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O fim das senhas já começou. Desta vez, é para valer

Por

Harlen Duque

Harlen Duque
  • 07/07/2026
  • 12:10

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Senhas
Fim das senhas? Veja na coluna de Harlen Duque (Foto: Pixabay)

Fim das senhas? Veja na coluna de Harlen Duque (Foto: Pixabay)

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Imagine acordar amanhã e perceber que não precisa mais decorar senhas para acessar o banco, o email, as redes sociais ou os sistemas da empresa. Parece um cenário distante, mas essa transformação já começou. Enquanto a Inteligência Artificial domina as manchetes, outra revolução avança silenciosamente nos bastidores da internet. Apple, Google, Microsoft, Amazon e centenas de empresas decidiram substituir um sistema criado há mais de cinquenta anos e que hoje representa uma das maiores fragilidades da segurança digital: a senha.

Durante décadas acreditamos que quanto mais complicada fosse uma senha, mais seguros estaríamos. Misturamos letras maiúsculas, números, caracteres especiais e criamos combinações quase impossíveis de memorizar. O resultado foi exatamente o oposto do esperado. Passamos a reutilizar a mesma senha em diferentes serviços, anotá las em papéis ou armazená las no navegador, criando inúmeras oportunidades para criminosos digitais. Segundo o Relatório de Investigações de Violações de Dados da Verizon, o uso de credenciais roubadas ou comprometidas continua entre as principais formas de invasão a sistemas em todo o mundo.

O problema nunca foi a qualidade das senhas. O problema sempre foi confiar na memória humana. A lógica da internet era simples: se você conhece a senha, você é o dono da conta. Mas conhecimento pode ser roubado. Um email falso, uma página clonada ou um vazamento de dados podem revelar esse segredo e permitir que outra pessoa tenha acesso à sua identidade digital.

É justamente essa lógica que está sendo substituída. A internet deixa de perguntar “qual é a sua senha?” para fazer uma pergunta muito mais inteligente: “você possui a credencial correta?”. Parece apenas uma mudança de palavras, mas ela representa uma transformação profunda na forma como a confiança é construída no ambiente digital.

A tecnologia responsável por essa mudança chama se Passkey. Diferentemente de uma senha tradicional, ela não depende daquilo que você lembra. Quando uma conta é criada utilizando esse padrão, seu celular ou computador gera automaticamente duas chaves criptográficas. Uma delas é pública e fica armazenada no servidor do serviço que você está utilizando. A outra é privada e permanece protegida dentro do dispositivo. Essa chave nunca sai do aparelho, nunca é enviada pela internet e nem mesmo o fabricante do equipamento consegue acessá la.

Para entender melhor, imagine que você tenha um cofre em casa. Dentro dele existe um documento extremamente valioso. A única forma de abrir esse cofre é utilizando sua impressão digital. No mundo das passkeys acontece algo semelhante. A biometria não substitui a senha. Ela apenas autoriza o acesso à chave criptográfica armazenada no dispositivo. Quem realmente comprova sua identidade é essa chave, e não sua impressão digital. O banco, a loja virtual ou a rede social nunca recebem sua biometria. Eles recebem apenas a confirmação matemática de que o dispositivo autorizado respondeu corretamente ao desafio enviado pelo sistema.

Na prática, o processo acontece em poucos segundos. Quando você tenta acessar sua conta, o serviço envia um desafio criptográfico ao seu dispositivo. A chave privada resolve esse desafio internamente e devolve apenas a resposta. O servidor verifica o resultado utilizando a chave pública armazenada anteriormente. Se a resposta estiver correta, o acesso é liberado. Em nenhum momento existe uma senha trafegando pela internet e, justamente por isso, ela não pode ser interceptada ou roubada.

