Querem vender a ideia de que Lula foi vítima de um complô. A narrativa é tentadora, cômoda e politicamente útil. Mas é também pequena demais para explicar o tamanho do escândalo. No caso Banco Master, não há mocinho amarrado nos trilhos da ferrovia, esperando o trem da conspiração passar. Há, isto sim, uma locomotiva de interesses cruzados, puxando vagões de políticos, ministros, operadores, aliados, adversários, banqueiros, partidos e instituições que, em algum momento, sentaram à mesma mesa, ainda que agora finjam não se conhecer.
O caso Messias, mais que uma derrota para o governo
A rejeição de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal não pode ser lida apenas como uma derrota do governo Lula. Foi, também. E foi uma derrota histórica: o Senado recusou a indicação por 42 votos contrários a 34 favoráveis, quando eram necessários ao menos 41 votos para aprovar o nome do advogado-geral da União. Mas reduzir o episódio a uma crise de articulação do Planalto é olhar para o fogo e discutir a cor da labareda.
A votação escancarou uma guerra subterrânea. Davi Alcolumbre, Alexandre de Moraes, Jacques Wagner, Flávio Bolsonaro e outros personagens aparecem, em diferentes graus e por diferentes interesses, no tabuleiro de uma Brasília em que as alianças já não obedecem à velha divisão entre governo e oposição. O jogo agora é mais rudimentar e mais perigoso; proteger flancos, conter investigações, negociar danos e administrar cadáveres políticos antes que eles comecem a feder no salão principal.
O caso Master: o cadáver no centro da sala
O Banco Master, sob Daniel Vorcaro, cresceu cercado de relações políticas, judiciais e financeiras. Vorcaro é alguém que construiu uma rede de contatos em círculos elevados da política e do Judiciário, com o escândalo atingindo inclusive figuras do Supremo, do Banco Central e do próprio presidente da República. É, como disse em reportagem o jornal Financial Times, uma das maiores quedas bancárias recentes do país, envolvendo investigação bilionária, suspeitas de fraude e repercussões políticas amplas.
Portanto, tentar pintar o episódio como uma arma exclusiva da direita contra Lula é um erro primário. Pior, é um erro que o PT comete por vício narrativo. Sempre que aparece uma crise grave, parte do partido procura imediatamente o mesmo figurino: “golpe”, “armação”, “complô”, “perseguição”. Só que neste caso, a fantasia não serve. Fica curta na manga, apertada no peito e ridícula no espelho.
Master: um caso ambidestro
O caso Master não cabe no palanque da esquerda contra a direita. Ele atravessa o sistema político como água de enchente. Entra por baixo da porta de todos os partidos, molha o tapete de todos os gabinetes e deixa cheiro de mofo onde antes havia perfume institucional.
Há direita no caso? Há. Há bolsonarismo orbitando o caso? Há. Há gente do Centrão? Há. Há personagens próximos ao governo? Há. Há nomes ligados ao PT ou ao velho mundo de influência lulista? Também há. O próprio Planalto sabe que a tentativa de colar o Master apenas à direita é uma operação delicada. O governo enfrenta um dilema de comunicação. Enquanto setores do PT defendiam transformar o caso em munição eleitoral contra a direita, a Secretaria de Comunicação da Presidência da República buscava valorizar a atuação do governo para conter a fraude.
E aí aparece uma verdade que conhecemos. Quando todo mundo tenta escolher a melhor narrativa antes de esclarecer os fatos, é porque a verdade já virou inconveniente.
O modus operandi Vorcaro
Daniel Vorcaro não parece ter operado como militante ideológico. Operou como banqueiro de influência. E banqueiro de influência não pergunta em quem o sujeito votou antes de abrir uma porta. Pergunta se ele manda, se ele decide, se ele nomeia, se ele julga, se ele fiscaliza, se ele bloqueia ou se ele desbloqueia. Ideologia, nesses casos, é decoração de gabinete. O que vale é o acesso.
