PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Não é venda de escola. É tentativa de fazer a escola funcionar.

Siga no

Sala de aula (Foto: Pixabay)

Compartilhar matéria

No Brasil, há uma estranha paixão por slogans preguiçosos. Basta o Estado chamar o setor privado para resolver um problema concreto e já aparece alguém gritando “privatização”, como se a palavra, sozinha, dispensasse reflexão. Foi assim com o leilão da PPP de infraestrutura de 95 escolas estaduais em Minas Gerais. O fundo vencedor, ligado ao BTG Pactual, assumirá a gestão da infraestrutura e dos serviços não pedagógicos dessas unidades por 25 anos. Não levou sala de aula embora. Não comprou aluno. Não recebeu o direito de definir currículo, conteúdo, prova ou orientação pedagógica. O que entrou no contrato foi manutenção, conservação, limpeza, vigilância, tecnologia, água, energia e operação predial. A parte pedagógica segue com o Estado. Isso é o fato. O resto, em larga medida, é fumaça ideológica.

E convém dizer com todas as letras: escola pública ruim também é uma forma de crueldade social. Não adianta romantizar o giz se o teto pinga, o banheiro não presta, a internet falha, a quadra está abandonada, a pintura desaba e a estrutura física vira um recado silencioso de desprezo ao estudante pobre. Quem tem dinheiro foge. Quem não tem, fica preso ao improviso. Nesse ponto, o debate precisa descer do palanque e subir a escada do bom senso. Se o Estado falhou por anos em manter com eficiência a infraestrutura escolar, recorrer a uma PPP não é capitulação moral. É gestão. É admitir que o estudante não aprende bem em prédio degradado.

O projeto prevê cerca de R$5,1 bilhões em investimentos ao longo do contrato, com atendimento estimado para cerca de 70 mil estudantes em 95 escolas distribuídas por 34 municípios. O leilão, segundo os dados divulgados, ainda terminou com deságio de 14,17% em relação ao valor inicialmente fixado no edital, com contraprestação mensal de R$22,35 milhões. Em português claro: houve competição, houve proposta abaixo do teto e houve definição contratual para uma tarefa que o poder público, sozinho, historicamente executa mal e lentamente.

Os críticos dizem que esse modelo abre caminho para a privatização da educação. Francamente, essa crítica só se sustenta se a realidade for torcida até ranger. A educação não se resume a passar conteúdo em sala, é verdade. Mas também é verdade que gerir a merenda, limpeza, vigilância, manutenção predial e infraestrutura tecnológica não transforma uma empresa em dona do processo pedagógico. O professor continua professor. O diretor continua diretor. A Secretaria continua responsável pela política educacional. O Estado continua dono da escola e comandante do ensino. O que se terceiriza aqui é a retaguarda material sem a qual a escola pública, tantas vezes, vira depósito de boas intenções e más condições.

Há um vício brasileiro de confundir instrumento com intenção. PPP não é sinônimo automático de virtude, claro. Mas tampouco é palavrão. É uma ferramenta. A ferramenta se julga por desenho, fiscalização, meta, transparência e resultado. O debate sério não é “mercado bom” contra “Estado puro”. Essa caricatura já devia ter ido para o museu das simplificações infantis. O debate sério é outro: a escola mineira ficará mais conservada, mais funcional, mais segura e mais equipada? O aluno terá um ambiente mais digno? A equipe escolar terá menos peso operacional para carregar? O contrato terá metas verificáveis e cobrança rigorosa? É aí que mora a discussão adulta.

E aqui entra um ponto importante: quem é favorável ao leilão não precisa ser ingênuo. Não se trata de acender vela para banco, fundo ou operador privado, como se o mercado fosse uma entidade angelical. Banco quer retorno. Fundo quer rentabilidade. Isso é da natureza do jogo. Justamente por isso o Estado precisa regular, fiscalizar, medir desempenho e punir descumprimento. O erro não é contratar o privado. O erro é contratar mal, fiscalizar mal e depois posar de vítima da própria incompetência. O problema nunca foi a participação privada em si; o problema, tantas vezes, foi a preguiça do poder público em ser um contratante duro, técnico e vigilante.

