra elegante. Ela entra sem arrombar a porta, senta-se à mesa, bebe nosso café e vai embora levando a nossa alegria.
O sujeito consegue um emprego, mas não é o emprego dos sonhos. Compra um carro, mas não é o carro do vizinho. Emagrece dois quilos, mas ainda não virou capa de revista. Faz um bom trabalho, mas alguém fez melhor. A criança tira sete, mas o pai pergunta por que não foi dez. O time empata heroicamente, mas o comentarista já quer saber por que não venceu.
Que mundo mais sem ternura é esse em que até a alegria precisa pedir licença?
As pequenas conquistas são importantes porque são elas que constroem a coragem para as grandes. Ninguém atravessa um oceano sem antes ter aprendido a remar. Ninguém chega ao alto da montanha sem antes respeitar o primeiro passo. Ninguém cura uma tristeza profunda celebrando apenas a felicidade completa, porque a felicidade completa, essa senhora vaidosa, raramente aparece de uma vez. Ela vem em pedaços. Um telefonema. Um abraço. Uma noite bem dormida. Um domingo em paz. Um empate improvável.
O problema é que fomos educados para a apoteose, não para o processo. Queremos o pódio, mas desprezamos o treino. Queremos a colheita, mas não celebramos a semente. Queremos a chegada, mas tratamos o caminho como se fosse apenas um inconveniente entre o desejo e o troféu.
Curaçao comemorou porque entendeu aquilo que os grandes, muitas vezes, esquecem, para quem começa de baixo, o primeiro ponto é monumento. Para quem vem de uma goleada, não perder já é reconstruir a própria imagem diante do espelho. Para quem entra em campo com a camisa menor, o orçamento menor, a tradição menor e a torcida em menor número, sair inteiro é uma forma de grandeza.
E isso vale para o futebol, mas vale muito mais para a vida.
Há pessoas que estão jogando Copas particulares todos os dias. A mãe levanta cedo mesmo exausta. O pai engole o medo para parecer firme. O jovem manda o primeiro currículo. O trabalhador atravessa a cidade em ônibus lotado e ainda sorri para o porteiro. O idoso reaprende a andar depois de uma queda. O doente consegue tomar banho sozinho. O endividado paga uma parcela. O solitário aceita um convite. O deprimido abre a janela.
Há empates que são epopeias.
Mas nós, viciados em finais cinematográficos, passamos por eles como quem não vê. Achamos pouco. Achamos pequeno. Achamos que ainda não é hora de comemorar. E, adiando a alegria, vamos empurrando a vida para um futuro que nunca chega inteiro.
A verdade é que quem não comemora pequenas conquistas corre o risco de transformar a existência numa sala de espera. Sempre esperando o grande amor, o grande dinheiro, o grande reconhecimento, o grande momento, a grande virada. Enquanto isso, a vida passa miúda, diária, insistente, oferecendo pequenos milagres que recusamos porque estamos ocupados demais procurando fogos de artifício.
O empate de Curaçao com o Equador é bonito por isso. Porque nos lembra que a régua da emoção não pode ser a mesma para todos. O que é pouco para uns pode ser imenso para outros. O que parece migalha para quem nasceu sentado à mesa pode ser um banquete para quem sempre olhou a festa pela janela.
É preciso recuperar o direito à pequena festa.
Comemorar sem vergonha. Sem pedir desculpas. Sem ouvir a voz amarga dos fiscais da euforia dizendo que ainda não foi suficiente. Foi suficiente, sim. Foi o que deu para conquistar naquele dia, naquela circunstância, com aquelas forças. E há uma beleza profunda nisso.
A vida não é feita apenas de taças erguidas. É feita de pontos conquistados, de empates arrancados, de derrotas evitadas, de manhãs recomeçadas. A vida também é aquele zero a zero em que ninguém acreditava, mas que, no fim, faz uma ilha inteira dançar.
Curaçao por certo não ganhará a Copa. Nem passará de fase. Mas já tem algo que ninguém tira. O dia em que seu futebol entrou para a memória não por ter sido maior que todos, mas por ter sido maior que o próprio medo.
E nós, que às vezes nos esquecemos de aplaudir nossas pequenas vitórias, deveríamos aprender com eles.
Porque há dias em que levantar da cama é goleada. Há dias em que não desistir é classificação. Há dias em que empatar com o Equador é tocar o céu com as mãos.
E quando esse dia chegar, comemore. Mesmo que o mundo ache pouco.
O mundo, muitas vezes, entende de consumo, de ranking, de performance, de vaidade.
Mas o coração entende de outra coisa.
O coração sabe quando um ponto vale uma Copa.
