O Setembro Amarelo chega ao 11º ano no Brasil com uma informação que ainda escapa a muitas famílias: depressão na adolescência costuma não ter cara de tristeza. Aparece como irritação, isolamento e cansaço permanente. É o que afirma a psiquiatra da infância e adolescência Jaqueline Bifano, em entrevista à 98 News.
O que diferencia uma fase de um sinal de alerta
Brigar com os pais, sofrer por amizade ou por escola e se fechar no quarto faz parte da adolescência. Isso, sozinho, não é depressão.
O que preocupa é a mudança que persiste e se espalha por várias áreas da vida ao mesmo tempo. “É quando os pais olham para aquele filho e pensam: ‘Ele não está sendo ele mesmo'”, diz Jaqueline Bifano.
Na prática, os sinais que pedem atenção são:
- Parou de encontrar os amigos e abandonou o esporte de que gostava
- As notas caíram
- O sono e o apetite mudaram muito
- Parece permanentemente cansado, irritado ou indiferente
A psiquiatra chama atenção para o disfarce mais comum. “Às vezes tem cara de irritação.” O adolescente responde mal, explode por pouca coisa e parece com raiva de todo mundo. Por trás disso pode existir sofrimento importante.
Aos 8 anos, o corpo fala antes
Uma criança de oito anos dificilmente diz que está ansiosa, porque muitas vezes nem sabe nomear o que sente. Então o sofrimento aparece no corpo e no comportamento: dor de barriga antes da escola, dor de cabeça repetida, perda de interesse pela brincadeira, medo excessivo de ficar longe dos pais, choro frequente e recusa para ir à aula.
Aos 15, o quadro muda de forma. O adolescente já entende melhor o que sente, mas costuma fazer o contrário de contar e se fecha ainda mais. Surgem isolamento, perda de prazer, sono desregulado, queda nas notas, preocupação intensa com aparência e aceitação, crises de ansiedade e sensação de vazio.
Por isso, segundo Jaqueline Bifano, não dá para avaliar saúde mental de criança e adolescente com uma lista de sintomas na mão. É preciso entender o que acontece em casa, na escola, nas amizades e na internet, e investigar bullying, violência, dificuldades de aprendizagem, TDAH e autismo. “A idade muda a maneira de sofrer. E muda, principalmente, a maneira de mostrar esse sofrimento.”
As frases que pedem reação imediata
Algumas falas precisam acender o alerta na hora: “queria sumir”, “não aguento mais”, “seria melhor se eu não estivesse aqui”, “vocês ficariam melhor sem mim”. Automutilação, uso crescente de álcool ou outras drogas e comportamentos muito arriscados também precisam ser investigados.
A psiquiatra é direta sobre o erro mais comum dos adultos nesse ponto, que é descartar a frase. “Quando um adolescente fala em morrer ou desaparecer, a pergunta não é se ele está querendo chamar atenção. A pergunta é: por que ele precisou chegar a esse ponto para mostrar que não está bem?”
Como puxar a conversa em casa
A recomendação é começar pelo que foi observado, sem diagnóstico improvisado e sem interrogatório. Um exemplo sugerido pela psiquiatra: “Percebi que você está mais quieto, que parou de encontrar seus amigos e que não está dormindo bem. Fiquei preocupado. Está acontecendo alguma coisa?”
Depois vem a parte difícil para muitos adultos, que é ficar quieto e ouvir. O adolescente pode demorar, responder “não sei” ou dizer que não quer conversar. Não é preciso arrancar uma confissão naquela hora, e sim mostrar que existe um lugar seguro para essa conversa acontecer.
Já as frases que diminuem o sofrimento fecham o acesso ao filho, mesmo quando ditas com boa intenção: “você tem tudo”, “na sua idade eu tinha problema de verdade”, “isso é falta do que fazer”, “é só pensar positivo”, “para de drama”. “A mensagem que chega é outra: ‘O que você sente não faz sentido para mim'”, explica.
