Uma semana depois da queda de uma égua em uma adutora do Sistema Rio das Velhas, moradores do Aglomerado da Serra, na região Centro-Sul de Belo Horizonte, afirmam ter encontrado fragmentos que seriam do animal na água que chega às torneiras das casas.
O caso ocorreu no domingo da semana passada (03/05). A ocorrência levou à interrupção do abastecimento em 715 bairros de Belo Horizonte e de outras sete cidades da região metropolitana. O impacto atingiu cerca de metade da população da Grande BH.
Agora, passados alguns dias da retomada do fornecimento, moradores ouvidos pela Rede 98 relatam medo, desconfiança e mudanças na rotina dentro de casa, com a compra de água mineral.
Em nota, a Copasa informou que enviou equipe técnica ao Aglomerado da Serra para realizar vistorias e coletar amostras de água em dois imóveis após relatos de irregularidades. (confira nota completa ao fim da reportagem)
Vídeos obtidos pela reportagem mostram materiais na água descritos por moradores da Avenida Nossa Senhora de Fátima como “pedaços de carne”, “pele” e fragmentos esbranquiçados.
A cabeleireira Fernanda Alves, de 35 anos, conta que a mãe, de 61, que mora na mesma rua, encontrou na última quarta-feira (7/5) um fragmento “grosso, meio branco” enquanto regava plantas.
Depois do episódio, a família deixou de consumir água da rede pública e passou a comprar galões de água mineral.
“Meus filhos passaram mal, com diarreia e vômito. Minha mãe também passou mal. Naquele momento, a gente não sabia o que estava acontecendo, porque ainda não havia nenhum alerta. Na quarta-feira, minha mãe encontrou esse fragmento na água, parecendo pele. A Copasa foi lá na sexta-feira, recolheu o material, fez teste e disse que a água estava própria para consumo. Mas a gente não está acreditando, porque outros moradores também dizem que encontraram fragmentos”, relatou.
Fernanda afirma que a principal angústia, agora, é a falta de uma resposta definitiva.
“Tem muita gente aqui que não tem condição de comprar água ou até mesmo ter filtro em casa. O que a gente quer é uma resposta.”
A recepcionista Érica Teixeira Santos, de 35 anos, também mora na Rua Nossa Senhora de Fátima e afirma que encontrou um material semelhante a “pedaço de pele” preso no bico do filtro da torneira da cozinha na manhã de sexta-feira, após a retomada do abastecimento.
“Quando fui recolocar o bico do filtro, olhei dentro e vi algo parecido com pedaço de pele. Peguei uma faca e puxei. Quando olhei melhor, parecia um pedaço de carne, muito estranho. Fiquei horrorizada, porque a água que usei, inclusive para preparar comida, passou por ali.”
A família ficou quase dois dias sem água, precisou comprar galões e, depois do episódio, deixou de consumir a água da rede. Em pesquisa na internet, a reportagem da Rede 98 encontrou galões de 20 litros de água mineral vendidos entre R$ 14 e R$ 37.
Outro morador da região, o líder comunitário Alexsandro Bruno, acompanhou parte da operação realizada pela Copasa para encontrar a égua na adutora e reconhece o trabalho das equipes. Ainda assim, avalia que parte dos restos do animal pode ter seguido pela tubulação.
“Eu acompanhei todo o trabalho da Copasa e eles se dedicaram bastante. O problema é que o animal percorreu cerca de um quilômetro e meio até a água ser desligada. Ficou mais de 24 horas ali. A água que estava no reservatório foi descartada, mas o que já entrou pelo cano não tem como voltar”, disse.
Ele afirma que, diante da insegurança, os moradores passaram a observar cheiro, aspecto e qualquer alteração ao abrir a torneira.
Segundo a Copasa, as análises laboratoriais realizadas nos locais indicaram que a água distribuída pela rede pública está dentro dos padrões de potabilidade e segurança exigidos pelo Ministério da Saúde.
A companhia enviou um vídeo mostrando parte das análises.
A empresa informou ainda que, em uma das unidades vistoriadas, foi identificada uma ligação irregular de água, em desacordo com normas técnicas.
Outro morador, que pediu para não ser identificado, também afirma acreditar que fragmentos possam ter chegado às residências.
“Com a pressão da água, esses fragmentos seguiram. Depois de um dia inteiro de água corrente nessa velocidade, muita coisa deve ter se deteriorado. Muita gente usou essa água, com certeza.”
O morador também questiona a estrutura do sistema e cobra mudanças para evitar novos episódios como o ocorrido com a égua.
“O que a Copasa precisa fazer agora é se organizar, reunir os engenheiros e rever essas estruturas. Tem ponto que está escondido no meio do mato. A tampa estava ali e ninguém via. Precisa de melhor sinalização e de uma estrutura mais visível.”
Segundo a Copasa, após o incidente na adutora do Sistema Rio das Velhas, houve descarte integral da água presente na tubulação, desinfecção profunda e reforço na aplicação de cloro.
A companhia afirma que os casos pontuais seguem sendo tratados individualmente pelas equipes operacionais.
Leia a nota da Copasa na íntegra
A Copasa informa que realizou vistorias técnicas e testes de potabilidade nos endereços que registraram reclamações no Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte. As análises laboratoriais realizadas nas amostras coletadas atestam que a água fornecida pela rede pública na região está rigorosamente dentro dos padrões de segurança e qualidade exigidos pelo Ministério da Saúde, estando própria para o consumo.
A companhia esclarece que, nos imóveis que possuem a ligação regular — equipada com hidrômetro e cavalete padrão —, é improvável a passagem de qualquer resíduo sólido proveniente da rede de grande porte. Isso ocorre porque o sistema de distribuição oficial conta com múltiplas barreiras físicas e filtros de retenção que protegem o ponto de entrega de água ao consumidor.
Adicionalmente, a Copasa ressalta que a rede de distribuição na região está sendo impactada por obras de grande porte. Intervenções desse tipo podem provocar o arraste de sedimentos e variações na pressão da rede, o que ocasionalmente altera as características da água. A companhia reforça que eventuais alterações na aparência ou a presença de resíduos pontuais decorrentes dessas intervenções ou da manutenção da adutora não comprometem a potabilidade da água, que permanece monitorada e tratada para garantir sua total segurança sanitária.
Entretanto, durante as inspeções, as equipes identificaram imóveis com ligações irregulares (clandestinas). Nesses casos, a Copasa ressalta que não há como garantir a integridade das instalações, uma vez que tais conexões são feitas sem os padrões técnicos e dispositivos de proteção necessários. A Copasa permanece monitorando a rede em tempo real, assegurando que o sistema oficial de abastecimento opera com total segurança para todos os seus clientes.
(Com Clarissa Guimarães)