O fechamento do Estreito de Ormuz após a escalada dos conflitos no Oriente Médio, afeta não só o combustível, mas também o mercado de fertilizantes que passam por ali. O Brasil importa a maior parte desses produtos, e Minas Gerais, com forte na produção de café, milho e cana, depende diretamente desse insumo.
“Com o bloqueio da rota, mesmo que temporariamente, o impacto é imediato, trazendo uma alta no preço do petróleo e consequentemente uma pressão sobre os combustíveis que são utilizados para diversas demandas nas cadeias produtivas, nos custos dos produtores agropecuários e também no aumento dos custos logísticos globais”, explicou a assessora técnica do Sistema Faemg Senar, Aline Veloso.
Aline destacou ainda que “o petróleo, o diesel, no caso, é um insumo essencial na produção, na agregação de valor e também na distribuição dos produtos. Se o petróleo sobe, o custo sobe junto”. Ela lembrou também que o Oriente Médio é uma região relevante na produção de fertilizantes nitrogenados, de onde vem parte dos insumos importados pelo Brasil. “Qualquer instabilidade prolongada pode pressionar ainda mais os preços dos insumos agropecuários”, afirmou.
O integrante da Câmara da Indústria de Petróleo e Gás da Fiemg, Victório Semionato, também alertou para os riscos. Semionato disse que “os contratos são de médio prazo, mas o risco no cenário internacional já traz uma preocupação imediata”. Segundo ele, Minas é um grande player em commodities agrícolas como soja, milho e frango, utilizando principalmente os portos do Rio de Janeiro e do Espírito Santo para exportação.
Para o economista Gustavo Andrade, o problema envolve dois vetores simultâneos: custo e preço. “Aqui você tem os dois vetores na mesma direção: o custo aumenta, mas o preço que você está vendendo, por consequência desse fato, também aumenta. A pergunta é: qual é o ganho e qual é a perda? Quem sobe mais?”, questionou.
Gustavo explicou que, antes da guerra, muitos grãos estavam com preços pressionados para baixo devido à sobreoferta e estoques elevados. Agora, o cenário pode mudar. “O que importa é saber se o custo mais elevado se mantém e se o preço mais elevado se mantém. Se há reversão à média ou se a tendência estruturalmente mudou”, afirmou.
Para ele, a inflação de alimentos é um risco claro. “Frete e seguro já aumentaram. Independentemente de o Estreito de Ormuz fechar ou não, o preço do bem transportado vai ser ajustado ao longo do tempo.” Ainda assim, ponderou que o agro brasileiro tem capacidade de adaptação. “O agro já provou que tem capacidade de reversão. Não é só resiliência. É planejamento, investimento em tecnologia, sementes pesquisadas, inteligência produtiva.”
Gustavo também apontou a importância da política de armazenagem. “Se eu tenho capacidade de estoques, eu não forço o produtor a vender a qualquer preço. Isso funciona como um colchão”.
