Celebrado em 2 de abril, o Dia Mundial da Conscientização sobre o Autismo escancara um paradoxo da saúde mental no Brasil: enquanto a ciência avança na detecção precoce do Transtorno do Espectro Autista (TEA), milhares de adultos ainda convivem décadas com dificuldades que nunca foram nomeadas. Entre o bebê que não responde ao próprio nome e o profissional de 40 anos que finalmente entende por que o mundo sempre pareceu ruidoso demais, existe um espectro — e ele é mais amplo do que a maioria imagina.
A psiquiatra da infância e adolescência Jaqueline Bifano, especialista em autismo, alerta que os sinais podem surgir muito cedo, mas exigem um olhar atento de pais e pediatras.
Sinais que não podem esperar: o que observar nos primeiros anos
De acordo com a Dra. Jaqueline Bifano, os indicadores clínicos do TEA aparecem ainda nos primeiros anos de vida. Entre os principais sinais de alerta estão:
- Ausência ou atraso no desenvolvimento da linguagem verbal
- Dificuldade em manter contato visual
- Falta de resposta ao nome
- Ausência de gestos comunicativos, como apontar ou acenar
- Padrões de comportamento repetitivos e interesses restritos
- Pouco interesse por brincadeiras compartilhadas ou por outras crianças
“O diagnóstico precoce permite o início imediato de intervenções terapêuticas baseadas em evidências, como a Análise do Comportamento Aplicada (ABA), terapias fonoaudiológicas e ocupacionais”, explica a psiquiatra.
A médica reforça que os primeiros anos de vida correspondem ao período de maior neuroplasticidade cerebral — ou seja, o cérebro da criança tem uma capacidade excepcional de se reorganizar. Quando a intervenção acontece nessa janela, os ganhos em linguagem, cognição, habilidades sociais e autonomia são significativos.
Cada autista é único: como funciona a personalização do tratamento
Falar em autismo no singular é um equívoco. O TEA é marcado por grande heterogeneidade clínica, e o tratamento precisa acompanhar essa diversidade. Segundo a Dra. Jaqueline Bifano, a personalização começa com uma avaliação detalhada que mapeia habilidades, dificuldades, perfil sensorial, funcionamento cognitivo e contexto familiar.
“O objetivo central não é ‘normalizar’ o indivíduo, mas promover seu desenvolvimento funcional, respeitando suas singularidades e potencializando suas habilidades, com foco em autonomia, inclusão social e qualidade de vida”, afirma a especialista.
A equipe multidisciplinar — composta por psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, psicopedagogos e, quando necessário, neurologistas — traça planos que podem incluir intervenções comportamentais, suporte à comunicação alternativa, estratégias de regulação emocional e, em alguns casos, medicação para comorbidades como ansiedade, TDAH ou irritabilidade.
Autismo aos 30, 40 anos: o alívio e a dor de um diagnóstico tardio
Uma parcela crescente de adultos tem recebido o diagnóstico de TEA após décadas sem respostas. São pessoas que passaram a vida inteira se sentindo “diferentes”, acumulando frustrações em relacionamentos, no trabalho e na escola — sem entender o porquê.
“Para muitos, receber o diagnóstico representa um momento de grande impacto emocional, frequentemente acompanhado por sentimentos ambivalentes: alívio por finalmente compreender suas dificuldades, mas também tristeza ou frustração por anos de incompreensão”, descreve a Dra. Jaqueline Bifano.
Clinicamente, o diagnóstico tardio abre caminho para uma releitura da própria trajetória de vida. O tratamento pode incluir psicoterapia adaptada ao perfil do espectro, orientação psicoeducacional e, quando indicado, farmacoterapia. Os resultados, segundo a psiquiatra, aparecem na melhoria das relações interpessoais, no desempenho profissional e, sobretudo, na aceitação de si e na redução do estigma internalizado.
Redes sociais e autismo: informação ou armadilha?
O debate sobre o TEA ganhou escala nas redes sociais, com perfis compartilhando vivências e características do transtorno. A Dra. Jaqueline Bifano reconhece os benefícios dessa difusão — como a redução do estigma, a validação de experiências e o estímulo à busca por avaliação profissional —, mas faz um alerta direto.
“O autodiagnóstico baseado em conteúdos generalistas pode levar a equívocos, atrasando o acesso a uma avaliação adequada ou confundindo sintomas de outras condições psiquiátricas”, pontua a médica.
A especialista reforça que o diagnóstico de TEA é complexo e deve ser conduzido por profissionais qualificados, com base em critérios bem estabelecidos. As redes sociais, segundo ela, devem funcionar como ferramentas complementares de informação — nunca como substitutas do cuidado especializado.
O mito que a sociedade precisa derrubar
Quando perguntada sobre o principal estigma que ainda persiste, a Dra. Jaqueline Bifano é categórica: a ideia de que pessoas com TEA são incapazes de se comunicar, aprender ou trabalhar de forma produtiva.
“Essa visão reducionista ignora a diversidade do espectro e contribui para a exclusão social, educacional e profissional desses indivíduos”, afirma. “Muitas pessoas com TEA possuem habilidades cognitivas preservadas ou até superiores em determinadas áreas, além de grande potencial de contribuição quando inseridas em ambientes inclusivos e adaptados.”
A psiquiatra destaca ainda outro estigma relevante: a expectativa de que todo autista apresente comportamentos “visíveis”, o que invisibiliza aqueles com manifestações mais sutis. Superar esses mitos, segundo ela, exige investimento em educação, capacitação de profissionais, políticas públicas inclusivas e uma mudança de paradigma — sair de uma visão centrada no déficit para uma abordagem que reconheça a neurodiversidade como parte legítima da condição humana.
