O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou o afastamento do diretor de Inteligência da Polícia Federal, Leandro Almada, que teve papel de destaque nas investigações sobre os assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. A medida, divulgada nesta terça-feira (08/9), também atingiu o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e ocorre em meio à crise envolvendo integrantes do Supremo e a corporação.
Segundo a decisão, Almada e Rodrigues devem ser afastados dos cargos enquanto são investigadas as circunstâncias da produção de relatórios de inteligência da PF que continham informações sobre o próprio Mendonça, o advogado-geral da União, Jorge Messias, além de delegados e agentes da corporação.
Mendonça considerou ilícita a produção e a divulgação dos documentos e afirmou que teria ocorrido “monitoramento e coleta dirigida”. O ministro determinou que a Corregedoria da Polícia Federal investigue o caso.
A decisão não afirma que Almada tenha elaborado pessoalmente ou determinado a produção dos relatórios. Mendonça sustenta, no entanto, haver indícios preliminares que justificam investigar o grau de conhecimento e eventual participação dos responsáveis pela inteligência da PF.
“Em juízo preambular, identificam-se robustos indícios da existência não apenas de grave omissão como também de participação e conhecimento da elaboração desses ‘relatórios'”, escreveu.
Diretor de Inteligência desde 2024
Leandro Almada assumiu a Diretoria de Inteligência Policial (DIP) em 2024. Mendonça argumentou que, embora um dos relatórios questionados tenha sido produzido por uma unidade responsável por inquéritos que tramitam em tribunais superiores, a área estaria submetida à supervisão da DIP.
“A referida unidade de inteligência sujeita-se à DIP, sendo assim dever legal do seu responsável zelar para que fossem observados os normativos internos e os comandos legais”, afirmou o ministro.
Mendonça também argumentou que a permanência dos dois delegados nos cargos poderia representar risco às investigações sobre a produção dos documentos, devido aos acessos e poderes inerentes às funções ocupadas.
“Permitir que as autoridades públicas permaneçam investidas de poderes policiais de elevada envergadura, diante de suspeita concretamente individualizada de que esses poderes teriam sido empregados de maneira indevida, seria medida temerária”, escreveu.
Atuação no caso Marielle
Almada ganhou projeção nacional pela atuação na investigação federal sobre os assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes, mortos a tiros no Centro do Rio de Janeiro, em março de 2018.
O delegado comandou a frente que ficou conhecida como “investigação da investigação”, voltada a apurar possíveis interferências e obstáculos enfrentados pelas apurações conduzidas anteriormente pela Polícia Civil do Rio de Janeiro.
A Polícia Federal entrou diretamente no caso em 2023. No ano seguinte, a investigação federal apontou os irmãos Chiquinho e Domingos Brazão como suspeitos de serem mandantes do assassinato. O ex-chefe da Polícia Civil do Rio, Rivaldo Barbosa, foi apontado como suspeito de atuar para atrapalhar a investigação. Os três negam envolvimento no crime.
O caso Marielle no STF ficou sob a relatoria de Alexandre de Moraes, ministro que está no centro da atual crise envolvendo Mendonça.
Crise no STF
Os afastamentos são mais um capítulo da crise iniciada após Mendonça retirar o sigilo de relatórios da Polícia Federal que reuniam informações sobre supostos contatos entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
Os documentos passaram a provocar questionamentos sobre a atuação de autoridades e também sobre a própria produção de relatórios de inteligência pela Polícia Federal. Agora, Mendonça determinou que a Corregedoria da corporação investigue como esse material foi produzido e divulgado.