Nesse debate, vale registrar uma proposta especialmente inteligente levantada pelo brilhante economista Gustavo Andrade, meu parceiro de bancada no Meio-Dia em Pauta, da 98 News. Gustavo aponta para a necessidade de direcionar os R$5,1 bilhões da outorga para saneamento básico, numa escolha que tem a virtude rara de atacar o problema pela raiz. É uma ideia genial porque saneamento não é apenas obra enterrada no chão, daquelas que rendem pouca foto e muito resultado. Saneamento é saúde pública, porque reduz doenças, internações e sofrimento evitável. E saneamento também é educação pública, porque criança doente falta aula, aprende menos e carrega no corpo o peso da omissão do Estado. Quando se investe em água tratada, coleta e tratamento de esgoto, drenagem e infraestrutura sanitária, não se melhora apenas um indicador técnico: melhora-se a vida real, a frequência escolar, o desempenho dos alunos e a pressão sobre hospitais e postos de saúde. É o tipo de aplicação de recurso que não produz aplauso instantâneo, mas produz civilização.

Os questionamentos existem, e não devem ser escondidos debaixo do tapete. O Tribunal de Contas do Estado abriu análise após denúncia sobre a PPP, e sindicatos levantaram críticas, inclusive sobre proteção de dados e sobre o alcance do modelo. Isso faz parte do processo democrático e do controle institucional. Mas um questionamento não é sentença. Impugnação não é prova de fracasso. Contestação não transforma automaticamente um modelo em escândalo. Ao contrário: mostra que o projeto terá de sobreviver ao escrutínio — e isso, se bem conduzido, pode até aperfeiçoá-lo.

A reação mais raivosa ao leilão, no entanto, revela algo maior. Parte do debate público brasileiro ainda prefere a liturgia da pureza estatal mesmo quando ela entrega goteira, mofo, fila, atraso e abandono. Há quem ache mais nobre manter tudo “nas mãos do Estado” ainda que o resultado seja medíocre. É a estética da virtude acima da eficácia. Só que o aluno não estuda dentro de conceito ideológico. Aluno estuda dentro de prédio. O prédio tem infiltrações, fiação, ventilação, banheiro, rede, limpeza, portaria e manutenção. Quando isso falha, o prejuízo não é abstrato. Cai no colo da criança, do adolescente, do professor e da família.

Defender esse leilão, portanto, não é defender o mercado como religião. É defender que o Estado pare de tratar a precariedade como destino inevitável. É reconhecer que a infraestrutura escolar precisa de investimento pesado, padrão de operação e capacidade de execução contínua. E, sejamos honestos, o Estado brasileiro raramente brilhou nesses quesitos. Quando consegue, ótimo. Quando não consegue, insistir no fracasso por apego doutrinário é apenas uma forma mais sofisticada de negligência.

A boa política pública não é a que faz discurso bonito. É a que resolve o problema real. Se a PPP entregar escolas melhores, mais bem cuidadas, mais seguras, mais tecnológicas e mais funcionais, terá prestado um serviço que o discurso inflamado jamais prestou. E se não entregar, deve ser cobrada, multada e exposta. Simples assim.

No fim das contas, a pergunta relevante não é se o vencedor do leilão tem sobrenome financeiro, nem se a sigla PPP assusta militância de um lado ou entusiasma torcida de outro. A pergunta certa é brutalmente concreta: o estudante mineiro merece continuar refém de uma infraestrutura pública que há anos não consegue responder com rapidez e qualidade? Se a resposta for não, ela só pode ser não, então há, sim, razão para olhar esse leilão com menos histeria e mais seriedade.

Porque escola pública digna não se faz com palavra de ordem. Faz-se com resultado.

Compartilhar matéria

Siga no

Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

Webstories

Mais de Entretenimento

Mais de 98

Ibovespa sobe com exterior e ações de bancos

Produção de carnes cresce no Brasil em 2026

IA cria unicórnio brasileiro no setor jurídico

Fertilizantes pressionam custo do agro brasileiro

Guerra pressiona imóveis e custo das obras

Tweed Ride BH reúne bikes e estilo vintage

Últimas notícias

Uganda confirma caso de Ebola após avanço de surto no Congo

Agência africana confirma novo surto de Ebola na República Democrática do Congo

Moraes vota para transformar delegados em réus por associação criminosa no Caso Marielle

Fies 2026: começam as inscrições para a lista de espera

Fafá de Belém faz show gratuito em Contagem neste sábado (16)

Estudante de medicina fecha acordo de R$ 720 mil por fraude em cota racial

Filme sobre Frantz Fanon estreia nos cinemas brasileiros; veja onde assistir

Bolsonaro apresenta quadro de instabilidade no equilíbrio corporal, dizem médicos ao STF

PGR denuncia Zema ao STJ por calúnia contra ministro Gilmar Mendes