A semana política em Minas Gerais começa com o PT sendo mais PT do que nunca.
O partido tem uma habilidade especial para convocar uma reunião destinada a marcar outra reunião. Ou para anunciar uma coletiva que servirá para explicar por que a coletiva anteriormente anunciada foi cancelada. É quase um método administrativo: quando a decisão parece próxima, cria-se uma nova etapa para discutir quando ela poderá, enfim, ser tomada.
É o PT de sempre.
Na noite de domingo, o partido cancelou a entrevista coletiva prevista para esta segunda-feira. Horas depois, pela manhã, confirmou o nome do deputado federal Patrus Ananias como pré-candidato ao governo de Minas.
A direção petista, em publicações nas redes sociais, tenta transmitir a impressão de que tudo foi resolvido sem maiores dificuldades. Não foi.
Patrus tomou a decisão depois de longas conversas e de uma negociação que envolveu diretamente o presidente Lula, em Brasília. Segundo interlocutores envolvidos nas articulações, o deputado deixou claro que não pretendia embarcar numa aventura sem compromissos concretos da direção nacional, estrutura adequada de campanha e uma estratégia minimamente consistente para Minas.
Ser candidato do PT ao governo mineiro, nesta eleição, será uma viagem complicada e sem garantia de chegada.
O partido ainda enfrenta forte resistência em parcelas importantes do eleitorado. Além do antipetismo nacional, permanece viva a rejeição provocada pelo governo de Fernando Pimentel.
Pimentel comandou uma das administrações mais desgastadas da história recente de Minas. O atraso e o parcelamento dos salários dos servidores, somados à deterioração das contas públicas, deixaram marcas profundas.
O problema é que uma parte do próprio PT ainda não conseguiu fazer uma autocrítica minimamente convincente sobre aquele período.
Há uma ala que continua repetindo “Pimentel, Pimentel, Pimentel”, como se bastasse defender o ex-governador para apagar o desgaste deixado por sua gestão. Não basta.
Enquanto o PT não compreender a dimensão política daquele desastre, continuará obrigando qualquer candidato ao Palácio Tiradentes a carregar uma mala pesadíssima — e sem rodinhas.
Patrus sabe disso. E não quer entrar numa campanha apenas para cumprir tabela ou oferecer a Lula um palanque protocolar no segundo maior colégio eleitoral do país.
A chapa de Mateus procura equilíbrio
Do outro lado, a campanha do governador Mateus Simões também precisa encontrar estabilidade.
Mateus percorreu o estado, conversou com prefeitos, construiu relações regionais e aproveitou a visibilidade e a estrutura política do governo para ampliar sua presença. Mas ainda existem definições importantes dentro da própria aliança.
Na semana passada, deputados do União Brasil ensaiaram um movimento em defesa de candidatura própria ao governo, tendo Marcelo Aro como opção. A articulação perdeu força nos últimos dias e, até agora, Aro permanece no campo de Mateus, como pré-candidato ao Senado.
Essa permanência, porém, cria outro problema: a convivência com Carlos Viana, também interessado em disputar uma cadeira no Senado pela aliança liderada pelo PSD.
Aro e Viana são como azeite e água. Podem até ocupar o mesmo recipiente, mas dificilmente se misturam. Há diferenças políticas, eleitorais e pessoais que tornam complicada a formação de uma dobradinha minimamente funcional.
Na política, adversários históricos aprendem a se abraçar quando o prazo das convenções termina e a sobrevivência eleitoral fala mais alto. Neste caso, porém, a liga parece especialmente difícil.
Por isso, cresce a possibilidade de Carlos Viana ser informado de que não haverá espaço para sua candidatura ao Senado. Uma alternativa seria acomodá-lo numa disputa para a Câmara dos Deputados.
Essa é uma das decisões que precisam ser tomadas ao longo da semana.
A convenção do Novo
Nesta terça-feira, dia 21, o Novo realizará sua convenção estadual. O partido integra a aliança de Mateus Simões, mas ainda precisa resolver questões internas relacionadas às candidaturas ao Senado e à composição da chapa majoritária.
A convenção também poderá apresentar uma indicação para a vaga de vice na chapa de Mateus. Entre os nomes discutidos estão Tiago Mitraud, Lucas Gonzalez e Fernanda Altoé.
