PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

A empatia seletiva e o silêncio de Boulos

Siga no

(Ricardo Stuckert / PR)

Compartilhar matéria

A cena política brasileira tem dessas ironias que ferem a razão e a sensibilidade. Guilherme Boulos, recém-empossado como Ministro de Relações Institucionais do governo Lula, abriu seu discurso de posse com um gesto aparentemente nobre: solidarizou-se com as famílias das vítimas da Operação Contenção, no Rio de Janeiro. Uma operação dura, sangrenta, e, como tantas outras, marcada pela tragédia. Mas o gesto veio acompanhado de um silêncio que ecoa mais alto que as palavras, a ausência de empatia para com as famílias dos policiais mortos.

É esse silêncio que denuncia a contradição. Porque não se trata de equivalência, ninguém está dizendo que o sofrimento de um lado apaga o do outro. Trata-se de empatia e humanidade, dois elementos que deveriam guiar qualquer homem público que se pretenda sensível às dores do país.

O duplo padrão da compaixão

A esquerda brasileira, e Boulos é uma de suas expressões mais eloquentes, costuma se apresentar como defensora das minorias, dos pobres, dos oprimidos. Mas muitas vezes falha em enxergar que o policial também é parte desse Brasil desassistido, aquele que ganha pouco, vive sob risco constante e é usado como peça de reposição no tabuleiro da segurança pública. Quando morre, vira estatística; quando erra, vira manchete.

Na posse de Boulos, esperava-se um gesto simbólico, um reconhecimento mínimo da dor das famílias que enterraram pais, filhos, maridos que vestiam farda. Bastava uma frase simples: “Me solidarizo também com as famílias dos policiais que perderam suas vidas nessa tragédia.” Mas não, o silêncio foi eloquente.

E quando o silêncio é eloquente, ele fala de valores, de viés e de seletividade moral.

A esquerda que Boulos representa tem dificuldade em lidar com o símbolo da farda. Vê nela a lembrança da repressão, o braço armado do Estado, a força bruta, porém não há justiça social sem segurança.

Não há segurança sem dignidade, e não há dignidade quando se divide o luto entre o “deles” e o “nosso”.

Boulos, ao escolher uma solidariedade parcial, perdeu a oportunidade de ao menos ser humano. Em vez disso, reiterou a visão de que há mortes que merecem lágrimas e outras que não merecem.

Boulos desperdiçou um momento de grandeza. Poderia ter mostrado que entende o drama brasileiro em todas as suas faces: o da favela acuada e o do policial que entra na viela sem saber se volta. Poderia ter sido estadista. Preferiu ser militante.

O país precisa de líderes que compreendam que dor não tem lado, sangue não tem ideologia, lágrima não tem partido.

A política brasileira anda cansada de discursos ensaiados, de gestos simbólicos que servem mais à plateia do que ao povo. Quando um ministro escolhe a quem oferecer sua solidariedade, ele não apenas revela sua ideologia, revela sua limitação humana.

E o país, já tão dividido, não precisa de mais muros. Precisa de pontes, de empatia genuína, de gente que enxergue que há mães chorando tanto nas favelas quanto nos quartéis. Porque o Brasil, neste momento, precisa menos de discursos inflamados e mais de corações inteiros.

Compartilhar matéria

Siga no

Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

Webstories

Mais de Entretenimento

Mais de 98

A estrada que ela denunciava foi a mesma que tirou sua vida

A nova obsessão produtiva que nasce no coração do Vale do Silício

Escala 6×1: o Brasil precisa de menos paixão ideológica e mais racionalidade

Não é venda de escola. É tentativa de fazer a escola funcionar.

O Brasil desaprendeu a conviver com a discordância

Como ensinar honestidade quando a desonestidade virou paisagem?

Últimas notícias

Gerardo Renault, pai de Ana Paula do BBB 26, tem longa carreira na política mineira

Morre, aos 96 anos, pai de Ana Paula Renault, do BBB 26

Paulo Bracks desmente que Domínguez tenha pedido para sair do Galo

Domínguez vê outra postura no elenco do Atlético após ‘bronca’ e diz que seguirá cobrando os jogadores

Com pouca efetividade, Atlético perde para o Coritiba no Paraná

Nova Lima: Justiça barra obra de luxo no Vale dos Cristais; moradores acionam MP contra prédio no Vila da Serra

Série de Ronaldinho vira sucesso e chega ao Top 10 da Netflix

Flamengo e Corinthians homenageiam Oscar Schmidt após morte do ídolo

Thor, cão dos Bombeiros que atuava em escolas e hospitais, morre aos 11 anos em MG