Com Débora Elisa.
Belo Horizonte, hoje em dia, é reconhecida como ‘a capital dos drinks em lata’, posição que se reforça a cada Carnaval. Exemplo disso é a Xeque-Mate, que nasceu há 11 anos nas ruas capital mineira e hoje tem espaço garantido em isopores de ambulantes e freezers de supermercados. Hoje, o Grupo Xeque Mate Bebidas comanda um ecossistema que inclui linha de vestuário, estúdio audiovisual, bares próprios e duas marcas de drinks prontos vendidas em milhares de pontos pelo país.
Essa trajetória é o retrato mais nítido de uma revolução que transformou a capital mineira no principal polo brasileiro de bebidas RTD (ready to drink), e que agora mira o cenário nacional com força total no pós-Carnaval de 2026.
O segmento vive um momento de virada. Se antes o Carnaval era a principal vitrine desse tipo de bebida, o cenário atual mostra um consumidor que incorporou a latinha ao dia a dia.
Hoje, dezenas de rótulos disputam espaço nas gôndolas. A Update conversou com três marcas que ilustram esse caminho crescimento: a Xeque-Mate, com o lançamento da Mascate Drinks; a Lambe Lambe, que aposta em ingredientes 100% naturais; e a Equilibrista, que busca sempre oferecer sensações diferentes a quem bebe.
Por que as RTDs estão tão relevante
Uma pesquisa da GlobalData, publicada em janeiro do ano passado, mostrou como, globalmente, o setor de bebidas alcoolicas atravessa um momento de desafios, impulsionado principalmente pela queda de de consumo alcoolico no geral. Em relação às gerações, um estudo da MindMiner aponta que apenas 45% dos jovens da Geração Z (nascidos entre 1995 e 2009) consomem bebidas alcoólicas, o que representa ao menor índice desde os anos 60.
Neste cenário de menor consumo, a embriaguez deixa de ser o motivador da bebida, e as experiências e sabores passam a ser protagonistas.
“A inovação em ingredientes ajuda a manter o ‘apelo intergeracional’, especialmente junto aos consumidores da Geração Z”, explicou Alice Popple-Connelly, analista de consumo da GlobalData em relatório.
Com diferentes possibilidades e inúmeras marcas competindo para oferecer o melhor sabor ao consumidor, as bebidas em lata chegam em um dos momentos de maior exposição, principalmente no Carnaval de BH, que recentemente registrou público de 6 milhões e faturamento de R$ 1,4 bi.
Projeto de expansão Pós-Carnaval
Lambe Lambe: ingredientes naturais e crescimento independente
Visando presença cada vez maior nesse mesmo cenário belo-horizontino, a Lambe Lambe trilha um caminho que valoriza independência, produção local e uma regra inegociável: trabalhar exclusivamente com ingredientes 100% naturais.
A marca já opera com quatro lojas em Belo Horizonte e, recentemente, expandiu para o Rio de Janeiro como plano de consolidação pós-Carnaval. Para 2026, o portfólio em lata inclui tangerina, limão e sal, limonada rosa, manga e maracujá (lançamento de Carnaval) e o Zen, drink sem álcool à base de frutas.
“Hoje temos os bares da fábrica, que funcionam como bares-laboratórios. Todos os meses a gente tem algum sabor novo em teste. Os campeões de venda geralmente ganham uma versão em lata”, conta Kalinka Campos, sócia executiva e diretora de Comunicação e Estratégia da Lambe Lambe.
Uma estratégia de crescimento de marcas locais é buscar aquisições para escalar. A Lambe Lambe, porém, faz questão de manter o crescimento orgânico. “O foco nunca foi crescer rápido, mas crescer com qualidade. Estamos abertos a conversas com investidores, mas a marca não está à venda”, afirma Kalinka.
A postura se reflete nos preços: mesmo usando insumos de alta qualidade, a marca comprime a margem de lucro para manter o produto acessível. O caminho até a presença nacional, porém, esbarra em obstáculos concretos: a falta de subsídios para marcas independentes, a complexidade tributária entre estados e a logística de distribuição em um país continental.
“Não somos subsidiados, não temos grandes isenções nem investidores de alto escalão. Fazer tudo de forma independente já é um grande dificultador pensando em expansão nacional”, reconhece Kalinka.
Para manter o fôlego além do Carnaval, a estratégia é um calendário de campanhas mês a mês. “O Carnaval é uma das nossas maiores janelas de faturamento, mas é uma delas. A gente tem campanhas voltadas para datas comemorativas, eventos e janelas culturais, para manter o consumo recorrente o ano inteiro”, detalha.