O escolhido pelo Novo ainda precisará passar pelo entendimento mais amplo da coligação. Mesmo assim, a convenção deverá indicar qual deles reúne mais força interna para ocupar o posto.
O PL muda a data — e conserva as dúvidas
O PL, que inicialmente realizaria sua convenção no dia 23, transferiu o encontro para o dia 25. A mudança é mais um sinal de que o partido ainda precisa acomodar suas muitas correntes internas.
A legenda terá de decidir se lança candidatura própria, apoia um nome de outro partido ou prolonga a espera. O PL vive entre o tamanho de sua bancada, a força eleitoral de seus principais nomes e a dificuldade de transformar essa estrutura numa estratégia unificada para Minas.
Uma das alas mais influentes é liderada pelo deputado federal Nikolas Ferreira. Ele é hoje o principal puxador de votos da legenda no estado e um dos maiores ativos eleitorais do PL no país. Sua posição terá peso decisivo na escolha do caminho partidário.
E há, evidentemente, a dúvida chamada Cleitinho.
Minha aposta é clara: Cleitinho não será candidato ao governo de Minas nesta eleição.
Essa avaliação já circula entre parlamentares e dirigentes próximos ao senador. O próprio Cleitinho deu sinais de insegurança e demonstrou dúvidas sobre se este seria realmente o melhor momento para enfrentar uma disputa estadual.
O problema é que sua hesitação também atrasa as decisões dos partidos que ainda esperam por ele. Cleitinho corre o risco de permanecer tempo demais em cima do muro e, quando finalmente resolver descer, descobrir que as alianças já foram fechadas e as cadeiras, ocupadas.
Em política, o muro pode oferecer uma boa vista. Mas não garante lugar na chapa.
Quatro nomes principais e muitas interrogações
Até agora, quatro pré-candidaturas de maior peso político estão chanceladas pelas respectivas legendas e deverão ser submetidas às convenções: Mateus Simões, pelo PSD; Gabriel Azevedo, pelo MDB; Alexandre Kalil, pelo PDT; e, agora, Patrus Ananias, pelo PT.
Isso não significa, evidentemente, que sejam os únicos nomes anunciados na disputa. Existem outras pré-candidaturas de partidos menores. Mas são esses quatro que, neste momento, concentram a maior parte das articulações e podem influenciar diretamente a formação das principais alianças.
O PDT também participa de conversas nacionais. Carlos Lupi mantém diálogo com José Dirceu, em Brasília, em busca de uma composição que envolveria não apenas Minas, mas também outros estados.
Uma das possibilidades examinadas seria uma troca de apoios: o PDT apoiaria o PT no Rio Grande do Sul e, em contrapartida, receberia o apoio petista em Minas.
Com Patrus lançado, essa engenharia muda completamente. A candidatura própria do PT pode encerrar a possibilidade de apoio imediato a Kalil, mas também abrir caminho para uma negociação posterior. Dependendo das pesquisas e da disposição dos candidatos, uma das duas candidaturas poderá ser retirada em nome de uma composição.
Tudo está sendo conversado. Quase nada está definitivamente resolvido.
Esse é o caldeirão da política mineira: água fervendo, partidos mexendo a panela e candidatos tentando descobrir se serão servidos como prato principal ou como acompanhamento.
Nas próximas duas semanas, as convenções começarão a mostrar quem é quem. A partir daí, o eleitor poderá avaliar com maior clareza os nomes que efetivamente estarão nas urnas em outubro.
Mas é importante lembrar que a eleição não se resume ao governo de Minas ou à Presidência da República. Também serão escolhidos deputados estaduais, deputados federais e senadores.
Em um sistema político cada vez mais dependente das coalizões e das negociações no Legislativo, esses votos são fundamentais. Os parlamentares controlam parcelas crescentes do Orçamento, influenciam a execução das políticas públicas e podem ajudar ou impedir qualquer governo.
Escolher deputados e senadores como quem preenche as últimas linhas de um formulário é entregar uma parcela importante do poder sem pensar.
A política mineira entra na semana das definições.
Ou, conhecendo os partidos, na semana em que novas reuniões serão marcadas para decidir quando as definições finalmente poderão acontecer.dos e senadores como quem preenche as últimas linhas de um formulário é entregar uma parte importante do poder sem pensar.
A política mineira entra na semana das definições. Ou, conhecendo os partidos, na semana em que novas reuniões serão marcadas para discutir quando as definições poderão acontecer.
