A escritora mineira Isabela Freitas encerrou, após 12 anos, a série literária iniciada com Não se apega, não, publicado em 2014 pela Editora Intrínseca. Em entrevista à Rádio 98, a autora, que já vendeu mais de 2 milhões de exemplares, revelou que planejava escrever sete livros, mas decidiu finalizar a história no quinto volume, Não se apaixona, não, também publicado pela editora. Durante a conversa, ela abordou as experiências pessoais que inspiraram os personagens, a importância da terapia em seu amadurecimento, os desafios de viver de literatura no Brasil e os planos para lançar um novo romance em 2027.
A decisão de encerrar a saga surpreendeu parte das leitoras, que acompanhavam a trajetória da protagonista Isabela desde o primeiro livro. Segundo a escritora, a mudança aconteceu durante a produção da última obra, quando percebeu que a história havia alcançado o desfecho que imaginava para os personagens.
“Eu sempre gostei muito do número sete. Então, eu tinha na minha cabeça que essa saga ia ser sete livros. Só que, quando comecei a escrever Não se apaixona, não e foi se aproximando do final, eu falei: ‘Cara, esse livro está finalizando com chave de ouro. É um final lindo e é o final que eu desejava para a saga’”, contou.
Com 400 páginas, o último volume tem quase o dobro da extensão dos anteriores. A autora brinca com as leitoras que o tamanho da obra compensaria parte dos livros que deixaram de ser publicados.
Para Isabela, prolongar a história apenas para cumprir o planejamento inicial poderia comprometer a qualidade da narrativa. Ela explicou que o desenvolvimento dos personagens nem sempre segue as decisões tomadas pelo escritor antes de começar uma obra.
“Eu gosto de falar que os personagens, a própria história, eles ganham vida. Não foi uma decisão racional minha. Quando comecei a escrever, não imaginava que ia ser o último. Só que, quando foi indo para o final, eu falei: ‘Não, gente, tem que ser o último’. Eu acho que, se prolongar demais, vai ser uma enrolação para o final, e acho desnecessário”, afirmou.
Personagem Isabela foi inspirada na vida da escritora
A relação entre a autora e sua protagonista começou durante a produção de Não se apega, não. Na época, Isabela já tinha um blog de sucesso, no qual publicava crônicas e reflexões sobre relacionamentos, amor-próprio e desenvolvimento pessoal.
Quando recebeu o convite da editora Intrínseca para publicar seu primeiro livro, decidiu inicialmente produzir uma coletânea de crônicas. Entretanto, ao concluir o manuscrito, percebeu que não havia escrito uma obra que gostaria de ler.
“Eu escrevi esse livro de crônicas. Quando acabei, fui ler e falei: ‘Gente, esse livro está muito chato’. Porque eu, Isabela, não gosto de ler livro de crônica. Como era o maior sonho da minha vida publicar um livro, eu falei: ‘Não posso publicar um primeiro livro, que é a realização de um sonho meu, um livro que eu acho chato’”, relembrou.
A escritora decidiu começar novamente, desta vez criando uma personagem que enfrentava situações semelhantes às que ela própria vivia. A protagonista recebeu o mesmo nome da autora, passou a morar em sua cidade natal e teve parte de sua trajetória inspirada em experiências reais.
Inicialmente, o nome seria apenas um recurso para facilitar a escrita, já que Isabela nunca havia produzido uma narrativa tão longa. Entretanto, a personagem acabou adquirindo características próprias e permaneceu com o nome original.
“Os meus livros não são autobiográficos, mas eu poderia dizer que 60% deles são situações que eu já vivi. Às vezes eu dou uma modificada nas situações, dou uma floreada, deixo mais lírico, mais legal para o livro. Mas praticamente tudo que a Isabela viveu, até os aprendizados que ela tem ao longo desses anos, são aprendizados que eu tive na minha vida”, explicou.
Essa ligação também influenciou o tempo necessário para concluir o último volume. Segundo a autora, algumas reflexões apresentadas pela protagonista só puderam ser desenvolvidas depois que ela própria passou por determinadas experiências.
“Eu demorei muito para lançar Não se apaixona, não porque os aprendizados que a Isabela aprende em algumas páginas do livro eu demorei anos. A Isabela autora precisava amadurecer, precisava viver aquelas experiências para depois escrever e passar para as pessoas”, afirmou.
