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Carnaval de BH: 6 milhões na rua, R$ 1 bilhão na conta e o tropeço de quem organiza

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Com apenas alguns cliques, é possível encontrar anúncios no Marketplace do Facebook que oferecem o documento (Reprodução/Facebook)

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Belo Horizonte está prestes a viver, mais uma vez, aquela festa que só o Carnaval produz. A cidade vira sala de estar, avenida vira abraço, e a multidão, estimada pelos organizadores em 6,2 milhões de foliões, transforma calor, suor e batuque em economia, cultura e pertencimento. As projeções de impacto econômico apontam para uma cifra acima de R$ 1 bilhão nesta temporada.

Até aqui, beleza. O problema é que, quando a festa cresce desse tamanho, a administração pública deveria crescer junto, em planejamento, fiscalização, comunicação e respeito a quem trabalha na rua. E é justamente aí que a engrenagem começa a ranger.

Credenciais de ambulantes vendidas a R$ 700

A denúncia é de uma obviedade constrangedora, credenciais de ambulantes, que são gratuitas, pessoais e intransferíveis, estão sendo vendidas ilegalmente no Marketplace do Facebook com anúncios chegando a R$ 699.

Isso não é “malandragem folclórica” nem “jeitinho carnavalesco”. É crime e é sabotagem social que prejudica o ambulante regular, que enfrentou cadastro, prazo, retirada e regras; e favorece o atravessador, o oportunista.

A Rede 98 ouviu o presidente da Associação dos Ambulantes de Belo Horizonte, Adjailson Severo, que num tom que deveria ser o padrão mínimo do poder público expressou repúdio total, cobrança de investigação e punição. Ele fala em identificar e prender criminosos e lembra o óbvio que precisa ser repetido: quem trabalha legalmente não pode pagar a conta da bandidagem.

E a Belotur? Silêncio, a fantasia mais feia do Carnaval

A parte mais irritante, porque é evitável, é a ausência de resposta. A reportagem da Rede 98 procurou a Belotur para saber que medidas serão tomadas e registrou que aguarda retorno. Um retorno que quase nunca vem.

Num evento dessa escala, silêncio institucional é mais do que descuido. É um método ruim. É deixar a narrativa ser escrita por prints de Facebook Marketplace, por boatos de WhatsApp e pelo sentimento generalizado de cada um por si. Carnaval é multidão. Gestão pública também deveria ser.

A Belotur até aparece em notas e informes sobre credenciamento, exaltando diálogo com associações e dizendo que o processo transcorreu “de maneira tranquila e organizada”. Só que a realidade é teimosa: quando surge um escândalo que atinge diretamente trabalhadores e a credibilidade do evento, a cidade não quer frase pronta, quer ação e explicação.

A Polícia Civil investiga, mas, por enquanto, não encontrou ninguém

A Polícia Civil de Minas Gerais informa que está apurando o caso da venda irregular de credenciais e que, até o momento, ninguém foi conduzido à delegacia de plantão. Ou seja, existe investigação em andamento, o que é essencial, mas o dado prático do dia é este. Ninguém foi levado para a delegacia ainda, e isso aumenta a pressão por fiscalização mais eficiente e por uma reação coordenada dos órgãos responsáveis, antes que o golpe vire “normal” no meio da maior festa popular da cidade.

Isso é grave por dois motivos.

  1. Se há venda ilegal em curso, não faz sentido a resposta pública ficar no alerta para golpe e em promessas genéricas de fiscalização.
  2. Se a polícia ainda não conduziu ninguém às delegacias, alguém precisa explicar por que não, pois a reportagem da Rede 98 teve acesso aos que praticam esse crime com muita facilidade.

Porque o Carnaval de BH não é um eventinho simpático, é uma máquina econômica e cultural com gente demais circulando para improviso de menos. Você não administra 6,2 milhões de foliões com post institucional e boa vontade.

Festa gigante, gestão miúda

A cidade se prepara para receber milhões, movimentar mais de um bilhão, lotar hotel, bar, rua e coração, e, ao mesmo tempo, vemos o básico falhando: controle de credencial, rastreabilidade, resposta rápida, integração com segurança pública, comunicação com os trabalhadores.

É aí que a “esculhambação” deixa de ser xingamento e vira diagnóstico: quando o essencial não funciona, o resto vira maquiagem bonita, mas que desmancha na chuva.

E nem dá para empurrar a responsabilidade para os ambulantes, como algumas gestões adoram fazer, na linha de “o problema são eles”. O repúdio das entidades representativas é explícito. Ambulante não é figurante do Carnaval, é infraestrutura humana da festa. Sem ambulantes regulares, o folião passa sede, o bloco trava, o comércio informal vira bagunça e a cidade perde dinheiro e segurança.

O que deveria acontecer (e rápido)

Se a Belotur e a Prefeitura quiserem mostrar que estão à altura do próprio marketing, que demonstrem agilidade, responsabilidade e transparência.

Porque o Carnaval, para funcionar, precisa de folia, mas também de planilha. Precisa de bloco na rua, mas também de protocolo. A rua aceita tudo, menos ser tratada como um improviso permanente.

A cidade criou um Carnaval gigantesco, e isso é um patrimônio. Mas patrimônio, quando cresce, exige governança.  Quando uma credencial gratuita vira mercadoria clandestina, o que está à venda não é só um crachá, é a credibilidade da gestão, a dignidade do trabalhador e a ideia de que o espaço público pode ser organizado sem virar território de espertalhão.Se a expectativa é de 6,2 milhões na rua e mais de R$ 1 bilhão girando, então a resposta institucional não pode ser “depois a gente vê”.

A Belotur deveria se manifestar, com clareza, com rapidez e com vergonha na cara administrativa. Porque, do contrário, o Carnaval de BH corre o risco de repetir o velho enredo brasileiro, o povo faz a festa, o trabalhador segura a bronca, e o poder público aparece só na foto, de preferência, bem enquadrada e com filtro.

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Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

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