Amparado pela valorização do petróleo, o real avançou no primeiro pregão de junho, apesar da onda global de fortalecimento da moeda norte-americana com o aumento das tensões no Oriente Médio. Com mínima de R$ 5,0122, o dólar à vista fechou em baixa de 0,40%, a R$ 5,0227, após alta de 1,82% em maio. No ano, as perdas da moeda norte-americana são de 8,50%
O dia foi marcado por um aumento da percepção de risco geopolítico, após o Irã anunciar a suspensão de conversas com os Estados Unidos em protesto aos ataques de Israel a bases do grupo xiita Hezbollah no Líbano. Autoridades iranianas emitiram alerta para que moradores do norte de Israel e de assentamentos militares deixassem a região.
A escalada retórica de Teerã levou a uma alta dos preços do petróleo, em especial pela manhã. As cotações se afastaram das máximas à tarde, na esteira de declarações de Donald Trump. Em postagem na Truth Social, o presidente dos EUA relatou conversas com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e com o Hezbollah. “Israel não os atacará e eles não atacarão Israel”, escreveu Trump. Depois de tocar US$ 97, o contrato do Brent para agosto encerrou a US$ 94,98 o barril, alta de 4,24%.
O head de banking da EQI Investimentos, Alexandre Viotto, observa que há dois vetores que atuam sobre a formação da taxa de câmbio quando há um recrudescimento das tensões geopolíticas. “De um lado, há aumento da aversão ao risco e da volatilidade, o que é ruim para divisas emergentes. Mas, de outro, há uma alta do petróleo, o que é bom para a gente. Foi um pouco o que vimos hoje”, afirma Viotto.
Pela manhã e no início da tarde, o real conseguia se desgarrar da tendência negativa para divisas emergentes em razão da alta do petróleo, mas exibia fôlego curto. A combinação de diminuição da aversão ao risco, na esteira das declarações de Trump, com a manutenção da commodity em terreno positivo levou o dólar à vista às mínimas durante a segunda etapa do pregão.
“A notícia de que o Irã suspendeu as negociações com os Estados Unidos deixou os investidores mais cautelosos. Mas o real se apreciou, destoando do comportamento de outras moedas emergentes, porque o Brasil é exportador líquido de petróleo”, afirma a economista-chefe do Ouribank, Cristiane Quartaroli, acrescentando que a piora das projeções de inflação no Boletim Focus desta semana aumenta a expectativa de que os juros permanecerão elevados no Brasil. “Isso é um atrativo para o capital externo, favorecendo nossa moeda.”
Embora o real tenha sido uma das raras divisas emergentes a ganhar terreno nesta segunda-feira, o grande destaque do dia foi o peso colombiano. A moeda da Colômbia avançou mais de 2,5% frente ao dólar diante do resultado do primeiro turno das eleições presidenciais do país.
“O peso colombiano explodiu após um desempenho surpreendentemente forte do candidato de direita, Abelardo de la Espriella, no primeiro turno, o que o posicionou como grande favorito para o segundo turno”, afirma, em nota, a economista-chefe de mercados emergentes da gestora VanEck, Natalia Gurushina, acrescentando que as taxas de juros locais e os valuations atraentes contribuem para a apreciação do peso.
Termômetro do comportamento da moeda americana em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY operou em alta moderada e rondava os 99,200 pontos no fim da tarde, após máxima aos 99,385 pontos. O Dollar Index avança quase 1% no ano. As taxas dos Treasuries subiram com as preocupações inflacionárias provocadas pela alta do petróleo, em meio a sinais positivos da atividade econômica. A semana é marcada pela divulgação de dados do mercado de trabalho nos EUA, com destaque para o relatório de emprego (payroll) de maio, na sexta-feira, 5.
Para Viotto, da EQI Investimentos, a perspectiva de manutenção do petróleo acima de US$ 90 diante do impasse no conflito no Oriente Médio estimula apostas de que pode haver um aumento dos juros nos Estados Unidos, abalando o apetite por divisas emergentes. O real ainda é, de certa forma, protegido pela melhora dos termos de troca e por uma taxa de juros local bastante elevada.
