Mais da metade dos jornalistas brasileiros, 50,2%, apresenta sintomas de depressão. O dado integra a pesquisa “Condições de Trabalho e Saúde Mental de Jornalistas no Brasil”, lançada nesta segunda-feira (14/9) durante reunião do Conselho de Comunicação Social (CCS) do Congresso, no Senado.
O levantamento foi elaborado pela Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho (Fundacentro), ligada ao Ministério do Trabalho e Previdência, em parceria com a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). Os pesquisadores ouviram 257 profissionais de todo o país por meio de questionário online.
Os números da pesquisa
- Insônia: 47,9% relataram sintomas
- Estresse: 47,8% apresentaram sintomas
- Ansiedade: 35,8% apresentaram sintomas
- Álcool: 21,5% consomem em padrão de risco, nocivo ou de provável dependência
- Assédio moral: 37% pelo critério de pelo menos um episódio semanal ou diário; 26,1% quando o critério exige dois ou mais comportamentos negativos
- Cyberbullying: 30,4% foram vítimas
- Alto desgaste: 28% acumulam alta demanda e baixo controle sobre o próprio trabalho
- Apoio social: 61,1% percebem baixo apoio na redação
- Capacidade para o trabalho: 33,1% estão em nível baixo, e nenhum entrevistado foi classificado no nível ótimo
O assédio moral virou parte da rotina das redações, na avaliação da coordenadora de Comunicação da Fundacentro, Cristiane Oliveira Reimberg. Para ela, os episódios deixaram de ser tratados como desvio e passaram a ser absorvidos como algo esperado do dia a dia.
Parte dessa pressão tem endereço novo: as métricas. O secretário-adjunto de Saúde e Segurança da Fenaj, Norian Segatto, contou que, em grandes veículos, as equipes que medem desempenho de conteúdo chegam a ser maiores que a própria redação. O resultado é um profissional cobrado pelo número de curtidas, e não pela apuração. Segatto avalia que o estudo pode pautar tanto negociações sindicais quanto novas leis de proteção aos trabalhadores da comunicação.
Nada disso é problema individual, resumiu a presidente da Fenaj e conselheira do CCS, Samira de Castro. Ela atribuiu o adoecimento à organização do trabalho e listou os fatores que considera centrais: jornadas prolongadas, pressão por produtividade, assédio, falta de autonomia profissional e violência digital.
Fora das redações, o ataque vem das redes, e tem alvo preferencial. A presidente do CCS, Patrícia Blanco, classificou insultos e banalização da violência sexual contra jornalistas como discurso de ódio, sem proteção da liberdade de expressão. O primeiro relatório de monitoramento da Coalizão em Defesa do Jornalismo no período eleitoral registrou mais de 2,6 mil ataques a jornalistas em duas semanas, dois terços deles contra mulheres.
De acordo com o Senado, agora pesquisa passa a servir de base para negociações coletivas e para a discussão de políticas de saúde ocupacional na comunicação. A próxima reunião do Conselho de Comunicação Social está marcada para 5 de outubro, às 14h.
(Com informações de Agência Senado)
