O fim de semana foi de convenções e de algumas definições importantes na eleição para o governo de Minas.
O PDT confirmou Alexandre Kalil, mas a maior movimentação veio da convenção do Republicanos e continua girando em torno de um personagem que, paradoxalmente, ainda não decidiu oficialmente o que fará, ele atende pelo nome de Cleitinho Azevedo.
Cleitinho não foi. A decisão também não
O senador não compareceu à convenção do Republicanos no sábado. Cleitinho está de luto pela morte do irmão mais novo, Matheus Azevedo, vítima de leucemia, circunstância pessoal que precisa ser registrada.
Politicamente, porém, sua candidatura ao governo não foi homologada e permanece em aberto. A informação que circula nos bastidores é de que Cleitinho caminha para não disputar o governo e poderá apoiar Marcelo Aro.
Ainda não existe anúncio oficial do senador. Mas o Republicanos deixou aberta, em ata na sua convenção, a possibilidade de construir uma composição com União Brasil, PP e Podemos.
É exatamente o desenho capaz de colocar Marcelo Aro na disputa pelo Palácio Tiradentes. Aro poderia reunir a federação União Progressista e o Republicanos e transformar-se no candidato de uma parcela importante da direita e do centro-direita mineiros.
Mas esse caminho não é tão fácil como parece.
O problema chamado PL
O PL realiza sua convenção nesta segunda-feira e sua decisão será fundamental para determinar o tamanho de uma eventual candidatura de Marcelo Aro.
Flávio Bolsonaro já sinalizou que, sem Cleitinho candidato ao governo, deseja uma candidatura própria do PL em Minas. Flávio Roscoe aparece como o nome mais provável nessa hipótese.
Portanto, Aro pode conseguir reunir Republicanos e União Progressista, mas ainda precisará vencer a resistência do PL se quiser construir uma frente mais ampla.
A situação produz uma curiosidade política. Cleitinho pode não ser candidato, mas continua sendo o personagem que determina o movimento dos outros candidatos.
Se vai, muda o PL. Se não vai, além de mudar a decisão do PL, abre espaço para Aro. E, se demorar demais, pode acabar vendo cada partido escolher sozinho seu próprio caminho.
Kalil está confirmado
Vamos ao PDT.
Alexandre Kalil foi oficialmente definido pelo partido como candidato ao governo de Minas. Carlos Lupi e Mário Heringer, presidentes nacional e estadual da legenda, deixaram claro que o apoio nacional do PDT à candidatura presidencial de Lula não obrigará Kalil a reproduzir em Minas a aliança construída em Brasília.
Kalil terá liberdade para montar seu palanque estadual.
E uma dessas conversas merece atenção. PDT e PSDB negociam uma aproximação. O partido de Kalil chegou a oferecer ao PSDB espaço para uma candidatura ao Senado, e o nome naturalmente colocado nessa discussão é o de Aécio Neves.
Aécio ainda não definiu seu destino eleitoral e o acordo não está fechado. Mas uma chapa Kalil-Aécio, improvável algum tempo atrás, tornou-se uma possibilidade concreta de negociação. A política mineira tem dessas coisas: adversários históricos descobrem rapidamente afinidades quando aparece uma eleição pela frente.
O dilema do PT
O PT também resolveu sua primeira novela interna.
Patrus Ananias é o nome escolhido para disputar o governo. A convenção partidária está prevista para esta segunda-feira, dia 27, em formato virtual.
Agora surge uma segunda discussão: com quem Patrus caminhará?
Há uma ala que trabalha para ampliar a candidatura através de uma composição com o PSB. É uma tentativa de dar musculatura política e eleitoral a uma candidatura que nasceu relativamente tarde.
Mas existe também pressão pela preservação de uma frente mais claramente identificada com a esquerda, envolvendo partidos como PV, PCdoB e a federação PSOL-Rede.
E aqui aparece uma discussão interessante dentro do próprio PT. Ouvi de um integrante da executiva petista um argumento que resume bem a preocupação: não caminhar com o PSOL significaria correr o risco de perder parte da juventude urbana, inclusive o eleitor que começa a votar aos 16 anos.
É uma discussão estratégica. Patrus precisa decidir se amplia a chapa em direção ao centro e a outros aliados ou se procura consolidar primeiro o campo tradicional da esquerda.
Gabriel tenta construir o centro
Gabriel Azevedo segue sustentando sua candidatura pelo MDB.
A estratégia é ocupar um espaço de centro, com discurso menos dependente da polarização nacional e maior ênfase numa proposta administrativa para Minas. Gabriel trabalha para ampliar sua estrutura partidária e uma das possibilidades é uma composição com o Avante, partido que possui bases municipalistas importantes no estado.
Nesse desenho, o Avante poderia participar inclusive da indicação do vice. As negociações ainda precisam ser concluídas.
Gabriel sabe que dificilmente terá a maior coligação da eleição. Seu desafio será demonstrar que uma candidatura de centro consegue compensar uma estrutura partidária menor com discurso próprio e identidade eleitoral.
Mateus Simões perdeu aliados pelo caminho
E chegamos a Mateus Simões.
Talvez seja, entre os candidatos com estrutura para disputar competitivamente a eleição, aquele que viu o cenário partidário se deteriorar mais nos últimos meses, comprometendo sua estrutura inicila de campanha. Simões é governador, tem o PSD, conta com o apoio político de Romeu Zema e caminha com o Novo.
Isso está longe de ser pouco, mas é muito menos do que parecia possível anteriormente.
O Republicanos se afastou. A federação União Progressista deixou o desenho inicial de apoio. E o PL, que poderia integrar uma grande frente de centro-direita, agora trabalha inclusive com a possibilidade de candidatura própria.
O Novo realizou sua convenção sem definir ainda quem será o vice de Simões. Fernanda Altoé e Tiago Mitraud permanecem entre os nomes apresentados para a composição.
O desafio de Mateus Simões não está apenas em apresentar sua candidatura. Está em reconstruir uma aliança que, durante meses, parecia naturalmente destinada a se formar em torno do governo e que acabou se fragmentando antes mesmo do início oficial da campanha.
Cleitinho, o indeciso e fiel da balança
A fotografia da eleição mineira começa finalmente a ganhar contornos.
Patrus Ananias está colocado pelo PT. Alexandre Kalil pelo PDT. Gabriel Azevedo pelo MDB. Mateus Simões pelo PSD.
E, no campo da direita, existe a possibilidade de Marcelo Aro surgir como candidato se Cleitinho não for, enquanto o PL deve lançar candidatura própria exatamente na mesma hipótese, com o nome de Flávio Roscoe sendo o favorito.
E aí chegamos novamente a Cleitinho. O senador que ainda não decidiu oficialmente se será candidato tornou-se o fiel da balança da eleição mineira.
Se disputar, reorganiza a direita. Se desistir, abre a porta para Marcelo Aro. Se desistir e o PL mantiver sua posição, poderá ainda provocar o nascimento de duas candidaturas onde antes se imaginava uma única grande frente.
Durante meses, Minas parecia ter um problema por falta de candidatos. Agora começa a ter outro.
Candidatos que antes eram só especulações começam a sobrar e o que ainda falta são alianças suficientemente grandes para transformar candidaturas em projetos realmente competitivos.
E o curioso é que uma parte considerável dessa definição continua dependendo justamente de Cleitinho, aquele que passou os últimos meses sem conseguir definir a si próprio.
