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Mineiro finalista do Jabuti 2026, Juca Magalhães fala sobre ‘Índigo’ e desafios da literatura

Por

Igor Teixeira

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(Foto: Luiz Domingues)

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O escritor mineiro Juca Magalhães, natural de Belo Horizonte, é um dos finalistas do Prêmio Jabuti 2026 na categoria Escritor Estreante – Romance, com o livro Índigo, publicado em 2025 pela editora independente Impressões de Minas. Em entrevista à Rádio 98, o autor falou sobre os sete anos de desenvolvimento da obra, que mistura realismo mágico e ditadura militar, além de abordar identidade, relações familiares e traumas. Magalhães também comentou o reconhecimento nacional, as dificuldades de viver da literatura e os planos para novos livros.

Mestre em Escrita Criativa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), o escritor contou que a ideia do romance surgiu em 2019, quando ouviu um colega de trabalho comentar o desejo de viver em uma comunidade isolada, cercado de amigos e distante da sociedade.

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A proposta despertou seu interesse pelas relações construídas em ambientes fechados. Dois anos depois, durante o mestrado, Magalhães começou a desenvolver a história, mas decidiu abandonar a versão inicial para concentrar a narrativa em um personagem que ganhava cada vez mais importância.

“Eu quis trazer essa noção dos sete anos porque todo livro começa muito antes de você escrever. A ideia começou em 2019. Eu ouvi um colega de trabalho, na época eu trabalhava na educação, falando que gostaria de morar com os amigos numa comunidade isolada, no meio do mato, plantar e viver da terra. Eu pensei: nossa, isso dá muita pilha para um romance”, contou.

O processo de escrita ganhou força durante o mestrado, mas exigiu uma mudança de direção.

“No meio do caminho, eu joguei fora a ideia do livro porque ela não estava rendendo. Enquanto escrevia, ficava voltando a um personagem e percebi que a história estava com ele. Foi no meio do meu primeiro ano de mestrado que joguei fora tudo o que tinha e me concentrei nesse personagem, que no final virou o Índigo“, explicou.

O livro ainda passou por um processo de preparação de texto no ateliê de escrita do coletivo Estratégias Narrativas, em Belo Horizonte.

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Uma história sobre identidade e relações familiares

Ambientado no Brasil durante a ditadura militar, Índigo acompanha um jovem de 18 anos que deixa uma rua isolada para procurar a irmã e o primo, que haviam abandonado aquele ambiente.

Ao longo da jornada, o protagonista entra em contato com diferentes realidades e passa a questionar a identidade construída dentro da família.

Segundo Magalhães, a intenção foi explorar como estruturas familiares rígidas podem influenciar as escolhas e o desenvolvimento das pessoas.

“Eu sempre gosto de tratar de família e de sistemas de apoio, dessa noção de com quem a gente pode contar no nosso dia a dia. Nesse livro, eu queria trabalhar um personagem que tivesse muita nuance. Ele tem coisas muito positivas no início, mas também um aspecto que a gente vai percebendo que é um pouco mais nocivo”, explicou.

O escritor também relacionou a narrativa às estruturas familiares tradicionais de Minas Gerais.

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“É aquela coisa bem família mineira supertradicional de antigamente, que tinha definições muito claras do que as pessoas podiam ser. Eu queria trabalhar como as pessoas dentro desse sistema podem se atrapalhar ou se desenvolver. São pessoas tentando se definir dentro de um lugar que já tem uma caixa muito clara para elas”, afirmou.

O protagonista não recebe um nome definido no início da narrativa. Para o autor, a escolha representa as diferentes identidades que uma pessoa pode assumir ao longo da vida, dependendo das relações e dos ambientes em que está inserida.

“Ele tem alguns nomes, dependendo de quem está conversando com ele. Ele é o filho querido da mãe, mas também pode ser o cara que alguém conhece na estrada, uma pessoa que trabalha num circo ou alguém que passou anos andando pelo Brasil. É menos uma noção de apagamento pela ditadura e mais uma noção dos diferentes espaços que essa pessoa pode ocupar”, explicou.

