A americana Leslie Pickett perdeu mais de US$ 10 mil após acreditar, por meses, que mantinha um relacionamento secreto com o cantor Jon Bon Jovi. O perfil era controlado por um golpista que usava inteligência artificial para simular a imagem e a voz do artista. Por causa das dívidas, a casa de Leslie, na Louisiana (EUA), entrou em processo de execução. Ela é fã do cantor desde os 14 anos.
O contato começou no fim de 2024, quando Leslie comentou um post da conta verificada de Bon Jovi no Instagram. Cinco minutos depois, recebeu uma resposta de um perfil que parecia ser do cantor, mas não tinha o selo de verificação. O golpista afirmou que Bon Jovi queria uma relação mais pessoal com os fãs e que a conta era secreta. Segundo ele, se a empresária do cantor descobrisse, o perfil seria apagado.
Como o golpe funcionava
Nos meses seguintes, o falso Bon Jovi enviou mensagens várias vezes por dia, inclusive à noite, sobre música e assuntos do cotidiano. Ele lembrava detalhes das primeiras conversas, dizia “eu te amo”, mandou flores para a casa de Leslie e afirmou que estava se divorciando da esposa em segredo. O golpista também usava IA para produzir vídeos em que dizia o nome dela e chegou a fazer uma chamada de vídeo ao vivo. Quando Leslie pedia gestos específicos, como puxar a orelha ou mostrar a língua, o vídeo chegava em cerca de cinco minutos. Um primo da vítima, que desconfiava do relacionamento, se convenceu depois de ver as imagens.
O pedido de dinheiro só ocorreu cerca de sete meses depois do primeiro contato, estratégia que a jornalista Mariana van Zeller chama de “slow burn”, um processo lento de conquista. O pretexto era um “meet and greet”, encontro com o artista, num show exclusivo em Nashville com ingressos esgotados. O pagamento deveria ser feito à “empresária” do cantor, em criptomoeda. Leslie enviava de US$ 100 a US$ 150 por vez, mas o golpista alegava que os valores “não tinham caído” e pedia quantias maiores por Venmo, PayPal, Cash App e Bitcoin. Em julho de 2025, ele disse estar na Louisiana, mandou fotos num hotel que Leslie conhecia e exigiu uma “checagem de segurança” por chamada no Google Chat. Na ligação, desligou de repente e acusou Leslie de tentar gravar a conversa. Em seguida, pediu uma quantia bem maior em Bitcoin, e foi então que ela percebeu o golpe.
Leslie procurou Mariana van Zeller, apresentadora do documentário Super Scam Me, da National Geographic, disponível no Disney+ e no Hulu. Na investigação, um ex-hacker armou uma isca e rastreou o endereço IP do golpista até Lagos, na Nigéria. Com o Google Earth, a equipe identificou a provável casa de onde as mensagens eram enviadas. No documentário, van Zeller também vai à África confrontar um suspeito de golpe. Segundo a jornalista, golpes românticos são o tipo de crime financeiro que mais cresce. Um em cada sete americanos diz já ter perdido dinheiro com esse tipo de fraude, e, em 2025, golpistas tiraram mais de US$ 1 bilhão de vítimas nos EUA. Van Zeller afirma que os deepfakes atuais parecem profissionais e convincentes e conta que, durante a investigação, recebeu um vídeo falso e realista de George Clooney.
Sinais de alerta
Leslie trabalha hoje em tempo integral para se recuperar financeiramente e diz que ainda tem dificuldade de confiar nas pessoas. Ela se tornou ativista e usa as redes sociais para alertar sobre contas não verificadas. O caso reúne quatro sinais de alerta:
- Perfil de famoso sem o selo de verificação.
- Pedido para manter a relação em segredo.
- Pagamento em criptomoeda com a justificativa de que é “mais seguro”.
- Pagamentos que “não caem” e levam a pedidos cada vez maiores.