Terapia e amor-próprio influenciaram o encerramento da saga
Um dos principais temas do último livro é a construção de relacionamentos saudáveis. Na obra, a protagonista precisa lidar com inseguranças e experiências do passado, mesmo depois de encontrar o amor que desejava.
Isabela explicou que essa abordagem surgiu de mudanças em sua própria maneira de compreender os relacionamentos. Quando era mais jovem, acreditava que suas experiências amorosas não davam certo porque ainda não havia encontrado a pessoa ideal.
A percepção começou a mudar quando iniciou a terapia, por volta dos 30 anos, e passou a reconhecer comportamentos que também contribuíam para os problemas afetivos.
“Antes, quando eu era mais nova, achava que meus relacionamentos não davam certo porque eu não tinha encontrado a pessoa certa. Então, o erro estava sempre no outro. Os anos foram passando, procurei terapia e percebi que, beleza, o erro está no outro, mas está em mim também. Eu também tenho as minhas questões, tenho padrões tóxicos que às vezes repito sem nem perceber”, relatou.
A escritora afirmou que o processo a ajudou a compreender como traumas e inseguranças podem influenciar decisões pessoais, profissionais e amorosas. Essas descobertas foram incorporadas à trajetória da protagonista, que, ao longo dos cinco volumes, enfrenta relacionamentos tóxicos, frustrações e dificuldades para reconhecer o próprio valor.
Para a autora, a principal mensagem da série é que encontrar alguém disposto a oferecer amor não elimina a necessidade de desenvolver autoestima e reconhecer os próprios problemas.
“Não adianta você jogar os seus problemas e os seus traumas para um canto da sua mente achando que isso não vai influenciar na sua vida. Vai influenciar. Você não vai perceber, mas vai. Isso vai fazer você tomar decisões erradas, se sabotar, tanto na vida pessoal quanto na profissional e nos relacionamentos”, explicou.
Ao concluir a saga, Isabela também quis transmitir uma mensagem de esperança sobre a possibilidade de construir relações saudáveis. A autora destacou que sua protagonista continua sendo imperfeita, mas aprende a tomar decisões melhores e a compreender suas próprias necessidades.
“Eu quis passar a mensagem de que você ainda vai encontrar aquele amor que deseja encontrar, para deixar o coração das pessoas quentinho, com esperança de que o amor verdadeiro existe. Pessoas interessadas em te escolher todos os dias existem. Eu encontrei a minha e era muito desacreditada, igual à Isabela do primeiro livro”, contou.
Do sucesso na internet à carreira literária
Antes de se tornar uma das escritoras brasileiras de maior alcance comercial de sua geração, Isabela Freitas cursava Direito e produzia conteúdo para a internet.
A trajetória começou no Twitter, onde publicava frases sobre relacionamentos. Com o crescimento do público, criou um blog que também conquistou grande audiência. Foi nesse período que recebeu o convite da Intrínseca para publicar seu primeiro livro.
Apesar da popularidade nas redes sociais, Isabela revelou que não imaginava alcançar números expressivos nas livrarias. A primeira tiragem, de aproximadamente 20 mil exemplares, chegou a provocar insegurança.
“Eu falei: ‘Gente, eles fizeram 20 mil exemplares. Será que eu vou conseguir vender?’. Porque uma coisa é você ter sucesso na internet, outra coisa é vender produto. Para viralizar e vender milhões, como vendeu, já é do boca a boca, da pessoa que lê e fala para outra: ‘Esse livro é muito bom’”, relembrou.
O crescimento da carreira literária, entretanto, exigiu mudanças na rotina. Na época, a autora conciliava a faculdade, o trabalho com o blog e a escrita do primeiro livro, chegando a dormir apenas duas ou três horas por noite.
Depois de meses de sobrecarga, decidiu trancar o curso de Direito para se dedicar à literatura e às atividades na internet. Segundo ela, a decisão também foi influenciada pela percepção de que já não se identificava com a profissão jurídica.
‘Para viver de livros, você tem que ter um grande sucesso’
Mesmo com milhões de exemplares vendidos, Isabela considera difícil depender exclusivamente da literatura como fonte de renda no Brasil.
