A convenção do Partido Missão marcou o lançamento oficial da candidatura de Renan Santos à Presidência da República. O fundador do MBL escolheu um eixo político bastante claro. Segurança pública, enfrentamento ao crime organizado e um discurso de ruptura com o modelo tradicional de combate à violência.
Em diferentes momentos da pré-campanha, a comunicação de Renan tem buscado referências evidentes ao presidente salvadorenho Nayib Bukele, cuja popularidade transformou seu método de enfrentamento às facções em um fenômeno político internacional. A candidatura foi oficializada pelo partido nas convenções realizadas e no ato público de lançamento da campanha em São Paulo.
Seria possível existir um Bukele brasileiro?
A resposta exige menos paixão política e mais geografia, direito constitucional e ciência política.
O primeiro obstáculo chama-se Brasil.
El Salvador possui cerca de 6 milhões de habitantes distribuídos em pouco mais de 21 mil quilômetros quadrados. O Equador, onde o presidente Daniel Noboa também prometeu uma guerra frontal contra o crime organizado inspirada no modelo salvadorenho, tem aproximadamente 18 milhões de habitantes e um território inferior a 300 mil quilômetros quadrados.
O Brasil reúne mais de 210 milhões de habitantes espalhados por 8,5 milhões de quilômetros quadrados, 27 unidades da Federação, milhares de municípios, dezenas de polícias com estruturas distintas e um sistema federativo que distribui competências entre União, estados e municípios.
Não se trata apenas de uma diferença de escala. É uma diferença de natureza institucional.
Enquanto Bukele concentra grande parte do aparato de segurança nacional sob comando do governo central, no Brasil o presidente da República não possui autoridade direta sobre as polícias militares e civis estaduais. A segurança pública brasileira é compartilhada constitucionalmente entre diferentes entes federativos, limitando qualquer tentativa de reproduzir integralmente o modelo salvadorenho.
É justamente aí que muitos projetos políticos encontram seu primeiro choque com a realidade.
É relativamente simples prometer uma guerra contra o crime. Muito mais complexo é alterar uma arquitetura constitucional construída ao longo de décadas.
O caso equatoriano
Daniel Noboa venceu a eleição prometendo endurecimento semelhante ao de Bukele. Declarou conflito armado interno, mobilizou as Forças Armadas e adotou medidas excepcionais contra organizações criminosas.
Os resultados foram mistos.
Embora alguns indicadores tenham apresentado melhora localizada, especialistas observam que o Equador continua enfrentando forte presença de organizações ligadas ao narcotráfico internacional. O consenso entre pesquisadores é que a experiência equatoriana mostrou os limites de simplesmente reproduzir uma estratégia concebida para uma realidade muito menor e institucionalmente distinta.
O próprio sucesso de Bukele também divide especialistas.
Há um grupo que considera sua política um caso raro de recuperação do controle territorial pelo Estado. Os homicídios despencaram, bairros antes dominados por gangues voltaram a ser frequentados pela população e pesquisas internacionais registram níveis elevados de aprovação popular.
Por outro lado, organizações como Human Rights Watch, Anistia Internacional e diversos pesquisadores latino-americanos alertam para denúncias de prisões em massa sem devido processo legal, restrições a garantias individuais, concentração de poder e enfraquecimento dos mecanismos de controle institucional.
O debate não é apenas sobre eficiência
É preciso deixar claro quais instrumentos um Estado democrático está disposto a utilizar para alcançar resultados. No Brasil, esse dilema ganha contornos ainda mais delicados.
A criminalidade organizada possui estrutura empresarial, ramificações internacionais, infiltração econômica, atuação em fronteiras extensas e presença simultânea em diferentes estados. PCC, Comando Vermelho e dezenas de facções regionais operam em um ambiente muito mais complexo do que aquele encontrado em El Salvador.
Não existe solução simples para um problema dessa dimensão. Isso não significa que um discurso de firmeza seja inviável. Ao contrário.
A segurança pública tem posição central na eleição presidencial de 2026. O crescimento da preocupação da população com violência urbana abre espaço para candidatos que proponham endurecimento penal, integração das forças policiais, fortalecimento da inteligência, maior controle das fronteiras e combate ao financiamento das organizações criminosas.
O desafio brasileiro
Essas propostas podem perfeitamente ser debatidas dentro da ordem constitucional brasileira.
O desafio começa quando se promete importar um modelo praticamente pronto.
A história recente mostra que copiar fórmulas estrangeiras raramente produz os mesmos resultados.
Instituições importam. Cultura política importa. Federalismo importa. Escala territorial importa.
Renan Santos aposta que poderá ocupar esse espaço político apresentando-se como um “Bukele brasileiro”. A estratégia pode encontrar receptividade entre eleitores cansados da violência e da sensação de impunidade. Mas transformar essa narrativa em política pública exigiria muito mais do que vontade presidencial.
Exigiria mudanças legislativas profundas, cooperação permanente com governadores, fortalecimento das instituições policiais, investimentos em inteligência e capacidade de enfrentar organizações criminosas que operam em uma dimensão infinitamente superior à das gangues centro-americanas.
A eleição poderá discutir quem tem o melhor projeto para enfrentar o crime. Mas a realidade brasileira recomenda cautela com qualquer promessa de solução instantânea.
Porque, na política, estilos podem ser importados. Instituições, geografia e história, não.