Equilibrista completa 10 anos de mercado
Desde 2015 no mercado, a Equilibrista Bebidas é criadora de rótulos consolidados no Carnaval de BH, como Gingibre e Rubra. Além da presença em lojas e bares da capital mineira, a marca hoje também tem planos de expansão semelhantes da Lambe Lambe, focando em crescimento orgânico, sempre de ouvidos atentos ao cliente.
“Todo lançamento que a gente faz, fazemos com muito cuidado em perceber o que o mercado está querendo e o que está sendo percebido, não só no Brasil, mas fora do Brasil também”, explicou Guilherme Drager, sócio e diretor de comunicação da Equilibrista.
Uma das estratégias de expansão é a venda pelo site, que acaba atendendo a demanda de lugares que não há os drinks da Equilibrista já disponível nas gôndolas. Inclusive, a marca afirma que o crescimento pela loja online já é um bom indicativo.
Para aumentar ainda mais a capacidade de distribuição, a marca poderia ir por alguns caminhos distintos, como buscar novos sócios, mas Drager explica que a ideia principal é focar no que a Equilibrista tem de melhor e buscar parceiros que entrariam somente na parte da logística.
E para estar sempre relevante, um dos principais planos é sempre trazer novidades para o consumidor. “A Equilibrista vem ao longo desses 10 anos (de estrada) aperfeiçoando estudos e até desenvolvendo técnicas de produção. Então, mesmo que a concorrência seja acirrada, nós sempre estamos aprimorando o que a gente está fazendo”, continuou Guilherme Drager.
“É possível identificar tudo que a gente propõe no rótulo. Quando a pessoa vai experimentar o Gingibre, o nosso drink de gengibre, limão e gim, ela vai sentir o gosto do gengibre, ela vai perceber o gim e ela vai sentir também o toque do limão. Esse é um grande diferencial. A pessoa olha a nossa lata, lê o que está escrito e decide consumir, aquilo que ela provou está diretamente relacionado com o que foi proposto no rótulo”, completou.

Xeque-Mate lança Mascate Drinks e aposta em novo público
Pioneira em bebidas prontas à base de rum no Brasil, a Xeque-Mate é uma das RTD de mais sucesso. Nascida em BH em 2015, hoje é uma das primeiras citadas por consumidores dentro e fora de Minas Gerais quando questionados sobre o segmento.
Recentemente, para ampliar a presença, colocou nas prateleiras, em novembro de 2025, a Mascate Drinks, linha pensada para um perfil de consumidor diferente do público tradicional da marca. Já esta
“A gente trabalhou muito para construir essa receita saborosa, super elaborada, cheia de sabores. Acreditamos que tem muito público ainda para a gente ir atrás”, afirma Kessy Almeida, gerente de marketing do Grupo Xeque Mate Bebidas.
A diferença fica clara já no primeiro gole. Enquanto a Xeque-Mate carrega 7,9% de teor alcoólico, a Mascate chega com 6,5%, apenas 40 calorias por 100 ml e proposta mais leve e refrescante. Os dois primeiros sabores traduzem essa identidade tropical: melancia com framboesa, rum, hibisco e limão-siciliano; e maracujá com caju, rum e água de coco. A produção inicial foi de 1,4 milhão de litros.
“O consumidor vai perceber a diferença do sabor e da elaboração. São drinks mais elaborados, com apelo tropical, sabor frutado e perfil gaseificado”, explica Kessy.
Para a gerente, a concorrência crescente em BH é positiva. “A concorrência amplifica o público interessado em drinks prontos. O consumidor também passa a ficar mais criterioso com a qualidade, e isso é muito positivo para a gente, que passou os últimos dez anos aprimorando as nossas bebidas.”
A estratégia para sustentar a liderança vai além da bebida. O Grupo se define como um “ecossistema criativo”: a LAAB Xeque-Mate, marca de moda urbana com colaborações com Àzara, Balooting e Henner; a Xeque-Mate Studios, que recentemente produziu a regravação do clipe “Mama África”, de Chico César, celebrando 30 anos da canção; e os bares Mascate — três em Belo Horizonte e um recém-inaugurado em Caraíva, na Bahia.
“Hoje o Grupo Xeque Mate Bebidas é muito mais do que a bebida criada lá atrás. Entendemos que somos um ecossistema criativo com vários braços”, resume Kessy.

O ‘efeito-BH’
O sucesso de marcas como Xeque-Mate, Lambe Lambe e Equilibrista não aconteceu no vácuo. Belo Horizonte reuniu condições únicas para o surgimento desse ecossistema: cultura de rua vibrante, público jovem aberto a novidades e tradição de bares que facilitou a aceitação de novos formatos de bebida.
Kalinka reconhece o papel da concorrente nesse processo. “A gente enxerga o sucesso da Xeque-Mate como uma abertura de portas para o setor. O que entendemos é que era um cenário possível: as RTDs se tornarem uma categoria consolidada no cenário nacional.”
O mercado de RTD caminha para a consolidação no Brasil, com Minas Gerais na dianteira. As marcas que sobreviverem à disputa precisarão entregar mais do que uma bebida saborosa — terão que oferecer identidade, propósito e consistência. Pelo que se vê em BH, o caminho já está sendo pavimentado.