A proposta do governo dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros exportados ao mercado americano gerou repercussão imediata, mas especialistas avaliam que os efeitos podem ser mais restritos do que o anunciado inicialmente.
Para o economista Gustavo Andrade, o cenário remete ao episódio de 2025, quando Donald Trump também anunciou medidas tarifárias contra o Brasil. No entanto, ele destaca que a nova proposta é menos abrangente e deixa de fora diversos produtos estratégicos da pauta exportadora brasileira.
“O manchete é forte, mas a realidade é diferente da observada no ano passado”, avalia.
Segundo Andrade, a exclusão de produtos como café, algumas categorias de carnes, frutas, fertilizantes e aeronaves reduz significativamente o potencial de impacto da medida. Além disso, empresas brasileiras tiveram um ano para buscar alternativas, diversificar mercados e diminuir a dependência das exportações para os Estados Unidos.
O economista também observa que o mercado financeiro ainda demonstra cautela diante do anúncio. Como exemplo, cita o comportamento praticamente estável do EWZ, fundo negociado na bolsa americana que acompanha ações brasileiras.
Commodities reduzem risco para a economia brasileira
O economista Izak Carlos compartilha avaliação semelhante e ressalta que os efeitos de políticas tarifárias já são amplamente conhecidos tanto pela teoria econômica quanto pela experiência recente.
Segundo ele, tarifas tendem a encarecer importações, redistribuir renda entre setores e reduzir parte da eficiência econômica, mas o impacto depende diretamente dos produtos atingidos.
No caso brasileiro, Izak destaca que uma parcela significativa das exportações para os Estados Unidos é composta por commodities, como minério de ferro, petróleo, soja, celulose e café.
“Commodities tendem a não ser alvos prioritários das tarifas porque isso geraria efeitos inflacionários para o próprio consumidor americano”, afirma.
Na avaliação do economista, esse fator ajuda a explicar por que o Brasil está relativamente bem posicionado para absorver os efeitos da medida.
Setores específicos podem sentir pressão
Apesar da avaliação moderada, ambos os especialistas reconhecem que alguns segmentos podem ser afetados.
Empresas com maior exposição ao mercado americano devem sentir os efeitos das tarifas de forma mais intensa. No entanto, Izak lembra que existem instrumentos de apoio já disponíveis.
Segundo ele, linhas de crédito oferecidas por bancos públicos e instituições de fomento podem ser acionadas para atender setores que enfrentarem dificuldades decorrentes da medida.
Andrade pondera, contudo, que o espaço para novas políticas de crédito pode ser mais limitado do que em 2025, uma vez que muitas empresas já recorreram a financiamentos subsidiados no último ciclo de tensões comerciais e hoje apresentam níveis mais elevados de endividamento.
Debate deve permanecer no campo econômico
Izak Carlos também defende que a discussão sobre as tarifas seja tratada exclusivamente sob a ótica econômica e comercial.
Segundo ele, a possibilidade de novas barreiras já vinha sendo sinalizada pelo governo americano desde que medidas anteriores enfrentaram questionamentos judiciais nos Estados Unidos.
Para o economista, associar a questão tarifária a outros temas políticos ou diplomáticos pode prejudicar a análise dos fatos e gerar ruído desnecessário para investidores e agentes econômicos.
“O que precisamos neste momento é de frieza analítica e clareza sobre os instrumentos disponíveis”, afirma.
Enquanto o governo brasileiro acompanha as negociações com Washington, a avaliação dos especialistas é que a medida se soma aos desafios econômicos já existentes, mas, ao menos por enquanto, não representa um choque com potencial de alterar significativamente as perspectivas da economia brasileira.
