A decisão do primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, de deixar o cargo é reflexo de uma insatisfação popular que vai além das disputas partidárias e tem raízes profundas na economia britânica. A avaliação é do professor de Relações Internacionais Wilson Mendonça.
Segundo o especialista, a saída de Starmer está diretamente ligada aos impactos negativos que o país ainda enfrenta após o Brexit, processo que retirou o Reino Unido da União Europeia e que, segundo ele, não entregou os benefícios prometidos à população.
“Desde o Brexit, havia uma expectativa de melhorias econômicas e sociais para grande parte dos britânicos. No entanto, isso não aconteceu. Pelo contrário, muitos dos problemas persistiram ou se agravaram”, afirma.
Mendonça destaca que o Reino Unido vive um período de instabilidade política sem precedentes recentes. Com a renúncia de Starmer, o país se prepara para ter seu sétimo primeiro-ministro em apenas dez anos.
Para o professor, essa constante troca de lideranças demonstra o desgaste dos dois principais partidos do país — Trabalhista e Conservador — diante de problemas que continuam afetando o cotidiano da população, como inflação, desemprego, dificuldades no sistema público de saúde e perda da qualidade de vida.
“O Partido Conservador permaneceu no poder por mais de uma década sem conseguir transformar o Brexit em benefícios concretos. Agora, o Partido Trabalhista também enfrenta dificuldades para apresentar resultados palpáveis à população”, explica.
Entre os nomes cotados para assumir a liderança trabalhista está Andy Burnham. Apesar disso, Mendonça avalia que uma eventual chegada de Burnham ao comando do governo dificilmente produziria mudanças rápidas no cenário de insatisfação popular.
Por outro lado, ele acredita que o político poderia estabelecer um diálogo mais próximo com regiões tradicionalmente industriais do norte da Inglaterra, onde o sentimento de abandono econômico tem crescido nos últimos anos.
Outro fator apontado pelo especialista é o enfraquecimento gradual do tradicional bipartidarismo britânico. Nesse contexto, ganha força a ascensão de Nigel Farage e do partido Reform UK, que vem ampliando sua influência com discursos voltados para temas como imigração, custo de vida e críticas ao establishment político.
Segundo Mendonça, o crescimento do Reform UK evidencia a dificuldade dos partidos tradicionais em responder às principais demandas da sociedade britânica.
“A ascensão de Farage reflete uma percepção de que Conservadores e Trabalhistas não conseguiram atender aos anseios da população, especialmente em temas como imigração, bem-estar social e crescimento econômico”, afirma.
Apesar das mudanças no cenário político interno, o professor avalia que a renúncia de Starmer não deve provocar alterações significativas na política externa britânica.
Na visão dele, o Reino Unido tende a manter posições já consolidadas em temas internacionais, como o apoio à Organização do Tratado do Atlântico Norte, a defesa da Ucrânia na guerra contra a Rússia e a manutenção de suas alianças estratégicas com os Estados Unidos.
“Pode haver mudanças de tom em alguns assuntos, mas não se espera uma alteração profunda na orientação geopolítica do Reino Unido”, afirma.
Para Mendonça, os próximos meses serão decisivos para entender se o Partido Trabalhista conseguirá se reorganizar internamente e responder ao avanço do Reform UK. O desafio, segundo ele, será apresentar soluções capazes de reduzir a insatisfação popular e devolver estabilidade política ao país após uma década marcada por turbulências.