Perguntar sobre suicídio não coloca a ideia na cabeça do filho
Esse é um dos maiores medos das famílias e, segundo Jaqueline Bifano, não se sustenta. Havendo suspeita, é melhor perguntar claramente se o filho já pensou que preferia morrer ou em se machucar.
“Perguntar sobre suicídio não cria uma intenção suicida. Pode, na verdade, permitir que o adolescente finalmente diga algo que estava carregando sozinho”, afirma a psiquiatra.
Se a resposta for sim, a conversa precisa continuar e checar se existe um plano, se ele pretende fazer isso e se já tentou antes. Quando há risco imediato, a prioridade muda: não é hora de discutir, dar sermão ou pedir promessa de que “não vai fazer nada”, e sim proteger, não deixar o adolescente sozinho e buscar atendimento de urgência.
Onde buscar ajuda em Belo Horizonte
Sem emergência no momento, a família deve procurar o Centro de Saúde de referência do seu território. A equipe faz o primeiro acolhimento, avalia o caso e organiza o cuidado dentro da rede. Dependendo da situação, a criança ou o adolescente segue na Atenção Primária ou é encaminhado para um serviço especializado.
Jaqueline Bifano desfaz aqui uma dúvida comum: a família não precisa descobrir sozinha qual especialista procurar ou onde conseguir uma vaga. “A porta de entrada da rede existe justamente para avaliar a necessidade e indicar o caminho adequado.”
Belo Horizonte tem três Centros de Referência em Saúde Mental Infantojuvenil (CERSAMi), que atendem menores de 18 anos por demanda espontânea ou encaminhamento, das 7h às 19h:
- CERSAMi Noroeste: Rua Manhumirim, 415, Padre Eustáquio, (31) 98451-5085. Referência para Noroeste, Oeste e Pampulha
- CERSAMi Nordeste: Praça Muqui, 155, Renascença, (31) 3246-7566 e (31) 3246-7565. Referência para Nordeste, Norte e Venda Nova
- CERSAMi Centro-Sul (antigo CEPAI): Rua Padre Marinho, 150, Santa Efigênia, (31) 98553-8097. Referência para Centro-Sul, Leste e Barreiro
À noite, as urgências psiquiátricas de crianças e adolescentes em BH são atendidas pelo CERSAMi Centro-Sul.
Quando é urgência e não consulta de rotina
Tentativa de suicídio, planejamento para morrer, intoxicação, agitação muito intensa, alteração importante do comportamento ou qualquer risco de a criança se ferir são situações de urgência. Nesses casos, a família deve procurar um serviço de urgência imediatamente e acionar o SAMU pelo 192 quando necessário.
O CVV, no número 188, oferece escuta e apoio emocional gratuitos 24 horas por dia, mas não substitui atendimento médico em uma emergência.
“Na dúvida sobre a gravidade, eu prefiro que uma família procure atendimento e descubra que o risco era menor do que imaginava a fazer o contrário”, diz a psiquiatra.
O que o Setembro Amarelo ainda não resolveu
Criada no Brasil em 2015, a campanha cumpriu uma função concreta ao colocar uma palavra difícil dentro das casas. Há alguns anos, muitas famílias sequer conseguiam falar sobre suicídio, e circulava a ideia de que perguntar poderia incentivar.
O avanço esbarra na etapa seguinte. “Existe uma distância grande entre falar sobre saúde mental e conseguir atendimento quando alguém precisa”, afirma Jaqueline Bifano. Uma mãe pode reconhecer os sinais no filho e decidir procurar ajuda, mas depois disso precisa saber onde ir, ser acolhida, ter o risco corretamente avaliado e encontrar acompanhamento que não termine na primeira consulta.
A psiquiatra defende ainda tirar a prevenção do calendário. “Uma criança não entra em crise de acordo com o calendário de uma campanha.” E propõe uma troca de pergunta: em vez de “será que isso é grave o suficiente para procurar ajuda?”, vale perguntar “por que esperar ficar grave para procurar ajuda?”.