(Foto: Divulgação/Impressões de Minas)

Realismo mágico e ditadura militar

A mistura entre acontecimentos históricos e elementos fantásticos é outra característica central de Índigo.

Magalhães explicou que escolheu o realismo mágico por considerar que a própria história latino-americana reúne episódios tão extraordinários que parecem ficcionais.

“Eu sabia, quando entrei no mestrado, que queria trabalhar com realismo mágico. A gente tem alguns autores brasileiros que pode encaixar nessa categoria, mas não temos uma tradição tão forte quanto a Colômbia e a Argentina. Eu queria trabalhar esse tema porque sinto que é uma coisa muito nossa também”, afirmou.

Para o escritor, a literatura permite explorar as diferentes versões dos acontecimentos históricos e questionar quais histórias recebem destaque.

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“A nossa história é toda trabalhada com elementos que parecem completamente ficcionais. A ficção está aí para extrapolar esses aspectos, para complementar a nossa história, mas também para entender que ela é construída a partir de recortes de fatos e perspectivas”, explicou.

A ditadura militar aparece como parte dessa reflexão sobre memória e narrativas.

“Esse período da ditadura foi de muita coisa encoberta. Tinha uma história oficial e tinha histórias contadas nas margens. Eu quis trabalhar isso também: o que é uma história contada para um narrador e o que acontece ao redor dele que ele decide ou não mostrar, porque não é do interesse dele mostrar”, disse.

Trauma e representatividade

Além das relações familiares, o romance aborda experiências traumáticas e personagens LGBTQIA+, sem limitar suas identidades ao sofrimento ou a representações idealizadas.

Magalhães explicou que buscou construir personagens complexos, capazes de cometer erros e apresentar contradições.

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“Eu queria escrever personagens LGBTQIA+ que não fossem monólitos. Não são pessoas perfeitas e também não são pessoas cem por cento branqueadas. Acho importante ter essa noção de representatividade e querer trazer nuances para esse tipo de personagem”, afirmou.

O autor também destacou a reflexão sobre os efeitos das experiências traumáticas na construção da identidade.

“Eu queria trabalhar uma história sobre o trauma e sobre o que o nosso trauma faz com a gente. O quanto escolhemos ser definidos por isso, o quanto podemos seguir em frente e o quanto deixamos uma situação muito ruim definir toda a nossa existência”, explicou.

Para ele, reconhecer o sofrimento não significa permitir que ele determine toda a trajetória de uma pessoa.

“Esses traumas que uma pessoa pode passar não precisam necessariamente defini-la como indivíduo. Eles são parte da sua história. A gente precisa entender o quanto somos o trauma e o quanto o trauma é apenas uma parte muito importante da nossa história”, acrescentou.

Reconhecimento no Jabuti surpreendeu o escritor

A indicação ao Prêmio Jabuti foi recebida com surpresa por Magalhães, que destacou a importância do reconhecimento para uma obra publicada fora do principal eixo editorial do país.

“Foi uma grande surpresa. A gente sempre escreve com muita esperança de que talvez alguém leia e goste do que fizemos. Quando penso em chegar ao Jabuti, é porque alguém, ou mais de uma pessoa, gostou muito do meu livro, acreditou nele e achou que foi bem feito. Eu só tenho a agradecer por esse reconhecimento”, afirmou.

O escritor também ressaltou a participação de editores, designers, mentores e leitores que contribuíram para a publicação.

“Eu vim de uma editora independente, que não faz parte desse mercado grande de São Paulo. Eu fiz o recheio dessa torta, mas tem muita gente que colaborou: meu editor, o designer que construiu a identidade visual, minha mentora e os amigos que leram. Eu sou um escritor, mas esse livro é uma conquista de muita gente”, destacou.

Segundo ele, a indicação ampliou a circulação de Índigo e despertou o interesse de novos leitores. Apesar disso, nenhuma negociação com uma grande editora havia sido formalizada até a entrevista.

