Para quem acha que o feriado é uma oportunidade para o descanso, a busca pela informação obriga o jornalista às inúmeras conversas para sair do campo generalista e traduzir informação. Foram horas de leituras e conversas para acrescentar luz a um tema que pode parecer conversa de gabinete, mas que impacta no dia-à-dia dos brasileiros.
O acordo comercial entre Mercosul e União Europeia finalmente saiu do campo das promessas eternas, aquele lugar onde Brasília costuma guardar tudo que é importante, difícil e inconveniente. Depois de décadas de negociação, idas, vindas, suspiros diplomáticos e resistências de todos os lados, o tratado começa a produzir efeitos concretos. E, como sempre acontece quando o mundo real entra pela porta, há quem ganhe, há quem perca e há quem descubra, tarde demais, que protecionismo é cobertor curto: esquenta por algum tempo, mas não constrói futuro.
Um universo de consumidores
O acordo cria uma das maiores áreas de livre comércio do planeta, envolvendo cerca de 700 milhões de consumidores. A promessa central é simples: reduzir tarifas, ampliar mercados, facilitar exportações, baratear importações e colocar empresas brasileiras diante de um jogo mais aberto, e mais duro.
A União Europeia informa que o pacto elimina ou reduz tarifas em grande parte do comércio bilateral, enquanto o governo brasileiro destaca aumento de exportações, diversificação de mercados, redução de custos e novas oportunidades para empresas e trabalhadores.
Mas comércio exterior não é conto de fadas com carimbo alfandegário. É disputa. É produtividade. É escala. É tecnologia. É capacidade de cumprir regra sanitária, ambiental, trabalhista, logística e documental. Quem imaginava que o acordo seria apenas uma festa para exportadores brasileiros precisa tirar o chapéu de palha da fantasia. O tratado abre portas, sim. Mas a porta aberta não empurra ninguém para dentro.
O agro lucra
O agronegócio brasileiro aparece, de saída, entre os grandes beneficiados. Carne, frango, açúcar, etanol, café, frutas, suco de laranja, celulose e outros produtos com forte presença nacional ganham espaço, ainda que em vários casos por meio de cotas e reduções tarifárias graduais.
O Ministério da Agricultura registra que o Brasil foi o principal fornecedor agrícola do mercado europeu e exportou US$21,8 bilhões em produtos agrícolas para a União Europeia em 2025, número que chega a US$25,2 bilhões quando se considera o agronegócio em sentido mais amplo.
É evidente que isso interessa ao Brasil. O país é competitivo no campo, produz em escala, tem tecnologia tropical, domina cadeias complexas e aprendeu a transformar solo, clima e pesquisa em potência exportadora. A Europa, envelhecida, cara e regulada até a raiz dos cabelos, precisa de alimentos, energia renovável, matérias-primas e parceiros menos dependentes da China. O Brasil, por sua vez, precisa de mercado, investimento, previsibilidade e moeda forte entrando.
O novo passaporte comercial
Mas há uma contrapartida incômoda: o Brasil terá que se explicar melhor ao mundo. E não adianta reclamar da “hipocrisia europeia”, embora ela exista, use perfume francês e coma queijo subsidiado. O produtor brasileiro que quiser vender mais terá que provar origem, rastreabilidade, regularidade ambiental e padrão sanitário. A agenda verde deixou de ser discurso de seminário. Virou passaporte comercial.
Nesse ponto, o acordo é também um teste civilizatório para o Brasil. Não basta dizer que produzimos bem. Será preciso demonstrar. Não basta dizer que a maior parte do agro brasileiro preserva. Será preciso comprovar. Não basta atacar ONGs, europeus, ambientalistas ou concorrentes. O mundo compra de quem entrega produto, preço e confiança.
Nem tudo é céu de brigadeiro
Do lado dos que podem perder, a indústria brasileira acende o sinal amarelo. Máquinas, equipamentos, veículos, autopeças, químicos, farmacêuticos, vinhos, laticínios e produtos industriais europeus tendem a entrar com custos menores ao longo dos anos. A Comissão Europeia destaca reduções de tarifas sobre produtos como vinhos, bebidas, chocolates, azeite e outros alimentos processados, além de ganhos para exportadores industriais europeus.
Aqui mora o drama nacional. O Brasil abre mercado com uma indústria que ainda carrega nas costas o manicômio tributário, energia cara, infraestrutura deficiente, insegurança jurídica, crédito caro e burocracia com obesidade mórbida. Competir com a Europa nessas condições é como colocar um corredor brasileiro para disputar os 100 metros rasos usando coturno, mochila e alvará municipal pendurado no pescoço.
O acordo, portanto, expõe a ferida. A indústria brasileira não perde apenas porque o europeu é eficiente. Perde porque o Brasil cobra caro de quem produz, atrapalha quem investe e depois discursa sobre neo industrialização como se PowerPoint fabricasse máquinas.
