A política tem seus ritos, e Nikolas Ferreira sabe disso. Alguns são formais: discursos, votações, posses. Outros são primitivos, na sua forma mais bruta, feitos para mostrar força. E, em 2026, a força não será apenas bancada, tempo de TV ou fundo partidário. Será também capacidade de produzir imagem, mobilização e narrativa com a velocidade dos smartphones.
É por isso que a “Caminhada pela Liberdade”, liderada por Nikolas Ferreira, precisa ser lida como algo maior do que um deslocamento geográfico. Foram cerca de 240 km, de Paracatu a Brasília, culminando no dia 25 de janeiro de 2026 na capital federal, com milhares de apoiadores e bandeiras centradas na pauta da anistia e na ideia de “liberdade” como senha do bolsonarismo.
A “rua” como instrumento de liderança
Nikolas não está apenas discursando: está construindo autoridade dentro do próprio campo. Em política, quem organiza a energia da militância passa a falar mais alto que quem apenas comenta a energia da militância. A caminhada funciona como um teste de três coisas:
- Capilaridade: gente acompanhando, repercussão, adesão;
- Disciplina narrativa: uma pauta central (“liberdade/anistia”) repetida até virar identidade;
- Centralidade política: obrigar o resto da direita a reagir, a favor, contra ou em cima do muro.
E aqui nasce a “unificação”: não é unidade por amor, é unidade por gravidade. Um ator cria um evento que vira referência; os demais passam a orbitar para não parecerem irrelevantes.
Flávio Bolsonaro e o sobrenome que exige estrutura
Do outro lado, a direita tenta consolidar um candidato que não é apenas um nome, é um sobrenome. Flávio Bolsonaro confirmou sua candidatura presidencial e tratou a decisão como irreversível, após visitar seu pai, Jair Bolsonaro, na prisão. O anúncio mexeu com o mercado e com a direita que imaginava uma alternativa mais moderada ou ampla para 2026.
A leitura é simples: o bolsonarismo quer manter o comando do campo conservador mesmo com seu líder histórico encarcerado. E a candidatura do filho mais velho vira, ao mesmo tempo, continuidade e teste. Até onde a direita compra a herança como projeto?
Nesse contexto, Nikolas oferece algo que uma candidatura não fabrica do dia para a noite, gera ritual de pertencimento. A caminhada dá substância à narrativa do movimento. E, convenhamos, candidatura sem movimento vira só propaganda fora de hora.
Há um ponto que não pode ser normalizado, essas mobilizações frequentemente se alimentam do choque com instituições. Noticiou-se a decisão de Alexandre de Moraes para impedir manifestação em área sensível (Papuda/Papudinha), e esse tipo de contenção vira imediatamente munição retórica: “estão nos calando”, “querem nos impedir”, “estão nos perseguindo”.
É aí que a política brasileira pisa num terreno escorregadio: quanto mais a disputa vira uma guerra de símbolos contra o sistema, mais o debate público perde substância e ganha temperatura elevada, e quase sempre prejudicial ao entendimento da política de verdade.
E o país, com seus problemas muito reais, inflação do dia-a-dia, insegurança cotidiana, serviços públicos tropeçando, vira figurante de uma novela em que todo mundo quer ser protagonista ao mesmo tempo.
A direita, entre a vitrine e o projeto
A semana da caminhada diz muito sobre 2026: haverá disputa interna na direita pelo “coração” da base. E essa disputa não será só por propostas; será por comando da linguagem. Flávio representa a “dinastia Bolsonaro” tentando segurar o cetro. Nikolas representa a energia digital e militante tentando virar liderança estrutural.
A questão é: isso entrega país? Porque o Brasil não se governa com performance. A política pode até começar na imagem, mas precisa terminar em política pública.
A caminhada de Nikolas não foi só caminhada. Foi recado. Foi um teste. Foi um ensaio geral.
E a candidatura de Flávio, do jeito que vem sendo apresentada, também não é apenas candidatura: é tentativa de manter a direita num único trilho, com o sobrenome como locomotiva e a militância como lenha para incendiar a política.
A direita pode até se unificar por alguns dias, mas vale lembrar que eleição não é só um ato, é movimento contínuo.
E, quando a espuma baixa, fica a pergunta que não cabe em hashtag: Qual é o Brasil que a direita quer governar, e como?
