A crise que levou cinco cidades de Minas Gerais a decretarem situação de emergência econômica no agronegócio ultrapassa as propriedades rurais e começa a atingir outros setores da economia regional.
São Gotardo, Ibiá, Rio Paranaíba, Serra do Salitre e Patrocínio, no Triangulo Mineiro, reconheceram oficialmente as dificuldades enfrentadas pelos produtores diante da combinação de custos elevados, juros, perdas climáticas, queda nos preços e pressão das importações.
Para a analista de agronegócio do Sistema FAEMG/SENAR Minas, Mariana Marotta, o cenário precisa ser analisado considerando toda a cadeia produtiva. Segundo ela, no caso do alho, a redução dos preços pagos ao produtor ocorre ao mesmo tempo em que aumentou a concorrência no mercado interno com a entrada do produto importado.
“A gente tem que analisar a situação no complexo como um todo. A gente tem observado uma redução no preço pago, um aumento no custo de produção e uma margem do produtor mais justa. Então, a gente entende esse mercado sofrendo com as pressões do mercado e com as questões geopolíticas que vão afetar essa produção e que afetam não só o agro. Não é só o produtor rural que vai sentir, é a cidade toda. O comércio sente, quem vive daquela necessidade do agro sente, a mão de obra. Então, toda a região vai sentir essa crise econômica do setor agropecuário”
A situação é agravada pelo peso do financiamento na atividade. De acordo com a analista, cerca de 53% do custo de produção do alho é financiado. Com preços menores e custos maiores, a margem do produtor fica pressionada.
A dimensão das perdas ajuda a explicar a emergência decretada pelos municípios. Segundo dados citados nos decretos, o custo de produção do alho chega a R$ 13,30 por quilo em São Gotardo e R$ 16,30 em Ibiá, enquanto o produtor recebe aproximadamente R$ 11 por quilo. Os prejuízos estimados chegam a R$ 70 mil por hectare em São Gotardo e R$ 71,5 mil em Ibiá.
Crise não está restrita ao alho
Apesar de o alho concentrar alguns dos números mais expressivos, Mariana afirma que a pressão financeira alcança outras atividades importantes do agronegócio no Triângulo Mineiro.
Uma análise realizada pelo Sistema FAEMG/SENAR Minas considerou cadeias como grãos, hortaliças e pecuária leiteira. Segundo ela, todas apresentaram dificuldades financeiras.
“Não é só as olerícolas. A gente vê a situação na questão dos grãos, a gente vê a situação na questão da pecuária leiteira”, explica.
Na produção de hortaliças, um dos exemplos citados pela analista é a cenoura. Segundo Mariana, o produtor chegou a receber cerca de R$ 1 pelo quilo do produto no ano passado.
Na pecuária leiteira, a redução dos preços pagos ao produtor também ocorre em meio à concorrência do produto importado. Mariana cita a entrada de leite do Uruguai e da Argentina como um dos fatores que aumentam a pressão sobre o mercado interno.
Crise chega ao comércio e aos empregos
Com a redução da renda dos produtores, os efeitos não ficam restritos ao campo. O agronegócio movimenta comércio, serviços, transporte, mão de obra e fornecedores de insumos nas cidades produtoras.
Mariana citou uma audiência pública realizada em São Gotardo para discutir o aumento das importações de alho. Durante o encontro, segundo ela, até profissionais de outros setores relataram impactos provocados pela crise.
O impacto regional é relevante porque, segundo o Sistema FAEMG/SENAR Minas, o Triângulo Mineiro concentra parcela significativa da produção agropecuária do Estado.
Os decretos têm validade de 180 dias. O reconhecimento da emergência pode servir como documentação para produtores que busquem renegociar ou alongar dívidas, mas não significa suspensão automática ou perdão de débitos. Cada operação depende das regras aplicáveis e da análise da instituição credora.