“A gente não precisa começar numa editora grande. Pode começar numa editora da sua própria cidade. Se você acredita na sua história, se acredita que ela vai encantar alguém, pode buscar esse reconhecimento”, disse.

Os desafios de viver da escrita no Brasil

Além de escritor, Juca Magalhães trabalha como revisor de materiais didáticos. Ele contou que precisa conciliar a atividade profissional com os projetos literários, geralmente desenvolvidos nos intervalos da rotina.

“Meu trabalho principal é como revisor de texto. A gente escreve caçando buracos no dia a dia. Quem me dera poder trabalhar só com escrita, seria meu sonho, mas não é muito viável, principalmente porque é um mercado muito difícil”, afirmou.

O autor defendeu a ampliação de políticas de incentivo à literatura, incluindo residências artísticas, financiamento de publicações e iniciativas para levar livros brasileiros às escolas e bibliotecas.

“A classe dos escritores é uma classe que vive pelas beiradas. A gente tem o nosso trabalho de dia e, de noite, escreve. Eu queria muito que o nosso mercado literário tivesse espaço para mais pessoas novas chegarem e constituírem carreiras literárias”, declarou.

Magalhães também criticou a concentração de oportunidades no eixo Rio-São Paulo e pediu mais espaço para narrativas produzidas por escritores de diferentes regiões e realidades sociais.

“Nosso país é tão grande, tem tanto espaço para tanta história. Acho que deveríamos ter uma estrutura melhor para abraçar esses tipos diferentes de histórias. Histórias de pessoas pretas, de pessoas LGBT, de pessoas com deficiência. Tem espaço para todo esse tipo de narrativa”, defendeu.

O escritor também rejeitou a ideia de que apenas livros considerados eruditos tenham valor literário. Ele citou Crepúsculo, de Stephenie Meyer, como uma das obras que despertaram seu interesse pela escrita.

“Eu comecei a escrever porque gostava muito de Crepúsculo. Defendo profundamente Crepúsculo. O primeiro livro, aquilo é literatura. Esses livros são importantes porque abrem a gente para outros espaços. O importante é entender que eles têm que abrir a gente para outras coisas”, afirmou.

Para o autor, a literatura não precisa necessariamente cumprir uma função política ou social, mas deve ser reconhecida como parte fundamental da formação humana.

“Eu não acredito numa literatura cem por cento utilitária, que precisa ter uma função ou necessariamente comentar o contexto. Tem espaço para esse tipo de coisa, mas também tem espaço para ir além disso. A arte não é inútil, ela é importante e forma a gente como pessoa. Precisa ser investida adequadamente”, avaliou.

Continuação de ‘Índigo’ está nos planos

Com o reconhecimento no Jabuti, Magalhães já trabalha em outros projetos. Entre eles está um romance que aborda os efeitos da guerra sobre crianças, com elementos de fantasia.

O escritor também revelou que pretende retomar o universo de Índigo em uma futura publicação, embora ainda não tenha definido uma data.

“Tenho muitos projetos, inclusive de desdobramento do próprio Índigo. Sempre pensei que não é uma história que acaba ali. Em algum momento, no futuro, vai ter alguma continuidade dessa narrativa, ou pelo menos outra parte dela. Não prometo nada, mas está vindo aí”, contou.

Enquanto desenvolve os novos trabalhos, o autor continua participando de iniciativas literárias independentes de Belo Horizonte, como o coletivo Estratégias Narrativas e a Banca Estratégia.

Para Magalhães, esses espaços ajudam a fortalecer a produção local e ampliar o contato entre escritores e leitores.

“A cena de literatura de BH está viva. O pessoal de fora geralmente não conhece, mas está viva, sim. Tem muita gente trabalhando para trazer esses espaços em movimento, com oficinas, palestras, feiras literárias e trabalhos incríveis”, concluiu.

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Igor Teixeira

Jornalista formado pelo Centro Universitário UNA, é repórter de política da 98FM. Tem passagens pela TV Alterosa e Itatiaia.

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