Coletivos e ligas do Carnaval de Belo Horizonte divulgaram, na última sexta-feira (30/1), uma nota pública de repúdio à suposta política cultural de priorização de megashows e atrações nacionais na programação oficial da folia. No texto, os grupos afirmam que a gestão pública “valoriza e facilita grandes produtores e iniciativas artísticas de fora de Minas Gerais”, em detrimento do fortalecimento do “fazer cultural local”.
A manifestação ocorre em meio ao anúncio de grandes shows para 2026, enquanto, segundo os coletivos, os blocos de rua seguem com pouco apoio. “Enquanto os cortejos de rua, diversificados e espalhados por todas as regionais, seguem com apoio escasso e sem políticas permanentes de fomento, assistimos ao anúncio de artistas de projeção nacional”, diz a nota.
Neste ano, BH terá, além dos mais de 600 desfiles de blocos de rua, artistas como Luísa Sonza, Xamã, Clayton e Romário, Nattan, Zé Felipe e Banda Eva na programação oficial do Carnaval.
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Erguido do chão
As entidades também destacam a atuação da população local na construção e crescimento da festa. “O Carnaval de Belo Horizonte se tornou o terceiro destino turístico do país porque foi erguido pelos seus artistas, artesãos, produtores, técnicos, ambulantes e foliões”, afirmam.
Em entrevista à Rede 98, um representante da Liga dos Blocos de Rua e de Luta de Belo Horizonte (Liga Bruta), que preferiu não se identificar, defendeu que o projeto de trazer grandes artistas para a capital é uma forma da gestão pública se apropriar daquilo que seria uma “obra pronta”.
“A gente começa a ver que, com o trabalho feito, um trabalho popular, democrático e descentralizado, como o Carnaval deve ser, há uma hiperconcentração de esforços e recursos para poder realizar um evento sob uma lógica que não priroriza os artistas e os coletivos daqui”, aponta o representante.
Economia depende dos blocos de rua
A nota pública complementa a crítica ao afirmar que o atual modelo de priorização vem “esvaziando os territórios, precarizando trabalhadores da cultura e desvirtuando o espírito comunitário da folia”. Para os coletivos, essas escolhas “não apenas descaracterizam a festa, como ameaçam a sustentabilidade econômica e cultural dos agentes que verdadeiramente a constroem”.
Para o representante da Liga Bruta, cabe aos empresários e produtores dos grandes eventos na cidade entender que a manutenção do Carnaval de BH no tempo depende da festa realizada pelos coletivos locais. “Para durar mais cinco, 10, 15, 50 anos, é preciso investir ostensivamente, inclusive do ponto de vista criativo e empresarial, na independência dos blocos”, defende.
Ao final, os grupos defendem mudanças no modelo de gestão e cobram medidas concretas. “Repudiamos, portanto, a priorização de megaeventos financiados com dinheiro público em detrimento do fortalecimento estrutural dos realizadores locais” e exigem “transparência nos critérios de aplicação dos recursos, participação social nas decisões e um modelo de Carnaval que valorize e invista nos blocos de rua”.
Belotur nega priorização
Em nota, a Belotur, empresa pública responsável pelo planejamento e execução do Carnaval de BH descartou qualquer priorização ou investimento adicional de recursos públicos municipais em megaeventos ou atrações nacionais.
“As contratações de artistas de fora da cidade ou do estado são realizadas pelos organizadores dos blocos, com recursos próprios ou de parceiros privados. Cabe ressaltar que não compete ao poder público municipal interferir ou vetar escolhas artísticas feitas pelos organizadores, desde que estejam em conformidade com a legislação vigente e com as regras estabelecidas para o Carnaval”, rebateu.
Segundo a empresa, cabe à prefeitura assegurar, “de forma isonômica e equitativa”, a infraestrutura necessária para a realização da festa, “independentemente do porte ou do perfil artístico de cada bloco”. Confira a programação dos próximos dias de folia neste link.