“A tendência é de um dólar mais perto de R$ 5,00, mas que pode buscar os R$ 5,20. Há mais chances de o dólar subir do que ceder, porque temos essa possibilidade de fortalecimento da moeda americana lá fora, se o Federal Reserve adotar um discurso mais duro”, afirma Viotto, ressaltando que as questões políticas locais – como a perda de fôlego da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) após a revelação do caso “Dark Horse” – já foram absorvidas.
Bolsa
O Ibovespa se manteve pressionado pela quinta sessão consecutiva, nesta segunda-feira, 1º de junho, em grau maior do que nas anteriores, ainda sob o efeito, em especial, das idas e vindas entre EUA e Irã, em meio a novos sinais de ruptura do frágil diálogo após a retomada de ofensiva de Israel no Líbano. Nesta segunda, o índice da B3 oscilou entre mínima de 171 792,82, em queda superior a 1%, e máxima de 173.975,31 pontos, perto do nível da abertura, de 173.790,08 pontos. No fechamento, no menor patamar desde 21 de janeiro, marcava 172.197,46 pontos, em baixa de 0,91%. O giro financeiro foi de R$ 28,4 bilhões nesta abertura de junho. No ano, o índice limita alta a 6,87%.
Bruna Centeno, economista na Blue3 Investimentos, destaca que o contexto global permanece muito incerto, o que se reflete na curva de juros, no câmbio e também na Bolsa, com a aversão a risco tendendo a se refletir na busca por proteção.
Como contexto doméstico, também refletindo o externo, a classificação na semana passada de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas pelos Estados Unidos traz um fator a mais de preocupação quanto à relação bilateral, acrescenta.
Dessa forma, na B3, o começo do último mês do semestre foi marcado pela cautela que tem prevalecido, quase linearmente, desde a mais recente renovação de recordes pelo Ibovespa, em 14 de abril, com reversão do fluxo estrangeiro para mercados como Nova York e outros com exposição a tecnologia, na Ásia.
Em Nova York, os principais índices de ações seguem nas máximas históricas, apesar das incertezas em torno de EUA-Irã. Nesta segunda, no fechamento, Dow Jones +0,09%, S&P 500 +0,26% e Nasdaq +0,42%.
No dia, as ações das principais empresas de software registraram ganhos após o CEO da Nvidia, Jensen Huang, afirmar que os agentes de inteligência artificial têm potencial de impulsionar significativamente o setor, afastando os temores de que a tecnologia pudesse forçar muitas empresas do segmento a fechar.
Sem exposição a tecnologia na B3, à exceção de Petrobras (ON +1,31%, PN +0,88%) -que acompanhou bem ao longe nova escalada do petróleo – o dia foi em geral negativo para as demais ações de primeira linha, como Vale (ON -1,35%) e Itaú (PN -1,65%). Na ponta ganhadora do Ibovespa, Totvs (+4,32%), Brava (+2,57%) e Cosan (+2,11%). No lado oposto, Minerva (-5,15%), RD Saúde (-4,44%) e Suzano (-3,01%).
No cenário geopolítico, o Quartel-General Central Khatam al-Anbiya, ligado à Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, alertou moradores do norte de Israel a deixarem a região caso o governo israelense amplie operações no Líbano, elevando a tensão no Oriente Médio.
Por sua vez, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, disse que informou ao presidente dos EUA, Donald Trump, que Israel atacaria alvos do Hezbollah em Beirute se os ataques a cidades e civis israelenses continuarem. “Nossa posição permanece a mesma”, disse Netanyahu, acrescentando que as Forças de Defesa de Israel (IDF) continuariam as operações planejadas no sul do Líbano juntamente com qualquer potencial escalada.
Matthew Ryan, head de estratégia de mercado global da Ebury, observa que embora as manchetes sobre Estados Unidos, Israel e Irã continuem influenciando os mercados, a semana traz uma nova bateria de dados econômicos, para além da conjuntura geopolítica, e que tendem a contribuir para tomar o pulso da situação: especialmente em leituras sobre o mercado de trabalho americano, como o Jolts, métrica acompanhada de perto pelo Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), e a divulgação preliminar da inflação de maio na zona do euro, ambos a serem conhecidos na terça-feira.