Uma analogia ajuda a compreender essa mudança. Imagine um condomínio onde o porteiro permite a entrada de qualquer pessoa que informe uma palavra secreta. Se alguém descobrir essa palavra, entra sem dificuldades. Agora imagine um condomínio que utiliza um cartão inteligente impossível de copiar. O porteiro não pergunta nenhuma senha. Apenas verifica se aquele cartão consegue responder corretamente a um desafio eletrônico. A segurança deixa de depender da memória das pessoas e passa a depender de uma credencial protegida por criptografia. É exatamente essa mudança que está acontecendo na internet.

Essa tecnologia já faz parte do nosso cotidiano, muitas vezes sem que percebamos. A Apple incorporou as passkeys ao iPhone, iPad e Mac por meio do Face ID e do Touch ID. Ao acessar um site compatível, basta olhar para a câmera ou tocar o sensor biométrico para entrar na conta. Nenhuma senha é digitada. O Google também permite que usuários utilizem passkeys para acessar serviços como Gmail, Drive e YouTube, inclusive autorizando o login em um computador por meio da confirmação no celular. A Microsoft segue o mesmo caminho e vem expandindo o uso dessa tecnologia em contas pessoais, corporativas, Outlook, Windows e outros serviços. Empresas como Amazon, PayPal e eBay também já oferecem esse método de autenticação aos seus clientes.

Talvez a pergunta que você esteja fazendo agora seja: e se eu perder o celular? A resposta é mais simples do que parece. As passkeys podem ser sincronizadas de forma criptografada entre dispositivos autorizados, permitindo que você continue acessando suas contas por outro aparelho. Também é possível cadastrar mais de um dispositivo ou utilizar uma chave física de segurança como alternativa. É um processo muito parecido com o que fazemos quando perdemos um cartão bancário. O cartão antigo é bloqueado e outro assume sua função.

Naturalmente, as senhas não desaparecerão de um dia para o outro. Durante alguns anos os dois modelos irão conviver. Muitos sistemas antigos continuarão exigindo senhas, enquanto novos serviços nascerão utilizando apenas passkeys. Essa transição lembra muito a chegada do PIX. Durante um período convivemos com TED, DOC, boletos e transferências tradicionais. Hoje, para milhões de brasileiros, o PIX se tornou a forma mais natural de movimentar dinheiro. Com as passkeys, a tendência é semelhante. Aos poucos deixaremos de perceber que um dia dependíamos de senhas para praticamente tudo.

Essa mudança também representa uma excelente notícia para as empresas. Todos os anos organizações gastam milhões de reais com recuperação de senhas esquecidas, suporte técnico e prejuízos provocados por ataques de phishing e roubo de credenciais. Ao eliminar a necessidade de compartilhar segredos pela internet, as passkeys reduzem significativamente esses riscos e tornam a experiência do usuário mais rápida e segura. Não por acaso, Apple, Google, Microsoft e centenas de empresas decidiram apoiar o mesmo padrão tecnológico por meio da FIDO Alliance, uma iniciativa global criada justamente para substituir as senhas por métodos de autenticação mais modernos.

Estamos diante de uma mudança histórica. Durante mais de cinquenta anos tentamos criar senhas cada vez mais fortes para proteger nossa vida digital. Agora percebemos que o verdadeiro avanço não está em inventar combinações mais difíceis, mas em eliminar a necessidade delas. A confiança deixa de depender da memória humana e passa a ser construída pela matemática, pela criptografia e por dispositivos capazes de comprovar nossa identidade sem revelar nenhum segredo.

Daqui a alguns anos, talvez nossos filhos achem curioso quando contarmos que precisávamos decorar dezenas de senhas para acessar bancos, empresas, redes sociais e serviços públicos. Assim como hoje parece estranho imaginar alguém consultando um mapa de papel para chegar a um endereço, em breve também parecerá antiquado depender de uma sequência de letras e números para provar quem somos.

A maior revolução da segurança digital não será lembrada porque criou uma senha impossível de descobrir. Ela será lembrada porque finalmente tornou as senhas desnecessárias.

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CEO Sucesu Nacional e líder em transformação Digital na Wblio , especialista em transformação de negócios pela Stanford University , piloto de automobilismo virtual e um apaixonado pela cultura de inovação.

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