Em entrevista exclusiva ao programa Buenos Dias, da Rede 98, o jornalista Chico Felitti detalhou os bastidores de sua mais nova investigação, o podcast “A Síndica”. A produção mergulha na controversa trajetória de Maria Lima das Graças, a “Doutora Graça”, que governou o icônico Edifício JK, em Belo Horizonte, com “mãos de ferro” por mais de quatro décadas. Felitti explicou que o projeto nasceu da necessidade de entender como uma única mulher conseguiu manter um controle absoluto sobre o maior condomínio de Minas Gerais, impondo regras que iam de pagamentos exclusivamente em dinheiro vivo à proibição de animais de estimação tocarem o chão das áreas comuns.
A apuração de três anos desenterrou episódios que confrontam as leis brasileiras, especialmente no controle moral exercido sobre os condôminos. “Uma moça foi morar com um amigo gay e a síndica obrigou eles a assinarem um termo de união estável. São regras tiradas da cabeça dela, que nem sempre concordam com a Constituição”, exemplificou Felitti. Além do controle comportamental, a gestão era marcada pela judicialização agressiva, com o caso de uma candidata que sofreu 66 ameaças de processo em poucas semanas, além do trágico assassinato de um opositor nas proximidades do edifício.
Da vigilância ao alívio dos moradores
Durante a investigação, que durou três anos, Felitti enfrentou o silêncio e o pavor dos condôminos. “A primeira vez que me encontrei com moradores foi de madrugada, no salão de festas, e estava todo mundo de capuz, de tanto medo que tinham da síndica e dos funcionários contar pra ela que eles estavam falando dela”, revelou o jornalista em entrevista à Rede 98. Segundo Chico, Maria das Graças utilizava o departamento jurídico do próprio edifício para processar e intimidar qualquer pessoa que ousasse questionar sua conduta ou levantar suspeitas sobre a administração.
O impacto da gestão de “mãos de ferro” deixou marcas físicas e financeiras no condomínio, como o caso da moradora que protestou contra a exigência de dinheiro vivo pagando o boleto com 15 quilos de moedas. Relembrando episódios como a morte de um opositor no quarteirão do prédio, Felitti explicou que a obra não é apenas uma denúncia, mas um registro que ouviu mais de 100 pessoas. “A nossa ideia sempre foi contar a história inteira, contar todos os lados”, afirmou o jornalista, destacando que incluiu no relato defensores da ex-síndica que acreditam que sua rigidez salvou o JK da degradação.
O primeiro episódio do podcast está disponível nas principais plataformas de áudio. Outros quatro capítulos chegam ao público semanalmente, sempre às quartas-feiras. “A Síndica” sucede “O Síndico” — que tratava de uma temática semelhante em São Paulo — e consolida Chico Felitti como um cronista de conflitos e peculiaridades de grandes condomínios brasileiros.
