O Brasil é um país de fé, e de boletos. O problema começa quando alguém decide misturar as duas coisas no mesmo envelope, lacrar com discurso religioso e mandar a conta para o aposentado pagar em silêncio, direto na folha do INSS.
A cena parece uma briga de bastidores entre lideranças do campo conservador, mas é bem mais do que isso. A senadora Damares Alves divulgou uma lista de igrejas e líderes que foram alvo de pedidos na CPMI do INSS (convocação, convite ou transferência/quebra de sigilo). E fez isso depois de ser atacada pelo pastor Silas Malafaia, que a chamou de “leviana” e “linguaruda”, cobrando nomes e provas e arrematando com o velho expediente da carteira de autenticidade religiosa: “não é digna nem de ser evangélica”.
Na lista citada pela reportagem aparecem, por exemplo, Adoração Church, Assembleia de Deus Ministério do Renovo, Ministério Deus é Fiel Church e Igreja Evangélica Campo de Anatote, entre pedidos envolvendo instituições e líderes. Damares diz que se trata de informações públicas, baseadas em indícios extraídos de documentos oficiais, como RIFs e dados da Receita Federal, sob devido processo legal e presunção de inocência.
Pode parecer um episódio político, mas não é
Até aqui, o enredo poderia ser só mais um episódio do reality show político de Brasília. Só que o pano de fundo é perverso. Descontos indevidos em aposentadorias e pensões. E aí, não estamos falando de vaidade de liderança nem de disputa de microfone. Estamos falando de gente velha sendo transformada em “cliente cativo” sem ter pedido para entrar no clube.
A CGU, em ação conjunta com a Polícia Federal na Operação Sem Desconto, descreveu o mecanismo: entidades (associações e similares) firmavam Acordos de Cooperação Técnica com o INSS para realizar descontos de mensalidades direto na folha, e, segundo relatório, 97% dos beneficiários entrevistados não autorizaram o desconto. A CGU ainda aponta que 70% das 29 entidades analisadas não entregaram documentação completa ao INSS para assinatura dos acordos.
Os números são um soco sem luva: as mensalidades chegaram a R$ 81,57, e até 6 milhões de aposentados e pensionistas podem ter sido lesados, um impacto estimado em R$ 6,3 bilhões. E repare no detalhe que dói: o golpe perfeito é aquele que você só percebe quando o dinheiro some e ninguém te explica direito de onde saiu. A CGU registra, inclusive, dificuldades de beneficiários para identificar o desconto e cancelá-lo.
Não é a fé que está em julgamento
É nesse ponto que a discussão sobre “interesses escusos” precisa parar de fazer rodeios e encarar a estrada. Não é a fé que está em julgamento. Fé é o que sustenta milhões de brasileiros em rotina dura, honesta, às vezes desesperadora. O que está em julgamento é um pedaço do ecossistema institucional que, em certos casos, se comporta como empresa política com selo religioso, e usa a aura do sagrado como se fosse um colete à prova de investigação.
O roteiro é conhecido e funciona porque apela para a chantagem emocional. Blindagem moral: qualquer questionamento vira “perseguição religiosa”. Alavanca política: a instituição vira palanque, curral e cabo eleitoral permanente. Opacidade conveniente: dinheiro circula, influência cresce, e a prestação de contas vira peça decorativa.
Se a pergunta é legítima: “houve envolvimento?”, “houve desvio?”, “houve benefício?”; a resposta não pode ser grito, vídeo e carimbo de “traidor da fé”. Tem que ser documento, rastro, auditoria e responsabilização.
E aqui entra um tema que o Brasil trata com luvas de seda, privilégios e imunidades. A imunidade tributária de templos existe para proteger a liberdade religiosa, não para fabricar uma zona de conforto onde tudo vira “finalidade essencial” por decreto retórico.
Tanto que o próprio governo, ao sistematizar a jurisprudência do STF, lembra que há regras, requisitos e limites quando organizações religiosas buscam enquadramento de imunidade como assistência social, incluindo exigências legais e controle de desvio de finalidade.
Traduzindo: o Estado não está proibido de fiscalizar. Pelo contrário. O Estado é obrigado a fiscalizar, especialmente quando o assunto tangencia dinheiro público indireto, folha de benefício e possível fraude.
O Brasil precisa, urgentemente, de uma vacina institucional contra esse tipo de abuso, e ela tem nome: transparência com consequência. A CGU recomendou medidas como bloqueio cautelar de novos descontos, aprimoramento de procedimentos e uso de biometria/assinatura eletrônica para deixar claro quem de fato autorizou. Isso não é “perseguição”. Isso é o básico do básico: consentimento verificável, trilha de auditoria, cancelamento simples, punição quando houver crime.
Uma briga que revela o que não se vê
E sobre a briga Damares x Malafaia? Ela expõe, com luz crua, uma fissura. De um lado, o discurso de que “se há indício, apure”; do outro, a tentativa de transformar apuração em ofensa religiosa, e, de quebra, de controlar quem “merece” ou “não merece” o rótulo de evangélico.
Essa disputa não é teológica. É política. E, em certos trechos, é sobre o poder de definir a narrativa: quem investiga vira inimigo; quem grita vira guardião da fé.
No fim, o ponto mais triste é o mais simples. Se existe alguém que não pode ser usado como massa de manobra nessa história é o aposentado. O aposentado não tem lobby. Não tem bancada. Não tem “vídeo-resposta” viral. Ele tem um benefício, e uma vida inteira por trás daquele número.
O Brasil não precisa escolher entre respeitar a religião e investigar irregularidades. Precisa fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Respeito à fé, sim. Mas tolerância zero com esperteza travestida de santidade. Porque quando o sagrado vira biombo, o profano vira método, e a democracia vira refém do medo de falar o óbvio.
