O embaixador do Brasil no Irã, André Veras, afirmou que uma tentativa de derrubar o regime islâmico iraniano por meio de intervenção militar estrangeira seria uma tarefa “hercúlea e sangrenta”, com impactos políticos, militares e econômicos em escala global. A declaração foi dada durante entrevista ao programa Alô Alô Brasil, da Rádio Nacional, nesta segunda-feira (9/3).
Segundo o diplomata, ataques aéreos isolados não seriam suficientes para provocar uma mudança de regime no país. “Não haveria uma possibilidade de mudança ou de algum fim deste conflito se fôssemos pensar apenas da perspectiva de ataques exclusivamente aéreos”, afirmou.
Intervenção militar exigiria grande operação terrestre
Na avaliação de Veras, uma eventual tentativa de derrubar o governo iraniano exigiria o envio de tropas estrangeiras e enfrentaria desafios estratégicos importantes.
Entre eles estão as dimensões do território iraniano, o relevo montanhoso e a capacidade militar do país. “A coisa vai exigir um pouco mais de esforço se quiserem realmente derrubar o regime. Acho que será uma tarefa hercúlea. Sangrenta”, disse o embaixador.
População tenta manter rotina após ataques
Segundo o diplomata, dez dias após o início dos ataques aéreos realizados por Estados Unidos e Israel, a população tenta manter a rotina no país. Os bombardeios atingiram alvos em território iraniano e resultaram na morte do líder supremo do país, Ali Khamenei, além de centenas de civis.
Apesar da escalada do conflito, serviços básicos seguem funcionando.“O comércio está aberto. As escolas estão tendo aulas remotamente. Os mercados continuam abastecidos. Não há corte de energia, de água ou gás”, relatou.
A gasolina, no entanto, passou a ser racionada.
Sucessão rápida demonstra estrutura do regime
Outro ponto destacado pelo embaixador foi a rapidez na substituição do líder supremo.
Após a morte de Ali Khamenei, que governava o país havia 36 anos, a Assembleia dos Especialistas escolheu seu filho, Seyyed Mojtaba Khamenei, de 56 anos, para assumir o cargo.
Para Veras, a transição rápida demonstra a capacidade institucional do sistema político iraniano.
“O Irã está muito bem estruturado legalmente. O sistema tem uma resiliência muito grande”, afirmou.
Escolha do filho pode aumentar críticas internas
Apesar da estabilidade institucional, o embaixador avalia que a escolha do filho de Khamenei pode intensificar críticas ao regime.
Isso porque a revolução islâmica de 1979 foi justamente contra um governo de caráter hereditário.
“A revolução islâmica foi feita contra um regime hereditário. Agora assumir o filho cria uma impressão de que o sistema substituído permanece”, disse.
Segundo Veras, o novo líder tem forte ligação com a Guarda Revolucionária e com setores conservadores do clero iraniano.
Cerca de 200 brasileiros vivem no Irã
O embaixador informou que cerca de 200 brasileiros vivem atualmente no Irã, a maioria mulheres casadas com cidadãos iranianos. Até o momento, segundo ele, não há discussão sobre uma operação de retirada de brasileiros do país, já que as fronteiras terrestres continuam abertas.
Mesmo assim, a embaixada mantém contato diário com o Itamaraty, que informa regularmente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a situação.
Diplomata não descarta solução negociada
Apesar da escalada militar, Veras acredita que ainda existe espaço para uma saída diplomática para o conflito.
Na avaliação do embaixador, tanto o Irã quanto a comunidade internacional têm interesse em evitar uma guerra prolongada.
“O Irã precisa do fim das sanções econômicas, enquanto o mundo precisa de paz para que a economia global funcione e as rotas comerciais sejam mantidas”, afirmou.
Segundo ele, os custos econômicos e políticos da guerra podem pressionar as partes a buscar um acordo.
“Os custos da guerra estão aumentando muito. Acho que isto trará um pouco mais de racionalidade à condução do processo”, concluiu.