Juros
A nova deterioração das expectativas inflacionárias trazida pelo boletim Focus, mais revisões altistas para a Selic de players importantes, a escalada do petróleo e o ceticismo crescente sobre uma resolução para o conflito no Oriente Médio formaram um combo que impulsionou os juros futuros na sessão de hoje. As taxas renovaram máximas intradia nos minutos finais do pregão e superaram 14% em todos os vértices, diante de percepção “ultra hawk” que dominou o mercado.
Terminados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 subiu de 14,083% no ajuste de sexta-feira para 14,205%. O DI para janeiro de 2029 saltou a máxima intradia de 14,06%, vindo de 13,841% no ajuste anterior. O DI para janeiro de 2031 avançou de 13,884% no ajuste a máxima de 14,04%.
Após recuarem cerca de 10% na última semana, as cotações do petróleo escalaram ao redor de 5% na sessão regular desta segunda, pressionadas pelo acirramento das tensões geopolíticas, após a suspensão de comunicações entre Estados Unidos e Irã, ataques de Israel no Líbano e, ainda, incertezas sobre a oferta global da commodity.
Já por aqui, o Focus mostrou nova rodada de deterioração das estimativas do mercado para a inflação: a mediana dos analistas para o IPCA de 2026 passou de 5,04% a 5,09%; para 2027, de 4,01% a 4,02%; e para 2028, horizonte que tem sido citado como fonte de preocupação pelo BC, de 3,65% a 3,66%.
“Está ganhando corpo no mercado essa narrativa de um BC ‘ultra hawk’, tentando conter as expectativas de inflação longas”, disse um gestor da mesa de renda fixa de uma grande corretora, sob anonimato. “A curva praticamente não tem queda até janeiro de 2027”, observou.
Em reunião trimestral com o diretor de Política Econômica do BC, Paulo Picchetti, realizada hoje, a Broadcast apurou que economistas discutiram o espaço para mais flexibilização dos juros. Um grupo minoritário de participantes chegou a levantar um possível risco à credibilidade da autoridade monetária caso siga avançando nas reduções.
A taxa terminal apontada pela curva estava em 14,25% no final da tarde, destaca Flávio Serrano, economista-chefe do banco Bmg, ante 14,05% na última sexta-feira. Para a reunião de junho, a curva precifica cerca de 70% de chance de redução de 0,25 ponto na Selic, com um corte “residual” projetado para o encontro de agosto do Copom, menciona Serrano. “O petróleo subindo é o pano de fundo”, disse.
Gestor de portfólio da Heritage Capital, Eduardo Cohn afirma que, além do conflito no Golfo Pérsico – que foi o responsável pela alta dos DIs na etapa intermediária do pregão e retroalimenta as expectativas para o IPCA -, fatores internos também estão se somando e devem exigir postura ainda mais cautelosa do Copom daqui em diante.
Na visão de Cohn, o BC deveria interromper o ciclo de calibração da Selic após mais um corte de 0,25 ponto neste mês. “É prudente, no papel de um banqueiro central, dar uma pausa, e esperar o desenrolar da guerra e eleição”, disse o gestor, para quem a Selic deve encerrar 2026 em 14% ano. Em seu cenário, o colegiado deve manter a taxa em 14,25% em agosto, voltando a diminui-la, com outro corte de 25 pontos-base, somente após eleições.
A equipe econômica chefiada por Mario Mesquita, que já foi diretor de Política Econômica do BC, elevou a estimativa para o juro básico ao final deste ano, de 13,25% para 13,75%, citando a nova piora do cenário inflacionário e a resiliência da atividade O ritmo de quedas de 0,25 ponto porcentual por reunião estimado antes foi mantido, “sem espaço para aceleração”.
Outro ex-integrante do Copom também deu declarações em igual direção. Em entrevista ao Valor Econômico publicada antes da abertura dos negócios, Bruno Serra Fernandes, da família de fundos Janeiro, da Itaú Asset, defendeu que, se estivesse no BC hoje, preferiria interromper o ciclo de flexibilização monetária
“Os dois já sentaram do outro lado. É preciso prestar atenção no que eles falam, mexe com o mercado”, afirmou Cohn, que também ressalta o ambiente externo volátil como outro fator que atrapalharia o BC a seguir cortando os juros. “Isso vem se somando e não vai dar para cortar tanto a Selic quanto se imaginou”, concluiu.
