A falta de clareza sobre as próprias funções e a cobrança por objetivos contraditórios pesam mais no estresse no trabalho do que o excesso de tarefas, segundo uma meta-análise coordenada pela professora Gargi Sawhney, da Universidade de Auburn, nos Estados Unidos. Publicado em abril de 2026 no Journal of Vocational Behavior, o estudo reuniu 515 pesquisas e 787.959 trabalhadores para comparar os efeitos de três causas clássicas de desgaste profissional.
O levantamento levou cerca de sete anos, cobre seis décadas de dados e contou com pesquisadores da Old Dominion University e da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign. Os fatores analisados foram:
- Ambiguidade de função: quando o profissional não sabe exatamente o que deve fazer, como será avaliado ou quais são suas responsabilidades.
- Conflito de funções: quando o trabalhador recebe orientações incompatíveis entre si.
- Sobrecarga: quando há mais trabalho do que tempo para cumpri-lo.
A ambiguidade teve as relações mais negativas com satisfação, engajamento e desempenho. Para Gargi Sawhney, a descoberta contraria a ideia comum de que o volume de trabalho é o maior vilão, já que não ter clareza suficiente sobre o próprio trabalho foi o fator mais prejudicial na maior parte dos resultados estudados. Diferente da sobrecarga, que às vezes se resolve com mais prazo ou redistribuição de tarefas, a ambiguidade deixa o profissional sem saber que caminho seguir.
Já o conflito de funções apresentou a ligação mais forte com burnout, sofrimento psicológico e intenção de deixar o emprego. Esse fator responde por 47,5% da variação no burnout. A pesquisadora cita um exemplo comum: o chefe pede que uma tarefa seja feita de um jeito e, no dia seguinte, pede de outra forma. A sobrecarga, por sua vez, aparece mais associada a sintomas emocionais e físicos.
No Brasil, um levantamento da VR com base em 8.198 atestados de mais de 75 mil empresas contabilizou 957.576 horas de afastamento por questões de saúde mental entre janeiro e julho de 2026. Ansiedade e depressão somam 67% dos atestados, e a depressão, embora represente 15% dos registros, concentra 27% dos dias não trabalhados. Os dados não permitem afirmar que esses afastamentos tenham relação direta com os três fatores analisados pela Universidade de Auburn, mas mostram o tamanho do problema no país.
O tema também ganhou peso legal. Desde 26 de maio de 2026, a atualização da Norma Regulamentadora NR-1, que obriga as empresas a gerenciar os riscos psicossociais, está em fase de fiscalização com possibilidade de autuação. Na prática, sobrecarga, assédio, metas excessivas e falta de apoio da empresa precisam ser identificados, avaliados e controlados como qualquer outro risco ocupacional, o que vale para empresas de Belo Horizonte e de todo o estado.
Para reduzir o problema, a recomendação dos especialistas é que as lideranças deixem claros os objetivos, como as prioridades são definidas e como as decisões são tomadas. Em Belo Horizonte, quem sente que o estresse já afeta o sono, o humor ou a rotina pode procurar o centro de saúde mais próximo, porta de entrada do SUS, ou um dos Centros de Referência em Saúde Mental (Cersam) nos casos mais intensos. O CVV oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia. Denúncias sobre condições de trabalho podem ser feitas nos canais do Ministério do Trabalho e Emprego no gov.br ou no Ministério Público do Trabalho em Minas Gerais.