Por isso, a reprovação de Jorge Messias deve ser lida também como capítulo dessa crise maior. Não porque exista, até aqui, uma prova pública definitiva de uma troca formal de favores. Mas porque o contexto político sugere uma confluência explosiva de interesses. Messias era o nome de Lula para o Supremo. Sua aprovação fortaleceria o Planalto numa Corte já decisiva demais. Sua derrota enfraqueceu Lula, e expôs a fragilidade de um governo que, no Senado, descobriu tarde demais que não basta distribuir cargo, liberar emenda e posar de articulado.
O Supremo mergulhado no escândalo
O Supremo também não sai limpo dessa fotografia. Até agora não há nenhuma explicação razoável para os 129 milhões em contratos do Master com o escritório da mulher de Alexandre de Moraes. Dias Toffoli deixou a relatoria do caso Master após questionamentos sobre possíveis conflitos de interesse, possíveis nesse caso fica na bondade do colunista, e embora tenha negado irregularidades; o processo foi redistribuído a André Mendonça. Esse movimento, por si só, já mostra que o escândalo rompeu as paredes do sistema financeiro e entrou no coração do poder institucional brasileiro.
E quando banco quebrado, STF, Senado, Planalto, oposição e eleição presidencial começam a aparecer no mesmo enredo, a prudência recomenda uma regra simples: desconfiar de todos.
Lula não pode ser convertido em vítima
Lula é parte do ambiente que permitiu a formação desse tipo de relação promíscua entre dinheiro, poder, influência e proteção. O governo pode alegar que instituições agiram, que o Banco Central barrou movimentos, que a Polícia Federal investigou, que o Ministério da Justiça se manifestou. Tudo isso pode ser verdadeiro. Mas não apaga o fato político maior. O sistema político e judiciário do Brasil foi penetrado pelo caso Master. E por esse motivo o governo não pode posar de uma ilha moral.
A narrativa do complô contra Lula busca produzir um efeito conhecido. Transformar responsabilidade política em perseguição. É a velha alquimia brasiliense. Pega-se uma crise real, mistura-se com vitimização, acrescenta-se um inimigo conveniente, agita-se na panela das redes sociais e serve-se ao público como se fosse resistência democrática. Mas o resultado, neste caso, é indigesto. Porque o caso Master não aponta apenas para um ataque ao governo. Aponta para uma contaminação sistêmica.
O caso Master não se resolve com torcida organizada
A direita erra ao fingir que o caso é problema exclusivo do PT. O PT erra ao fingir que o caso é produto exclusivo da direita. O Centrão, como sempre, tenta errar menos aparecendo menos. E o Supremo, que deveria pairar acima da disputa, acabou tragado pela névoa de suspeitas, relações mal explicadas e constrangimentos públicos.
No fundo, o Master revela uma coisa antiga e incômoda: O Brasil oficial continua funcionando como condomínio fechado do privilégio. Mudam os síndicos, mudam as placas na portaria, mudam as palavras de ordem, mas os mesmos elevadores privativos continuam levando os mesmos interesses para os mesmos andares.
O Brasil precisa conhecer a verdade
O país precisa saber quem protegeu o Banco Master, quem tentou salvar o banco, quem se beneficiou de suas relações, quem recebeu, quem intermediou, quem pressionou, quem julgou, quem se omitiu e quem agora tenta posar de indignado diante das câmeras. O Brasil não precisa de mais uma novela de mocinhos e vilões. Precisa de investigação limpa, sem blindagem seletiva e sem uso eleitoral de conveniência.
A pergunta verdadeira não é se Lula é vítima de complôs. A verdade aqui é muito mais incômoda. Quantos complôs funcionavam ao mesmo tempo, dentro do mesmo escândalo, com gente de lados diferentes fingindo que estava em trincheiras opostas?
Lula não foi apenas alvo de uma conspiração. Foi parte de um sistema político que se acostumou a confundir governabilidade com captura, articulação com barganha e influência com impunidade.
E o caso Master talvez seja o retrato mais cruel desse Brasil de portas giratórias; Um banqueiro entra pelo mercado, passa pelo Senado, toma café no Judiciário, acena para o Planalto, conversa com a oposição e, quando a casa cai, todos apontam para o vizinho.
No fim, ninguém viu nada.
Mas todo mundo tinha a chave.
