O dólar firmou leve baixa no período da tarde desta quarta-feira, 10, após forte volatilidade pela manhã e com o real voltando para uma toada de recuperação após ter tido uma das piores performances entre pares emergentes na semana passada. Apesar das ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao Irã, a alta menor do que a esperada no núcleo índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) dos EUA reduziu o temor de uma pressão adicional sobre os juros americanos, aliviando o estresse no mercado cambial.
Depois de máxima a R$ 5,1976 (+0,39%) e mínima a R$ 5,1596 (-0,35%) no mercado à vista pela manhã, o dólar fechou em baixa de 0,09%, a R$ 5,1726.
A divisa norte-americana ainda acumula alta de 0,30% na semana e 2,57% no mês, mas queda de 5,76% em 2026.
A percepção de que a guerra no Oriente Médio pode se prolongar balizou a máxima do dólar mais cedo, visto que o presidente Donald Trump prometeu que Washington voltará a atacar o Irã ainda nesta quarta, após bombardeios contra alvos iranianos na madrugada. À tarde, o republicano disse ainda que o exército do Irã está derrotado.
O operador de câmbio José Carreira, da Fair Corretora, afirma que já era previsto que o dólar abriria em alta em função dos ataques dos EUA ao Irã de madrugada e com o estreito de Ormuz novamente fechado, com a leitura de que um preço do petróleo mais elevado pode gerar inflação maior no mundo inteiro, inclusive no Brasil.
No âmbito inflacionário, contudo, o fato de o núcleo do CPI dos Estados Unidos, que exclui itens voláteis como alimentos e energia, ter vindo abaixo do esperado deu um gás para que o real conseguisse voltar para uma tendência de discreta apreciação, depois de ter sido uma das divisas emergentes com pior desempenho na semana passada.
A especialista em câmbio e crédito da be.smart, Jaqueline Neo, afirma que a inflação americana é um dos principais indicadores acompanhados pelo mercado, pois influencia diretamente nos juros do Federal Reserve e, neste sentido, uma alta menor do núcleo do CPI é uma boa notícia.
Carreira, da Fair, também aponta que, no início, o mercado estava esperando um ataque mais pesado dos EUA contra o Irã nesta noite, mas pode estar ponderando se este realmente vai ser realizado. “Às vezes o Trump também joga muita espuma e não faz nada. Só fala e não age”, pondera.
À tarde, o Banco Central informou que o fluxo cambial em junho até o dia 5 foi positivo em US$ 2,588 bilhões, fazendo o saldo acumulado de 2026 aumentar para US$ 16,6 bilhões.
O economista Sérgio Goldenstein, sócio-fundador da Eytse Estratégia, relembra, em nota, que a depreciação do real na semana passada (-2,6%) fez com que a divisa brasileira apresentasse um comportamento pior do que a maioria das moedas emergentes.
O estrategista de câmbio e juros do Bank of America (BofA) Securities, Oliver Levingston, considera que o apetite para operações de carry trade em moedas de mercados emergentes que não são exportadores de commodities diminuiu, dada a incerteza em torno da gravidade do choque de oferta de petróleo. Contudo, este não é o caso do Brasil – que é exportador líquido de petróleo. Assim, a alta de cerca de 2% da commodity nesta quarta pode também ter ajudado a amparar a leve recuperação do real.
Bolsa
O Ibovespa fechou em baixa pela segunda vez na semana, com investidores voltando a ficar cautelosos após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçar o Irã com novos ataques. As declarações desfizeram a expectativa gerada pelo próprio Trump recentemente, de que um acordo capaz de encerrar o conflito e reabrir o tráfego de navios no Estreito de Ormuz seria fechado dentro de alguns dias.
A proximidade da abertura de capital da SpaceX também foi mencionada como um fator negativo tanto para a bolsa brasileira quanto para outros mercados. A avaliação é de que investidores estariam liquidando posições em diversos ativos para angariar recursos que serão usados na operação. “Além do ruído geopolítico, tem pessoas fazendo um pouco de funding para entrar na oferta”, disse Leonardo Morales, diretor da SVN Gestão.
O Ibovespa caiu 0,70%, a 168.619,26 pontos, mais perto da mínima (168.070,99) do que da máxima da sessão (169.812,46). A Vale foi o destaque negativo do pregão, com queda de 1,02%, subtraindo 0,12 ponto porcentual da variação do índice. Na outra ponta, o melhor desempenho veio da Petrobras (PETR3 +1,50%; PETR4 1,17%), que acompanhou o aumento dos preços do petróleo e contribuiu positivamente com 0,16 ponto ao Ibovespa no dia.
Felipe Cima, especialista de renda variável da Manchester Investimentos, ressalta que, além do conflito no Oriente Médio, os investidores também passam a adotar uma postura mais cautelosa antes do anúncio de decisões de política monetária relevantes na semana que vem – nomeadamente a do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, e a do Banco Central brasileiro.
