Kassab não é bruxo. Ele é um leitor profissional de sinais da política, aqueles que enxergam o desenho do tabuleiro antes de a maioria perceber que há um tabuleiro. E foi assim que ele conduziu, com paciência de relojoeiro e frieza de contador, a novela sobre o destino de Tarcísio de Freitas.
Muita gente quis transformar a hesitação em mistério, como se política fosse sessão espírita. Mas o que houve foi cálculo. Se Tarcísio saísse para disputar a Presidência e perdesse, o prêmio de consolação seria uma tragédia estratégica. Entregar São Paulo, o cofre, a vitrine e o motor do país, ao palanque de Lula, de bandeja, e com laço de fita. Kassab percebeu isso cedo. E, como quem joga xadrez com o relógio a favor, esperou o ponto em que a decisão deixa de ser um desejo e vira sobrevivência.
É instinto de poder.
E aí chegamos ao dilema maior, que é o de agora. Se a conta de São Paulo está razoavelmente encaminhada, o problema se transforma no Brasil. Porque a eleição presidencial não é mais só uma disputa de nomes. É um plebiscito sobre rumo econômico, e, principalmente, sobre a capacidade do país de não se auto sabotar com alegria e voto.
Mais quatro anos de PT, do jeito que as coisas vêm sendo conduzidas, aumentam brutalmente a probabilidade de um desequilíbrio fiscal permanente. E fiscal, no Brasil, não é um assunto técnico, é um destino social. Quando o fiscal quebra, a conta não vai para o gabinete; vai para o carrinho do supermercado, para o aluguel, para o juro do cartão, para a fila do SUS, para o investimento que não vem.
A irresponsabilidade fiscal é uma espécie de imposto invisível que morde mais forte justamente quem não tem como se defender.
Pelos sinais emitidos Kassab não está pensando apenas em ganhar a eleição. Ele está pensando em como não perder o país no processo.
Porque a oposição brasileira, nos últimos quatro anos adquiriu um vício infantil. Não se opõe aos atos do governo de plantão, acha que basta ser contra Lula e o resto se resolve por osmose. Não resolve.
A eleição de 2026 pede uma alternativa que seja mais que anti petismo, pede uma arquitetura de governabilidade com âncora fiscal, credibilidade e musculatura política. Não que esse anti petismo não seja importante na busca de votos, mas não pode se transformar no único mote de campanha.
Aí que o tabuleiro fica cruel.
Se Tarcísio não vai ao Planalto, ou se irá virar risco demais, então qual é a candidatura que une centro, direita e o eleitor cansado sem explodir o país no meio do caminho?
Quem tem densidade para enfrentar Lula sem entregar ao Brasil uma aventura populista de sinal trocado?
A oposição, se quiser ser adulta, precisa apresentar um compromisso simples e brutalmente verificável. Regra fiscal clara, corte de privilégios, revisão de incentivos ineficientes, prioridade para investimento com retorno social e econômico, e coragem para enfrentar o que ninguém enfrenta, a máquina que cresce sozinha.
Kassab, ao segurar a ansiedade em torno de Tarcísio mostra que, às vezes, a melhor decisão é a que evita perder o que já está na mão. Só que o Brasil não cabe em São Paulo. E o dilema presidencial é bem mais tóxico do que o dilema estadual. Porque, no presidencial, a pergunta não é só quem ganha?. É, quem ganha e consegue entregar alguma coisa sem quebrar o país?.
Se a continuidade do PT significa mais gasto sem contrapartida, mais contabilidade criativa, mais pressão sobre juros e mais desconfiança sobre o futuro, então a oposição tem o dever de oferecer mais do que indignação. Tem que oferecer projeto.
A sensação que fica é a de um país parado num cruzamento, olhando duas placas igualmente ruins, de um lado, o risco de insistir num modelo que empurra a conta para frente até o dia em que a conta se transforma num incêndio; do outro, a tentação de resolver tudo no grito, como se governar fosse uma live e PIB fosse slogan de campanha.
Responsabilidade, ou gastança. Eis a questão.
Entre o improviso e a gastança, o Brasil precisa reaprender o básico: responsabilidade não é austeridade burra, responsabilidade é o único caminho para o povo não pagar a farra, para o investimento voltar; para o crédito ser algo humano; para o futuro deixar de ser ameaça e virar promessa, e quem sabe, realidade.
Kassab entendeu que política é a arte de evitar derrotas irreversíveis. Mas, quem vai entender que o Brasil não aguenta mais vitórias eleitorais que viram derrotas econômicas?
Porque, se a gente continuar tratando o fiscal como detalhe e a governabilidade como truque, 2030 não vai ser um ano no calendário. Vai ser um boleto gigantesco, com juros, multa e o nome do país no Serasa da história.