A escritora explicou que os direitos autorais representam apenas uma parcela do valor pago pelo leitor, já que a comercialização também envolve editoras, livrarias e outros custos. Por isso, manteve diferentes atividades profissionais ao longo da carreira.
“Eu acho que, para você falar que dá para viver de livros, você tem que ter um grande sucesso. Porque o autor não recebe uma grande quantia em cima do valor do livro. Esse valor é dividido entre editora, livraria, enfim, uma parcela fica com o autor”, afirmou.
A autora contou que nunca planejou depender apenas das vendas literárias. Primeiro trabalhou com o blog e, posteriormente, ampliou sua presença em plataformas como YouTube e Instagram.
Para escritores iniciantes, Isabela recomenda que a produção literária seja motivada principalmente pelo interesse em contar histórias, e não pela expectativa de retorno financeiro imediato.
“Quantas pessoas vêm me pedir conselho, eu sempre falo: ‘Leva isso como um hobby, faz por amor, faz com o seu coração’. Não faz por dinheiro, não faz por fama, porque, se você for fazer por dinheiro, vai trabalhar com outra coisa”, declarou.
Escritora comenta popularização de cenas explícitas nos romances
Durante a entrevista, Isabela também comentou o crescimento dos romances conhecidos como hot, caracterizados pela presença de cenas sexuais explícitas.
A autora afirmou que percebeu mudanças no mercado editorial nos últimos anos e se surpreendeu ao encontrar conteúdos mais explícitos em livros recentes.
Embora reconheça que diferentes gêneros e estilos têm espaço na literatura, explicou que prefere histórias centradas no desenvolvimento emocional dos personagens e na construção dos relacionamentos.
“Não é muito a minha praia como escritora. Acho que seria superdesafiador colocar isso em um livro meu. E, sinceramente, como leitora, não acho necessário. Acho até estranho. Não é uma coisa de que eu gosto muito. Quando tem, eu leio, mas não é aquela coisa que eu fico: ‘Nossa, eu amo isso daqui’”, comentou.
Isabela também levantou questionamentos sobre o consumo frequente de cenas explícitas, mas ressaltou que considera válidas diferentes experiências de leitura.
Por enquanto, a escritora não pretende fazer desse tipo de conteúdo uma característica central de suas próximas obras.
Novo romance terá esporte, reencontro e segundas chances
Com o encerramento da saga, Isabela já trabalha em um novo romance, que pretende lançar em 2027, durante a Bienal do Livro do Rio de Janeiro.
A história será ambientada no universo esportivo universitário e acompanhará dois ex-namorados que se reencontram anos depois da separação. A trama abordará segundas chances e a transformação de uma relação marcada por ressentimentos em um novo envolvimento amoroso.
Diferentemente da série Não se apega, não, na qual o romance entre Isabela e Pedro se desenvolve a partir de uma amizade, a nova obra explorará o recurso narrativo conhecido como enemies to lovers, em que personagens passam de uma relação de antagonismo para o amor.
“É um ex-namorado, ex-namorados que se reencontram depois de anos separados. Eles se odeiam, então tem ali o enemies to lovers, que é uma trope que eu adoro. Na série Não se apega, não, fui do friends to lovers. Agora quero o enemies to lovers e estou amando escrever esse novo romance”, contou.
A autora também revelou que sonha em escrever uma romantasia, gênero que combina elementos de fantasia e romance, mas pretende continuar dedicada às histórias românticas contemporâneas por enquanto.
Isabela defende criação de uma grande Bienal em Belo Horizonte
Mineira de Juiz de Fora, Isabela também comentou a importância dos eventos literários para aproximar escritores e leitores e defendeu a realização de uma grande bienal do livro em Belo Horizonte.
A escritora citou a força dos eventos realizados no Rio de Janeiro e em São Paulo e afirmou que Minas Gerais possui diversidade cultural e autores suficientes para receber uma iniciativa de dimensão semelhante.
“Minas deveria ter uma Bienal ali em Belo Horizonte. Acho que seria incrível. A gente tem muitos escritores mineiros muito bons que poderiam movimentar. Somos um estado tão grande, tão diverso, tão rico e merecíamos ter mais investimento nesse sentido”, afirmou.
Para a autora, a criação de um evento desse porte poderia ampliar a visibilidade da produção literária mineira e fortalecer o contato entre escritores, editoras e leitores.