As barreiras comerciais impostas a produtos brasileiros deixaram de ser uma preocupação restrita aos Estados Unidos e passaram a envolver outros importantes parceiros comerciais do país.
Nos últimos meses, a China limitou as compras de carne bovina por meio de um sistema de cotas e sobretaxas, a União Europeia endureceu as regras para a entrada de carnes brasileiras e manteve tarifas sobre o aço, enquanto o México elevou impostos de importação para proteger parte de sua produção nacional.
Embora cada medida tenha justificativas distintas —sanitárias, ambientais ou de defesa da indústria local —, especialistas avaliam que o conjunto dessas ações reflete um avanço do protecionismo no comércio internacional.
Para o economista Gustavo Andrade, analista da Rede 98, o cenário exige atenção porque vai além das questões econômicas e envolve interesses estratégicos e diplomáticos entre os países.
“Esse é um tema de economia política. Envolve instrumentos como tarifas, lobby e negociações comerciais. Não é apenas uma discussão econômica, mas de posicionamento dos países no comércio internacional”, afirma.
Segundo o economista, a adoção de tarifas de importação é uma prática utilizada por diversos países para aumentar a arrecadação e proteger setores considerados estratégicos. Gustavo Andrade ainda ressalta que o Brasil também recorre a esse mecanismo em alguns segmentos, especialmente na indústria de produtos manufaturados e tecnológicos.
“As tarifas existem para arrecadar e, ao mesmo tempo, proteger determinadas indústrias até que elas consigam competir sozinhas. O Brasil também faz isso em vários produtos.”
Na avaliação do especialista, a principal diferença está na influência econômica de cada país. Ele explica que grandes economias conseguem transferir parte do custo das tarifas aos exportadores, algo que países com menor peso no comércio global, como o Brasil, têm mais dificuldade para fazer.
“Quanto maior a influência econômica de um país, maior sua capacidade de dividir o custo da tarifa com os exportadores. Estados Unidos, China e União Europeia conseguem fazer isso. O Brasil não tem esse mesmo poder de negociação.”
O economista observa que o país enfrenta um cenário mais complexo por estar simultaneamente exposto a restrições comerciais impostas pelos principais polos da economia mundial.
“O Brasil está em uma situação complicada porque enfrenta dificuldades comerciais com Estados Unidos, China e União Europeia, cada um por motivos diferentes. Isso reduz nossa margem de atuação no comércio internacional.”
Gustavo Andrade destaca ainda que a reorganização das cadeias globais de produção também pode afetar o agronegócio brasileiro. Segundo ele, a China vem buscando reduzir sua dependência externa na área de segurança alimentar, o que pode diminuir, no futuro, a necessidade de importar proteína animal.
“A China sabe que depende de outros países para garantir sua segurança alimentar e vem trabalhando para diminuir essa vulnerabilidade. A principal preocupação está justamente na produção de proteínas, um mercado em que o Brasil tem forte participação.”
