PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Um olhar de atenção para as crianças do Brasil

Siga no

(Bruno Peres/Agência Brasil)

Compartilhar matéria

O Brasil acaba de dar um passo até ousado, e inevitável, no cruzamento entre infância, direitos humanos e modernidade digital. No último dia 15, o governo federal anunciou que aplicativos e jogos eletrônicos passam a poder receber classificação indicativa, e inaugura uma nova faixa etária: 6 anos. 

A infância brasileira está sendo ofertada a  um mundo de riscos. O contato com adultos desconhecidos, compras não autorizadas, interações via inteligência artificial, e tudo isso será objeto da nova regulação. 

Mas colocar o regulador em cena não basta; o nervo da questão está na balança que se pretende traçar entre proteção e liberdade, e é justamente nessa tensão que mora o drama desta medida.

O que se pretende regulamentar


Até hoje, a classificação indicativa ficava limitada a conteúdos “tradicionais”, audiovisual, filmes, programas; e avaliava essencialmente sexo, nudez, drogas ou violência, agora, entra no arco das observações tudo. Jogos, aplicativos de toda natureza, inclusive interações digitais. O conteúdo fixo deixa de ser o único critério, os riscos inerentes à dinâmica digital também contam.

Antes, as classificações eram “livre”, 10, 12, 14, 16 e 18 anos. A novidade é inserir “6 anos” como referência sensível — o que sinaliza uma visão de que nem tudo é apropriado para os menores, mesmo que “livre”.

Junto com a medida, o governo lançou o programa Famílias Fortes, promessa de priorização de casos penais de violência contra crianças e adolescentes, monitoramento unificado de denúncias e um pacto nacional de escuta protegida.  As estatísticas pintam um cenário sombrio: entre 2023 e 2025, os homicídios de crianças e adolescentes cresceram 4,2%, chegando a 2.356 casos.

A portaria prevê que serão avaliadas as  possibilidade de contato com adultos desconhecidos; as compras online indevidas; as interações perigosas com agentes de IA, ou seja, não só o que o app ou jogo mostra, mas como ele convida a interagir.

Como pontos positivos a portaria entrega modernidade ao ECA digital, trazendo a regulação para o mundo em rede, sinaliza que não se pode mais separar “mundo online” e “mundo real” quando falamos de infância, e traz instrumentos institucionais que prometem dar celeridade em casos graves de violência contra menores.

Há, contudo, algumas observações a se fazer sobre o instrumento apresentado pelo governo. A primeira delas é a ambiguidade e subjetividade. O que exatamente configura “interação perigosa com IA? Quem vai arbitrar? Corre-se o risco de censura indevida, com critérios vagos podendo abrir porta para autocensura ou bloqueios sob justificativas frágeis. É preciso definir a capacidade institucional, serão necessárias equipes qualificadas, tecnologia e orçamento para fiscalizar aplicativos Brasil adentro. O país tem regiões com pouca estrutura educacional em tecnologia. Se a classificação for apenas um rótulo sem acompanhamento educativo, será letra morta para quem mais precisa.

Se o governo conseguir balancear com rigor técnico e transparência, teremos um avanço substancial. Pela primeira vez um Estado que mira o pixel, não só o filme, como espaço de regulação. Entretanto, se falhar, corre o risco de produzir rótulos vazios, censuras mal aparelhadas ou regulamentações desiguais conforme o interesse local.

O desafio é gigantesco. Proteger sem tolher, educar sem punir, acompanhar sem sufocar. O digital tornou-se terreno de disputas simbólicas e reais, e é imperativo que a infância esteja no centro dessa disputa, não nas margens de uma discussão tão necessária e fundamental.

Compartilhar matéria

Siga no

Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

Webstories

Mais de Entretenimento

Mais de 98

O Supremo precisa provar que a lei também sobe as escadas

O contrato fala. Agora Moraes precisa falar também

Mateus Simões tem apoio de prefeitos e deputados?

O Master abre a caixa-preta. O Supremo abre o plenário

Portas fechadas em Brasília, cadeiras vazias em Minas

PT não vai defender Pimentel?

Últimas notícias

Barreiro registra quase 40 mm de chuva em duas horas em BH neste domingo

Zanin determina prazo até 23h para PF entregar dados do celular de Vorcaro no STF

Com 36,5 mil torcedores, Uberlândia é campeão da Série D do Brasileirão

Com R$ 3,3 bi gerados, Rock in Rio encerra edição de 2026 e anuncia novidade para 2028

Adversário do Atlético na Copa do Brasil, Grêmio demite Luís Castro

Cruzeiro sofre 31 finalizações de Santos desfalcado e sem trio de artilheiros

CEO da Anthropic pede freio no avanço da IA após alertas de uso indevido

Brasil vence o Sul-Americano e garante vaga para Olimpíada de Los Angeles

Daniel Vorcaro trabalha em horta e jardins de batalhão da PM na Papudinha, no DF