Primeiro você começa e depois você melhora. Essa frase que se tornou viral nas redes sociais no último ano tem sido a realidade de muitas empreendedoras em Minas. A maioria, hoje, ‘dribla’ a falta de estudo formal e prefere tocar os negócios na base da experiência, mesmo em um mercado bastante competitivo.
Um estudo publicado pelo Sebrae aponta que o principal desafio que donas de empresas encontraram ao começar a empreender é a falta de conhecimento de gestão de negócios. De fato, analisando dados de ingresso de estudantes em cursos como Administração e Ciências Econômicas na UFMG, a maioria é masculina. Em 2025, a proporção foi de 60% a 40% no primeiro, e 71% a 29% no segundo. Nos atendimentos realizados pelo Sebrae — que incluem consultorias, cursos, participações em oficinas e outros serviços —, 46% foram homens e 38,36% mulheres.
Isso não impede que negócios tocados por elas prosperem na prática, como é o caso do Borda Bar, estabelecimento na região Leste da capital mineira. Ana Carolina Finotti e Ana Carolina Zanotti são sócias, e apesar de vasta experiência na cozinha, não sabiam muito sobre negócios quando as portas se abriram.
“Eu tive uma matéria de gestão na faculdade de gastronomia, mas muito pouco. No primeiro ano a gente passou um sufoco até entender melhor como tudo funcionava”, conta a Ana Carolina mais jovem, apelidada de ‘Aninha’.
O Borda Bar
O bar nasceu da vontade das duas de deixar o trabalho em cozinhas de terceiros e apostar em um projeto próprio. As sócias já trabalhavam juntas quando perceberam que compartilhavam o mesmo desejo de empreender.
“Eu trabalho com cozinha há quase dez anos e sabia que uma hora ia parar de trabalhar para outras pessoas para abrir meu próprio negócio. A gente já trabalhava junto e essa vontade acabou casando”, lembra Finotti.
Se o sonho de abrir o bar estava claro, o formato do negócio foi sendo descoberto ao longo do caminho. Segundo as empreendedoras, a ideia inicial acabou mudando bastante depois que o estabelecimento começou a ganhar vida própria e público fiel. Tudo isso por conta de uma habilidade de adaptação constante.
“A gente idealizou algumas coisas no início, mas tudo foi se ajeitando meio ‘pela Borda’. A gente costuma dizer que o bar tem a própria personalidade. As coisas vão acontecendo e a gente vai se adaptando”, diz Finotti.
Essa capacidade de adaptação, segundo elas, foi essencial para que o negócio atravessasse os primeiros anos, um período considerado crítico para bares e restaurantes. “Se a gente não fosse se adaptando às transformações que vão acontecendo, acabaria ficando para trás. A essência continua a mesma, mas a forma de operar mudou muito desde o começo”, afirma Zanotti.
Público fiel há três anos
Hoje, o Borda Bar se posiciona como um espaço voltado majoritariamente para o público LGBTQIA+, com equipe formada principalmente por mulheres. Para as sócias, manter essa identidade clara também ajuda na fidelização do público. “A gente não tem medo de se posicionar. Entendemos que não é para agradar todo mundo. O que a gente faz aqui é pensado para o público que quer estar aqui dentro”, explica Finotti.
Mesmo com experiência em cozinha, as duas admitem que o aprendizado sobre gestão aconteceu principalmente no dia a dia do negócio. “Eu até tenho uma pós em gestão estratégica de logística, mas aprendi muito mais trabalhando aqui. No início era tudo muito na raça”, conta Zanotti.
Parte desse aprendizado veio também da rede de apoio formada ao redor do negócio. Contadores, consultores e parceiros ajudaram a estruturar processos que, no começo, eram feitos de forma improvisada. “A gente teve apoio de pessoas que tinham mais entendimento e que a gente podia recorrer. Isso fez muita diferença para conseguir organizar as coisas”, afirma Finotti.
Obstáculos não são somente da Borda
Para a analista do Sebrae Minas, Arielle Alexandria, essa realidade relatada pelas Anas é comum entre mulheres que decidem empreender. Segundo ela, a falta de formação formal em gestão não significa ausência de capacidade de administrar um negócio.
“Muitas iniciam seus negócios em áreas que possuem muita habilidade técnica, mas sem preparo específicos em temas como finanças, planejamento ou marketing”, contou.
Outro fator, segundo a especialista, é que muitas empreendedoras acumulam múltiplas responsabilidades — profissionais e domésticas —, o que pode dificultar a busca por cursos ou especializações. “Tem a questão da dupla ou tripla jornada, que a mulher concilia o negócio, a casa e a família. Isso reduz o tempo disponível para ela buscar capacitação. Em muitos casos, o empreendimento também surge por necessidade imediata de geração de renda, o que leva a abertura do negócio de forma rápida e com pouco planejamento”, afirma Alexandria.
Pensando nisso, o Sebrae tem o projeto Sebrae Delas, que busca justamente oferecer capacitação de qualidade, e em diversas frentes, para mulheres empreendedoras.
Desafios de mercado
No caso do Borda Bar, além da gestão, outro desafio constante é manter a casa interessante em um mercado altamente competitivo. Minas Gerais registrou, apenas no último ano, a abertura de cerca de 25 mil bares, um setor conhecido tanto pela expansão quanto pela alta taxa de fechamento. Para se destacar, as sócias apostam em uma programação diversa e conectada com o que acontece na cidade.
“Manter uma agenda interessante é um desafio. A gente tenta fazer coisas diferentes toda semana para as pessoas continuarem querendo vir aqui”, diz Zanotti.
A programação inclui desde festas temáticas e apresentações musicais até eventos mais inusitados, como campeonatos de jogos de cartas ou transmissões de grandes shows e eventos pop. “Tudo parte muito do que a gente gosta também, de conversas nossas. Tipo o nosso campeonato de buraco. Acho que a gente é bem parecida com o nosso público”, conta Finotti.
Mesmo assim, o comportamento do público continua sendo imprevisível. “Tem semana que a galera vem muito para beber, outra que vem para comer. Tem dia que um drink sai demais e depois passa um tempo sem sair. Aqui é muito um ‘descubra’”, diz Finotti.
Quatro anos depois da abertura, o aprendizado continua acontecendo, mas hoje com muito mais segurança do que no começo. “Estamos vivendo o quarto ano de casa aberta, e hoje a gente já tem mais malícia para lidar com as situações. Ainda estamos aprendendo, mas já sabemos melhor o que fazer em muitos momentos”, afirma Zanotti.
Para as duas empreendedoras, o caminho confirma a lógica que tantas mulheres têm seguido no empreendedorismo: começar com o que se tem e aprender no percurso. “A gente foi fazendo, errando, acertando e ajustando no caminho. No fim das contas, foi assim que o bar virou o que é hoje”, conclui Finotti.