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Escrita torta e humor afiado: Dia a dia no interior de Minas vira pauta em jornal escrito por crianças

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Juntos, os colegas de escola produzem O Bárbaro, jornal que nasceu de forma despretensiosa e passou a circular entre moradores da cidade (Larissa Reis/98)

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Chuva de “granito”, briga por causa de totó e até nascimento de burro viraram manchete em Santa Maria de Itabira, cidade que fica a 160 quilômetros de Belo Horizonte. Os episódios curiosos do cotidiano da cidade inspiraram três amigos a criar um jornal artesanal, escrito à mão, que mistura humor, criatividade e um olhar atento sobre a vida local.

O projeto é assinado por João Torres Bretas, de 11 anos, Leandro Jorge Gomes e Mateus Martins de Oliveira, ambos de 12. Juntos, os colegas de escola produzem O Bárbaro, jornal que nasceu de forma despretensiosa e passou a circular entre moradores pela abordagem irreverente das notícias.

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“Nós oficialmente lamentamos todos os ocorrimentos trágicos contidos nesta obra. Todos os erros ortográficos ou gramaticais presentes nesta obra são completamente propositais (…) os pontos de vista desta obra são de responsabilidade exclusiva da editora, apesar de refletirem exclusivamente a opinião dos autores (e nós nem temos editora”, diz um trecho do jornal, em tom de sátira.

Como surgiu O Bárbaro?

A ideia surgiu na casa de Mateus, quando a televisão à cabo deu defeito e ele teve que encarar o noticiário da TV aberta. “Ele via as notícias mais doidas e teve a ideia de colocar elas num papel, sem muitos planos, em um dia no meio da aula de português”, conta João.

O primeiro rascunho foi feito rapidamente, à caneta azul, e nem chegou a ficar completo. Na época, o jornal ainda se chamava “Nótícíáríó”, nome que surgiu de forma propositalmente errada. “O Mateus perguntou para mim onde ficava o acento em ‘noticiário’, mas antes que eu pudesse responder, ele escreveu ‘Nótícíáríó’ na folha, propositalmente errado”, relembra João.

No dia seguinte, o trio refez o material com mais cuidado, usando caneta nanquim. “Depois de mais ou menos duas semanas colocamos todas as notícias, e a primeira edição ficou pronta”, diz. O lançamento ocorreu em meados de novembro de 2025. A segunda edição saiu em dezembro e começou a ser vendida no início de janeiro.

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Com o avanço do projeto, o jornal se distanciou da ideia inicial de reproduzir notícias vistas na televisão. As pautas passaram a incluir acontecimentos da própria cidade, casos presenciados pelos integrantes e histórias pouco conhecidas do cotidiano local.

‘Causos’ inusitados

Em uma das histórias publicadas no jornal, os autores descrevem o nascimento de um burro preto do morador Roberto Ronald Gomes. “A égua já estava prenha havia meses e teve, inclusive, uma dor de barriga recentemente”, diz um trecho da nota.

Em outra notícia, os estudantes criticam uma passeata que ocorreu na cidade em prol da limpeza urbana. “Se passeatas resolvessem pelo menos alguma coisa, Santa Maria já era a capital de Minas”, dispararam.

A obra conta, ainda, com a “sessão da bobagem”, em que os acontecimentos da cidade são relatados pelos leitores do jornal. “Passarinha sabiá se reproduz e depois quase no nascimento dos filhotes mata seus filhos. Foi nas plantas da minha mãe. E foi no dia 17”, escreveu uma leitora.

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Paixão pela escrita

A maior parte dos textos é escrita por João, que conta ter afinidade com a escrita desde cedo. “Eu sempre gostei de escrever. Quase toda redação eu não aguentava: se o mínimo de linhas fosse cinco, eu fazia cinquenta”, brinca.

Mesmo com a possibilidade de digitalizar o jornal, o grupo optou por manter tudo feito à mão, de forma artesanal. Segundo ele, o visual torto faz parte da identidade do projeto.

“Depois que o jornal ficou mais elaborado, até pensamos em fazer ele digitado, mas aí ia perder o charme de ser escrito à mão. Se for reparar bem, todas as linhas d’O Bárbaro são pelo menos um pouco tortas, e a gente não tem vontade nenhuma de deixá-las retas”, compartilhou.

Os exemplares são vendidos na cidade por R$ 2. A parte mais divertida, segundo os meninos, é justamente essa. “Sair na rua para vender os jornais é a melhor parte. É algo que a gente só faz junto”, afirma João. De bicicleta, eles percorrem a cidade, passam pela feira de sábado e abordam moradores nas ruas.

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Embora reconheçam que o jornal não seja exatamente uma fonte de notícias em tempo real, os criadores acreditam que ele cumpre um papel importante. “Talvez ninguém realmente se atualize pelo jornal, mas descobre muitas coisas e com certeza ri”, diz João. Para a próxima edição, a expectativa é tornar as notícias mais atuais, sem perder o humor e o estilo que transformaram fatos simples do dia a dia em manchete.

Confira a primeira e segunda edições de O Bárbaro

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Larissa Reis

Graduada em jornalismo pela UFMG e repórter da Rede 98 desde 2024. Vencedora do 13° Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão, idealizado pelo Instituto Vladimir Herzog. Também participou de reportagens premiadas pela CDL/BH em 2022 (2º lugar) e em 2024 (1º lugar).

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