O tempo da adaptação
Há setores que terão tempo para se adaptar. A implementação é gradual. Reportagens recentes apontam prazos de redução tarifária que podem chegar a 15 anos para o Mercosul e até 30 anos em casos específicos, como veículos elétricos, híbridos e novas tecnologias.
Esse período de transição é importante. Mas o tempo, no Brasil, costuma ser tratado como almofada, não como janela de transformação. O risco é passar uma década fazendo audiência pública, nota técnica e reunião em Brasília, enquanto o mundo produz, exporta e inova.
O consumidor pode sair ganhando
O consumidor brasileiro, por sua vez, tende a estar entre os beneficiados. Produtos importados podem ficar mais baratos, a concorrência pode aumentar e setores protegidos serão obrigados a entregar mais qualidade. Esse é o lado luminoso da abertura, ela incomoda cartórios econômicos. Onde há concorrência, há menos espaço para a mediocridade confortável.
Mas o benefício ao consumidor não virá automaticamente. Depende de câmbio, logística, margem de importadores, tributação interna e ambiente de negócios. O produto pode entrar mais barato no porto e chegar caro na prateleira se o Brasil continuar sendo especialista em transformar eficiência externa em confusão interna.
A oportunidade
Outro ponto relevante está nas compras públicas. O acordo prevê abertura de oportunidades para empresas brasileiras participarem de licitações na União Europeia e para empresas europeias disputarem compras governamentais no Mercosul. Além das reduções tarifárias para mais de 5 mil produtos e das cotas para itens do agro brasileiro.
Esse trecho é particularmente sensível. Para empresas brasileiras competitivas, pode ser chance de internacionalização. Para fornecedores acostumados à sombra morna do Estado, pode ser choque de realidade. Compra pública aberta exige governança, preço, compliance e capacidade de entrega. O velho capitalismo de compadrio, aquele que sobrevive de edital sob medida e amizade no gabinete, tende a gostar pouco desse tipo de luz.
Quem perde na Europa?
Na Europa, também há perdedores e resistentes. Agricultores franceses, poloneses, italianos e de outros países temem a concorrência dos produtos sul-americanos. Um acordo prevê ampliação de cotas para produtos sensíveis, como carne, frango e lácteos, e que há críticas ambientais e agrícolas, especialmente pelo temor de competição com padrões considerados diferentes.
A França reclama do boi brasileiro com a mesma dramaticidade com que protege seus próprios subsídios agrícolas. É quase uma ópera rural: muito discurso sobre padrão ambiental, muito medo de concorrência e uma pitada generosa de protecionismo embrulhado em papel reciclável. Ainda assim, seria erro brasileiro tratar toda crítica europeia como má-fé. Há críticas legítimas, há interesses comerciais e há disputa narrativa. O Brasil precisa responder com dados, certificação e diplomacia, e não com bravata de curral eleitoral.
O acordo também tem um sentido geopolítico. A Europa quer reduzir dependências estratégicas, diversificar fornecedores e ampliar influência num mundo em que China e Estados Unidos disputam cadeias produtivas, tecnologia, energia e minerais críticos.
O Mercosul, especialmente o Brasil, ganha relevância nesse tabuleiro. A própria Comissão Europeia vê o acordo como instrumento de integração econômica e diversificação estratégica.
Para o Brasil, essa é uma oportunidade rara. Deixar de ser apenas exportador de commodities e tentar subir degraus na cadeia de valor. Mas isso não acontecerá por decreto. O acordo pode abrir mercado para produto industrializado, alimento processado, tecnologia verde, biocombustível, serviços e economia de baixo carbono. Só que, para isso, o país precisa fazer a lição que adia há décadas: educação técnica, infraestrutura, segurança jurídica, reforma do Estado, estabilidade regulatória e ambiente menos hostil ao investimento.
No fundo, o acordo Mercosul–União Europeia separa o Brasil em dois. De um lado, o Brasil produtivo, competitivo, exportador, tecnológico, capaz de disputar o mundo. De outro, o Brasil cartorial, protegido, lento, burocrático, que confunde reserva de mercado com política industrial.
Os vencedores serão aqueles que já entenderam que o mundo não espera Brasília resolver suas neuroses. Os perdedores serão os que passaram anos vivendo de tarifa alta, lobby, ineficiência e discurso nacionalista de ocasião.
A entrada em vigor do acordo não é o fim de uma negociação. É o começo de uma cobrança. O Brasil ganhou uma avenida para caminhar. Mas uma avenida não resolve o problema de quem insiste em andar olhando para trás.
O acordo pode ser bom. Pode ser muito bom. Mas só será realmente transformador se o país abandonar a velha mania de celebrar assinatura e esquecer a execução. Porque tratado comercial não faz milagre. Ele apenas revela, com brutal sinceridade, quem estava preparado para competir, e quem estava apenas protegido do mundo
