O adeus a “Veríssima” literatura no Brasil

Siga no

Escritor e cronista Luis Fernando Verissimo morreu neste sábado aos 88 anos. (Carlos Rodrigues/Estadão Conteúdo)

Compartilhar matéria

A morte de Luis Fernando Verissimo é a pausa melancólica de uma melodia que embalou gerações. Cronista, contista, romancista, tradutor de afetos e ironias, ele nos ensinou a rir daquilo que, de tão sério, só poderia ser suportado com humor. Foi um mestre em transformar o banal em literatura e a rotina em poesia.

Verissimo herdou o talento do pai, Érico Verissimo, mas deu a ele outro tom, menos épico, mais cotidiano; menos tempestade, mais ironia fina. Érico escreveu os grandes painéis do Brasil, do Ciclo de Porto Alegre até a monumental “O Tempo e o Vento”.

Luis Fernando nos entregou as miudezas que, no fundo, são o que nos formam, o casamento, a política, o futebol, a vida privada. Entre uma piada e outra, ensinou-nos que o riso é uma forma nobre de resistência.

Confesso que minha paixão pela leitura nasceu justamente na obra do pai. Foi ao abrir as páginas de “Incidente em Antares” que me perdi, e me encontrei, no poder arrebatador da ficção. Aquelas vozes dos mortos que se insurgiam contra a hipocrisia dos vivos me revelaram que a literatura é capaz de ser ao mesmo tempo espelho e fuzil, beleza e denúncia. A partir dali, não houve mais retorno, me tornei leitor para sempre.

Luis Fernando Verissimo, porém, foi quem ensinou que a literatura não precisa estar distante, intocável. Ele nos mostrou que a grandeza também pode morar na simplicidade de uma crônica curta, num diálogo de botequim, num personagem tão improvável quanto o “Analista de Bagé” ou a imortal “Velhinha de Taubaté”.

Érico nos deu o épico, Luis Fernando nos ofereceu o cotidiano. Um nos fez apaixonar pela leitura, o outro nos ensinou a rir de nós mesmos.

E se a morte, como em “Incidente em Antares”, viesse cobrar coerência, talvez Verissimo respondesse com sua habitual ironia. “Coerência? A vida nunca foi muito chegada a isso.”

Ele partiu, mas deixou uma herança literária que não cabe em epitáfios. Cabe, sim, em cada leitor que sorri, se emociona ou descobre que, na palavra, mora um mundo inteiro.

Compartilhar matéria

Siga no

Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

Webstories

Mais de Entretenimento

Mais de 98

Pacheco sai da toca

Marília Campos faz aceno a Pacheco em evento em Contagem: “representa Minas Gerais no Senado”

O que o nariz de um rei tem a ver com o gol de futebol

LinkedIn, Insta, TikTok: cada rede fala diferente

Como usar a restituição do IR de forma inteligente

EAD funciona? A resposta é mais complexa do que parece

Últimas notícias

Tarifas de Trump: Tribunal dos EUA decide que taxas são ilegais

Os ‘falsos Verissimos’ da Internet; escritor está entre os mais citados nas redes sociais

Morre o escritor e cronista Luis Fernando Verissimo aos 88 anos

Fiemg entrega a Lula novas propostas contra impactos do tarifaço dos EUA

DNA mineiro: técnica inédita garante ‘sotaque próprio’ ao ‘vinho de inverno’, produzido em MG

Buscando se recuperar na temporada, Atlético encara o Vitória; saiba onde assistir

Cruzeiro enfrenta o São Paulo em busca da vice-liderança do Brasileirão; saiba onde assistir

Depois de seis meses, João Marcelo é liberado pelo Departamento Médico do Cruzeiro

Eduardo Bolsonaro pede à Hugo Motta que possa exercer mandato dos EUA