No Brasil, há uma discrepância nas expectativas. O mercado prevê maior chance de manutenção da Selic em 14,50%, mas economistas acham que o BC reduzirá os juros e indicará que os riscos de a inflação ficar acima do previsto aumentaram, o que impediria novas reduções à frente.
“Se parar agora, o mercado vai começar a exigir alta de juros”, diz Cima, acrescentando que para a Bolsa voltar a subir seria necessário o Banco Central diminuir a Selic. Ele acrescenta que a inflação trabalha contra este cenário, mas que a redução dos incentivos fiscais com efeito na atividade econômica permitiria um afrouxamento monetário.
Juros
Em mais uma sessão volátil, os juros futuros negociados na B3 percorreram a segunda etapa do pregão revertendo a tendência de alta da primeira parte dos negócios, ainda que com movimentos comedidos e sem grande devolução dos prêmios de risco. Para agentes, o discreto alívio não teve gatilhos específicos, mas representa uma correção após o estresse que levou as taxas futuras a flertar com o nível de 15% nos últimos dias.
A ponta curta exibiu queda de 3 a 4 pontos-base por quase toda a tarde, em correção após a disparada provocada pela reprecificação da trajetória da Selic. Já os vértices curtos e intermediários passaram boa parte do período rondando os ajustes, mas se firmaram em discreta baixa nas horas finais da sessão.
Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 cedeu de 14,511% no ajuste anterior a 14,495%. O DI para janeiro de 2029 diminuiu a 14,94%, vindo de 14,968% no ajuste. O DI para janeiro de 2031 oscilou de 14,809% no ajuste de terça a 14,82%.
“O mercado está disfuncional e com bastante volatilidade no ‘intraday’. Qualquer fluxo para um lado ou outro mexe bastante a curva”, afirmou à Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) Sergio Goldenstein, sócio-fundador da consultoria Eytse Estratégia.
Para um estrategista de uma grande corretora, que falou sob anonimato, não houve uma grande motivação para as taxas passarem a cair, mas a melhor explicação é que “o processo de ajuste do mercado passou do ponto e agora começam a aparecer aplicadores”
De fato, os contratos de DI abriram a sessão em forte alta, reagindo a ataques dos EUA contra o Irã realizados na madrugada, como retaliação a uma suposta ofensiva iraniana a um helicóptero americano ocorrida na terça. No início da tarde desta quarta-feira, 10, Trump endureceu o tom contra Teerã novamente, ao afirmar que Washington voltará a atacar o país persa. Diante das ameaças renovadas do republicano e, também, da redução dos estoques semanais da commodity nos EUA, o petróleo Brent para agosto, que serve de referência para a Petrobras, encerrou o pregão em ascensão de 1,8%, a US$ 93,1 por barril.
Do lado doméstico, a pesquisa Genial/Quaest, divulgada antes da abertura dos negócios, também pesou para o comportamento mais “azedo” dos juros, segundo um gestor de uma corretora. O levantamento mostrou que o presidente Lula ampliou a vantagem sobre o pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em eventual segundo turno, com 44% das intenções de voto, contra 38% do senador. A despeito da enquete eleitoral e do ambiente externo tensionado, porém, os juros futuros começaram a tarde em relativa estabilidade que, mais tarde, migrou para viés de recuo
Gestor de portfólio da Azimut Brasil Wealth Management, Marcelo Bacelar avalia que a discreta devolução reflete ajustes técnicos, sem qualquer alteração na percepção dos investidores sobre o cenário, que recrudesceu de forma relevante desde o feriado de Corpus Christi. “O movimento chegou em um ponto em que o mercado julga que já tem muito prêmio”, afirma, referindo-se à rápida mudança nas expectativas para o juro básico, que não deve ter mais cortes este ano.
“Ainda há discussão sobre os estímulos fiscais, efeitos do El Niño, uma série de riscos para a inflação”, diz Bacelar, que não tem um call para a reunião da próxima quarta-feira do Comitê de Política Monetária (Copom). O mercado de opções digitais indica cerca de 70% de probabilidade de manutenção da Selic nos atuais 14,50%, ante 30% de chance de corte de 0,25 ponto.
Em revisão de cenário divulgada nesta quarta, o ASA alterou a projeção para a Selic terminal de 2026 de 13,25% para 14,25%. Na visão do economista Leonardo Costa, a reunião de junho deve marcar o fim do ciclo de corte de juros no Brasil, com redução de 25 pontos-base. A instituição também elevou a previsão para a alta do IPCA este ano, agora em 5,5%, de 5,3% anteriormente.
Nos EUA, por fim, o CPI do dia veio exatamente em linha com as expectativas, ao avançar 0,5% em maio e 4,2% na comparação anual A curva dos Treasuries, porém, não sustentou alívio após o dado, em meio à expectativa de que o Federal Reserve (Fed) deve permanecer em compasso de espera na condução dos juros.
